A aviação comercial brasileira movimentou quase 130 milhões de passageiros em 2025, o maior número da história. Apesar do recorde, o crescimento do setor ainda não chegou da mesma forma a todas as regiões do país.
O Brasil já teve centenas de aeroportos atendidos por voos regulares. Atualmente, esse número está próximo de cem, segundo diagnóstico apresentado pelo Ministério de Portos e Aeroportos.
A perda de conectividade regional foi um dos principais assuntos de uma mesa-redonda realizada na sede do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) e da Frente Parlamentar de Portos e Aeroportos, em Brasília. O encontro reuniu representantes do governo, de empresas e de entidades ligadas ao setor aéreo.
Segundo Clarissa Barros, diretora de Políticas Regulatórias da Secretaria de Aviação Civil, a redução da malha aérea regional ocorreu ao longo das últimas décadas.
“Esse encontro promovido pelo IBI é de extrema importância para o transporte aéreo e para o desenvolvimento dos aeroportos regionais. O Brasil já teve centenas de aeroportos conectados com voos regulares e hoje conta com cerca de cem”, afirmou.

Dois em cada três estão sem voos regulares
O cenário é ainda mais preocupante entre os aeroportos delegados, que são estruturas pertencentes à União, mas administradas por estados ou municípios por meio de convênios.
De acordo com a Secretaria de Aviação Civil, aproximadamente dois em cada três aeroportos delegados não recebem voos regulares.
Os números revelam um contraste. Ao mesmo tempo em que o país registra a maior movimentação de passageiros da história, grande parte da estrutura aeroportuária regional permanece fora da malha regular.
O desafio, segundo os participantes do encontro, não é apenas aumentar o número de pessoas viajando, mas ampliar a quantidade de cidades atendidas e fazer com que o crescimento da aviação alcance mais regiões.
Aeroportos como instrumento de desenvolvimento
Para o diretor do IBI Nicola Margiotta Junior, os aeroportos regionais não devem ser vistos apenas como locais de embarque e desembarque. Essas estruturas também podem estimular a economia dos municípios onde estão instaladas.
“A aviação regional é um importante vetor. É uma indústria que potencializa as questões regionais e os municípios onde existem aeroportos. Nós percebemos o quanto isso eleva o PIB, gera impostos e contribui para o desenvolvimento”, declarou.

Durante a reunião, os participantes destacaram que a presença de voos regulares pode movimentar o turismo, gerar renda e facilitar a circulação de passageiros, profissionais e mercadorias.
A diretora da Secretaria de Aviação Civil também defendeu uma visão mais ampla sobre o setor.
“A aviação civil não é um meio de transporte que realiza somente um objetivo de turismo, mas um meio de desenvolvimento econômico e logístico”, explicou Clarissa Barros.
Reforma tributária preocupa o setor
Outro assunto discutido foi o impacto da reforma tributária sobre a infraestrutura aeroportuária. Representantes do setor demonstraram preocupação com o possível aumento da carga sobre as empresas prestadoras de serviços.
O CEO da Rede VOA, Marcel Gomes Moure, afirmou que a neutralidade está entre os objetivos da reforma, mas alertou para os efeitos que o modelo pode provocar.
“A reforma tributária, na sua essência, tem o conceito da neutralidade, para que no final melhore para todos e também para a arrecadação do governo. Mas percebemos que a área de serviços será mais afetada naturalmente em função do modelo que foi construído”, afirmou.

A avaliação é que eventuais aumentos de custos podem afetar aeroportos, operadores e outros segmentos ligados à aviação. Por isso, representantes do setor defendem que os impactos sejam discutidos antes da implementação completa das novas regras.
Investimentos nos aeroportos regionais
O encontro também abordou as concessões à iniciativa privada, os convênios de delegação e os programas públicos voltados à modernização da infraestrutura.
Entre as iniciativas citadas está o AmpliAR, programa do governo federal que prevê mais de R$ 5 bilhões em investimentos privados e tem como meta modernizar até cem aeroportos em todo o país.
A proposta é permitir que concessionárias de grandes terminais também assumam a administração de aeroportos regionais, ampliando investimentos e melhorando a infraestrutura dessas unidades.
Os participantes defenderam ainda uma maior aproximação entre o Ministério de Portos e Aeroportos, a Agência Nacional de Aviação Civil, estados, municípios e operadores privados.
A expectativa é que o diálogo ajude a recuperar rotas, ampliar a presença de voos regulares no interior do país e transformar aeroportos hoje subutilizados em instrumentos de integração e desenvolvimento regional.




