“É uma dor que nunca vai passar.” Seis anos depois de perder o irmão, Caíque André Moura Santos ainda se lembra dos detalhes daquele dia. O sangue, a tentativa de socorro e a sensação de que Jordy não sobreviveria ao ferimento permanecem na memória. Ao mesmo tempo, ele tenta preservar as lembranças de quem o adolescente era antes de morrer: um garoto alegre, trabalhador e querido pela família e pelos amigos.
Jordy Moura Silva morreu em 5 de abril de 2020, após ser atingido por um disparo de arma de fogo durante uma ocorrência envolvendo a Guarda Municipal, em Campinas, no interior de São Paulo. Caíque, que estava com o irmão em uma motocicleta, também foi baleado no episódio.
O guarda municipal Claudino Gonçalves responde à acusação de homicídio qualificado pela morte de Jordy e tentativa de homicídio contra Caíque. Em agosto de 2025, a Justiça decidiu que o acusado deve ser julgado pelo Tribunal do Júri. Agora, o processo avança em uma etapa que antecede a definição da data do julgamento.
Para a família, a movimentação representa a possibilidade de enxergar um horizonte depois de anos de espera. Para Caíque, no entanto, a expectativa por justiça convive com a saudade de um irmão cuja história, segundo ele, precisa ser lembrada para além das circunstâncias da morte.
“Ele era um garoto espetacular”, lembra o irmão
Ao falar de Jordy, Caíque não começa pela ocorrência policial nem pelo processo. Ele fala do irmão que fazia a família rir, dos conselhos e das pequenas manias que permaneceram na memória.
“Era um garoto que todo mundo gostava. Ele era puro de coração, não tinha maldade”, conta.
Jordy também era trabalhador, segundo Caíque. O adolescente estudava e, depois das aulas, seguia para a oficina da família. A rotina, de acordo com o irmão, costumava terminar no início da noite.
“Saía da escola, ia para a oficina da família, trabalhava na oficina. Seis horas, seis e meia, chegava em casa”, recorda.
A lembrança mais carinhosa, porém, está em um gesto aparentemente simples. Quando Jordy ficava frustrado porque alguma coisa não dava certo, fazia um movimento específico com a boca. Anos depois, Caíque passou a reconhecer esse mesmo gesto no próprio filho.
“Toda vez que eu vejo o meu filho fazendo isso, eu lembro do meu irmão”, diz.
É dessa maneira que ele deseja que Jordy permaneça na memória de quem o conheceu: não apenas como o adolescente que morreu durante uma ocorrência policial, mas como uma pessoa que tinha sonhos, relações, hábitos e uma história anterior à tragédia.
“Eu gosto quando as pessoas lembram dele de forma boa. Trabalhador, honesto. É assim que eu gosto que as pessoas lembrem dele”, afirma.
Caíque relembra os disparos e a tentativa de socorro
Na tarde de 5 de abril de 2020, Caíque estava com Jordy em uma área onde outras pessoas se reuniam com motocicletas. Em entrevista ao VTV News, ele afirma que os irmãos estavam parados, observando o movimento, quando uma viatura da Guarda Municipal chegou.
Segundo seu relato, um agente disparou para o alto. Na sequência, outros tiros provocaram correria no local.
Caíque conta que decidiu sair dali com Jordy. Em determinado momento, porém, os irmãos voltaram para buscar um capacete. Foi quando, segundo ele, a viatura retornou na direção deles.
Ao perceber que não conseguiria continuar pela estrada, Caíque parou a motocicleta perto de uma elevação de terra. Ele relata que olhou para trás e sentiu o impacto do disparo.
“Eu olhei para trás, com o meu ombro esquerdo, vi a viatura que já estava ao meu lado e senti o disparo”, recorda.
Naquele primeiro instante, ele ainda não sabia que Jordy também havia sido atingido. O irmão caiu sobre suas costas, e a motocicleta tombou. Quando Caíque conseguiu olhar para ele, percebeu a gravidade do ferimento.
Segundo o relato, o mesmo projétil que atingiu o pescoço de Jordy também feriu seu ombro direito.
“Aquele momento é um momento de desespero. Não por eu ter tomado o tiro, mas por eu ter visto que ele estava baleado”, conta.
Caíque tentou socorrer o irmão. Na lembrança dele, a gravidade do ferimento indicava que Jordy dificilmente resistiria.
“É uma dor que nunca vai passar”, afirma.
O relato de Caíque integra a história pessoal da família e se soma aos depoimentos registrados no processo. A definição sobre a responsabilidade criminal, entretanto, caberá aos jurados, durante o julgamento.

O que consta no processo sobre a ocorrência
A decisão judicial que levou Claudino Gonçalves a julgamento reúne versões diferentes sobre o que aconteceu naquela tarde.
Em depoimento à Justiça, Caíque afirmou que o passageiro da viatura efetuou os disparos contra os irmãos. Georgio Moura Silva, outro irmão de Jordy, também declarou ter visto Claudino atirar na direção deles. Uma testemunha que morava nas proximidades relatou ter visto um adolescente levantar as mãos antes de ser atingido.
Esses depoimentos foram considerados pelo juiz ao analisar se havia elementos suficientes para encaminhar o caso ao Tribunal do Júri.
Claudino, por sua vez, negou ter atirado contra as vítimas. Na versão apresentada em juízo, ele afirmou que a equipe foi ao local para atender a uma ocorrência envolvendo motociclistas e que houve disparos durante a situação. O guarda declarou ter efetuado um tiro para o alto, mas negou ter atingido Jordy ou Caíque.
A decisão também registra que a defesa apresentou teses relacionadas à legítima defesa e questionou a classificação dos crimes. O juiz, no entanto, entendeu que havia prova da materialidade e indícios suficientes de autoria para que os jurados analisassem o caso.
Por isso, em 8 de agosto de 2025, pronunciou Claudino para julgamento pelo Tribunal do Júri. A decisão manteve as acusações de homicídio qualificado e tentativa de homicídio qualificado, com as circunstâncias descritas no processo.
A pronúncia não significa que a Justiça tenha declarado o acusado culpado. Trata-se de uma decisão que reconhece a existência de elementos suficientes para submeter a acusação aos jurados, responsáveis por decidir o mérito do caso.
Advogado diz que família espera uma resposta do Estado
Para o advogado Salvador Scarpelli Neto, que representa a família, o processo precisa ser compreendido também pelo impacto que a morte de Jordy provocou e pelo papel do Estado na apuração de uma ocorrência envolvendo agentes de segurança pública.
Salvador afirma que a defesa do acusado deve ser respeitada e que o processo precisa seguir todas as garantias legais. Na avaliação dele, esse cuidado é fundamental para que a conclusão sobre os fatos resulte da análise das provas produzidas ao longo da ação penal.
O advogado também contesta tentativas de retratar Jordy como criminoso. Segundo ele, essa imagem apareceu durante a discussão do caso, embora, em sua avaliação, não tenha sido comprovado que o adolescente estivesse armado ou tivesse disparado contra os agentes.
Salvador afirma que a arma atribuída às vítimas não foi encontrada e menciona exames residuográficos que, segundo ele, não identificaram resíduos de disparo nas mãos de Jordy e Caíque. Essas afirmações fazem parte da avaliação do advogado sobre as provas do processo e deverão ser consideradas no contexto da análise judicial.
“Jordy não é um criminoso, Jordy não é um bandido. Jordy é um jovem que perdeu a sua vida de forma violenta e desnecessária”, afirma Salvador.
O advogado diz que preservar a dignidade e a memória do adolescente é parte importante do trabalho da família. Para ele, a discussão sobre o caso também envolve os limites do uso da força por agentes públicos e os mecanismos de controle da atuação policial.
Nesse contexto, Salvador defende o debate sobre o uso de câmeras corporais pela Guarda Municipal. Na avaliação dele, instrumentos de registro podem contribuir para a fiscalização da atuação dos agentes de segurança e para a apuração de ocorrências.
Processo chega à etapa anterior à definição do júri
Depois da decisão de pronúncia, o processo seguiu para as etapas que preparam o julgamento em plenário. Em atualização recente, a Justiça determinou que as partes indiquem as testemunhas que deverão depor diante dos jurados.
Essa fase antecede a definição da data do Tribunal do Júri. Ainda podem ocorrer diligências solicitadas pelas partes, conforme explicou Salvador ao VTV News. Portanto, a movimentação processual não significa que o julgamento já tenha data marcada.
O advogado afirma que a família recebeu a notícia com esperança. Durante anos, segundo ele, os parentes conviveram com a incerteza sobre quando o acusado seria julgado e sobre quais seriam os próximos passos do processo.
“Não é uma questão de vingança. Eles querem que o Estado, de certa maneira, realize o seu papel, que é fazer o julgamento dessa pessoa”, explica.
Para Salvador, o júri também tem um significado simbólico porque o acusado atuava como guarda municipal no momento dos fatos. Ele considera que o julgamento permitirá discutir não apenas a responsabilidade individual do réu, mas também os limites que devem orientar a atuação de profissionais que exercem funções de segurança pública.
A expectativa, porém, não elimina a necessidade de respeitar a presunção de inocência e o direito de defesa. A decisão final sobre as acusações caberá ao Conselho de Sentença, após a apresentação das provas e dos argumentos das partes.

Família espera justiça, não vingança
Caíque afirma que a notícia sobre o avanço do processo trouxe esperança para a família. Depois de seis anos, os parentes querem acompanhar o julgamento e ouvir a decisão dos jurados.
“A gente espera por justiça. Não vingança, mas uma justiça… Com todo o rigor da lei”, afirma.
A família ainda convive com a ausência de Jordy. Caíque conta que a perda também atingiu o outro irmão, a mãe e a avó, e que o período após a morte foi especialmente difícil. Com o tempo, diz ele, as lembranças passaram a dividir espaço com a dor.
Hoje, são os momentos cotidianos que ajudam a manter viva a memória do adolescente: o sorriso, as brincadeiras, as discussões entre irmãos e os vídeos gravados antes da tragédia.
Caíque também quer que a história de Jordy seja contada com cuidado, sem que acusações não comprovadas definam a imagem do adolescente.
“Ele era um garoto bom, alegre… Eu tenho meu irmão no meu coração para sempre, até o último dia da minha vida”, afirma.
Enquanto a Justiça prepara a próxima etapa do processo, a família espera que o Tribunal do Júri examine as provas e dê uma resposta sobre as acusações. Para Caíque, o julgamento não apagará a perda, mas poderá representar o fim de parte da incerteza que acompanha os parentes desde abril de 2020.




