Os pais de Raphael Costa de Carvalho, de 31 anos, prestaram depoimento à Polícia Civil na manhã desta segunda-feira (14), em São Vicente, no litoral de São Paulo. O motorista é procurado pela Justiça após ter a prisão temporária decretada devido à morte do coletor de lixo André Luiz de Menezes da Silva, de 45 anos.
Como já noticiado, o atropelamento aconteceu por volta das 4h47 do último dia 3, na Rua Onze de Junho, no bairro Itararé, próximo à Praia dos Milionários. André Luiz estava de bicicleta a caminho do trabalho quando foi atingido pelo veículo, que invadiu a ciclofaixa. Ele morreu no local, e o motorista não prestou socorro.
A mãe de Raphael foi intimada pela corporação no último sábado (12) e, segundo a defesa, corrigiu uma informação dada anteriormente à polícia. Segundo o advogado Ricardo Capusso Velloso, a mulher havia relatado que o filho estava embriagado, mas agora afirmou que não viu Raphael horas antes do atropelamento.
“A mãe veio prestar um novo depoimento e retificou o anterior, onde constou que Raphael estava embriagado, sendo que ela sequer viu Raphael após as 20 horas do dia anterior [ao atropelamento]”,
disse.
Segundo o boletim de ocorrência (BO), o carro é uma Range Rover Evoque P300 HSE, de cor cinza. Inicialmente, a mãe de Raphael, que terá a identidade preservada, colaborou com os policiais militares que atenderam à ocorrência, informando que o motorista era o próprio filho após ter acesso às imagens do ocorrido.
O motorista estava bêbado?
De acordo com o advogado, Raphael encontrou um “amigo de infância” em frente a uma adega após sair do trabalho, e os dois teriam decidido ir para um pagode por volta das 3h, na madrugada do ocorrido. No local, o amigo de Raphael comprou uma garrafa de uísque e passou a beber com outras pessoas.
Por volta das 4h, Raphael teria convidado o amigo para ir até a Ilha Porchat, península na divisa entre Santos e São Vicente. Segundo o advogado, o amigo informou que estava cansado, mas Raphael insistiu. Os dois se despediram das outras pessoas, e o passageiro levou a garrafa de uísque para dentro do veículo.
Contudo, Velloso foi categórico ao afirmar que Raphael não havia consumido bebida alcoólica, ao contrário do amigo de infância. “Quem tem que provar que ele consumiu bebida alcoólica, no caso, neste momento, é a Delegacia de Polícia, o que está sendo investigado ainda”, disse em entrevista ao VTV da Gente.
Como o atropelamento aconteceu?
De acordo com o advogado, o atropelamento aconteceu após uma distração por parte do motorista, na Rua Onze de Junho, já próximo à Ilha Porchat. “No momento do acidente, o celular caiu da mão dele e ele baixou pra pegar o celular. Então, ele não percebeu que invadiu a ciclovia”, explicou à reportagem.
A defesa afirma que o motorista percebeu que havia atingido alguma coisa, mas não identificou o que era, apesar de ouvir “o barulho de vidros se quebrando”. Segundo o advogado, Raphael acreditou que havia causado danos materiais no edifício pelo qual havia passado no momento do impacto.
“Raphael não parou o veículo e passou a conduzi-lo em direção à sua residência e falou para seu amigo que só pararia ao chegar. Durante o trajeto, já na Rua Campos Sales, centro da cidade de São Vicente, ao passar por uma valeta, estouraram dois pneus do veículo e, assim, Raphael estacionou o veículo no local e, juntamente com seu amigo, desembarcaram, passando ambos a correrem. Raphael não percebeu que havia atingido uma pessoa e só ficou sabendo que se tratava do ciclista quando sua Genitora entrou em contato com ele”,
disse ao VTV News.
O advogado também afirma que Raphael deixou o local para “não pagar pelo prejuízo do condomínio”.
Por que o carro foi abandonado?
Após o atropelamento, o motorista e o passageiro seguiram para a Rua Campos Sales, no Centro, a cerca de três quilômetros do local do acidente, onde o carro foi deixado. O advogado explica que o veículo teve dois pneus estourados após passar por uma valeta – uma depressão na via utilizada para escoar água da chuva.
Os dois só correram, segundo Velloso, porque “estavam assustados com o dano material”. O momento foi registrado por imagens de câmeras de monitoramento obtidas pelo VTV News (assista abaixo).
A Polícia Civil conseguiu identificar o motorista porque, junto ao veículo, foram encontrados um documento pessoal e um cartão de convênio médico em nome dele. Havia ainda parte da roupa da vítima presa ao carro. Raphael já havia sido preso por dirigir embriagado em 1º de setembro de 2024.
Onde está Raphael?
Na última sexta-feira (11), a polícia foi até a casa de Raphael para cumprir o mandado de prisão temporária expedido pela Justiça contra ele, mas o motorista não estava no local. Conforme apurado, o motorista segue desaparecido desde a madrugada do atropelamento e, em razão disso, é considerado foragido.
Sobre o mandado de prisão, o advogado afirmou que a medida causou “estranheza” à defesa. Segundo Velloso, não estariam presentes os requisitos previstos em lei para autorizar a decretação da prisão.
“A defesa entende que não existem motivos para a expedição do mandado de prisão temporária, pois Raphael já foi identificado, o veículo foi periciado. A esposa da vítima já foi ouvida, as testemunhas já foram ouvidas. Ele não oferece nenhum tipo de risco às testemunhas ou para prejudicar a investigação. Portanto, a prisão temporária, no entendimento da defesa, se faz desnecessária”,
afirmou.
A defesa também informou que Raphael não pretende se apresentar à polícia neste momento e que “não sabe onde ele está”, mas que, ainda assim, será apresentado um habeas corpus para tentar revogar a decisão.
O advogado informou ainda que, “conforme será demonstrado durante a instrução processual, Raphael não estava embriagado”. O defensor também expressou, em nome do cliente, “condolências à família [da vítima], deixando claro que em nenhum momento teve a intenção de ferir ou tirar a vida de qualquer pessoa”. Por fim, Velloso afirmou que Raphael “expressa sua intenção de indenizar a família da vítima e ajudar os mesmos”.
Versão do passageiro
O passageiro do veículo, descrito como “amigo de infância” de Raphael e testemunha do acidente, prestou depoimento no último dia 4, acompanhado do advogado Mário Badures. Segundo a defesa, ele afirmou que os dois consumiram uísque, mas também disse que não percebeu que o carro havia atingido uma pessoa.

Em nota, Badures afirmou que “trata-se de um gravíssimo atropelamento, que vitimou um pai de família” e que seu cliente “compareceu em solo policial demonstrando disposição em colaborar ao máximo com as investigações”. Segundo o defensor, as circunstâncias presenciadas pelo passageiro foram “exaustivamente explicadas à Autoridade Policial”.
“É de se observar que a testemunha em nenhum momento teve conhecimento de que havia uma vítima fatal, declarando ter a dinâmica sido muito rápida e que o impacto do seu lado, sendo que em razão do estrondo, se assemelhava à colisão com outro automóvel ou algo do gênero. A ciência de que se tratava de um atropelamento com vítima fatal se deu posteriormente em razão das postagens em mídia social e cobertura da imprensa, questão essa que motivou o comparecimento e esclarecimento dos fatos em solo policial”,
disse o defensor do passageiro.
Ao VTV News, o advogado também explicou que o passageiro não é tratado como suspeito pela Polícia Civil e que não há pedido de prisão preventiva contra ele, diferentemente do que ocorre com o motorista. “Grave fake news e que atrapalha, inclusive, a própria apuração […]. A responsabilidade penal é individual e não se confunde passageiro, ora testemunha, com o motorista, autor dos fatos”, complementou.
Quem era a vítima
André morava no bairro Parque Bitaru e estava a caminho do trabalho, em Santos, quando foi atingido pelo veículo e arremessado contra a fachada de um prédio. A vítima completaria 46 anos no dia 15 de setembro. Ele deixou uma filha de um ano, do atual relacionamento, e um filho adolescente, do primeiro casamento.
Segundo a Prefeitura de São Vicente, o coletor sofreu um grave traumatismo cranioencefálico. Equipes do Corpo de Bombeiros (Cobom) encontraram a vítima em parada cardiorrespiratória e realizaram os primeiros procedimentos de reanimação. O Samu também foi acionado, mas confirmou a morte às 4h47.





