Tenho falado bastante ao longo de 2026 sobre a necessidade de enxergarmos o rádio como um meio multiplataforma, no qual o dial e os diferentes ambientes digitais se complementam para ampliar a entrega de conteúdo e o relacionamento com a audiência. Esse entendimento ganhou força nos debates realizados ao longo do ano, mas existe uma segunda etapa dessa discussão que considero fundamental para o futuro das emissoras: como transformar toda essa presença em oportunidades comerciais? Afinal, não basta uma rádio estar no FM, no streaming, nos aplicativos, nas redes sociais e em outros dispositivos conectados se essas possibilidades não forem também organizadas como produtos capazes de gerar valor para os anunciantes e, consequentemente, novas receitas para a operação.
Essa foi uma das reflexões que tivemos recentemente em Caxias do Sul (RS), durante um workshop realizado pelo SindiRádio, pela Agert e pela Universidade de Caxias do Sul, no qual participei ao lado do Cristiano Stuani. O encontro reuniu 85 profissionais e permitiu aprofundar uma questão que venho observando em diferentes emissoras: muitas vezes, a rádio já dispõe de ferramentas e canais que poderiam ampliar sua atuação comercial, mas ainda não consegue enxergar todo esse potencial de forma integrada. Um streaming pode oferecer inventário publicitário próprio, um aplicativo pode ampliar o relacionamento com a audiência, um portal pode disponibilizar formatos digitais e as redes sociais podem agregar alcance e engajamento às campanhas. Tudo isso já faz parte da realidade de muitas operações, mas nem sempre está devidamente organizado, mensurado e apresentado ao mercado como uma solução comercial.
E talvez esteja aí um dos principais desafios. Durante muito tempo, o rádio estruturou sua comercialização principalmente a partir da programação transmitida pelo dial, com formatos bastante conhecidos pelo mercado. Essa entrega continua sendo extremamente importante, mas hoje existem outras possibilidades que não precisam competir com ela. Pelo contrário. Podem ampliar a presença de uma campanha, oferecer novas experiências de contato com o público e permitir que uma mesma marca acompanhe o ouvinte em diferentes momentos do dia. Só que isso exige conhecer melhor os próprios canais, compreender suas métricas, organizar inventários e desenvolver propostas que façam sentido para cada anunciante. Não se trata simplesmente de acrescentar um post nas redes sociais ou um banner no site a um pacote de mídia tradicional, mas de entender o papel de cada plataforma e o que ela efetivamente pode entregar.
Outro ponto que me chama a atenção é como a Inteligência Artificial pode contribuir para essa transformação, especialmente nas rotinas comerciais. Durante o workshop, foram demonstradas aplicações práticas para pesquisa de anunciantes, elaboração de propostas, criação de campanhas e organização de processos. São ferramentas que podem ajudar equipes de diferentes tamanhos a ganhar produtividade e desenvolver abordagens mais personalizadas, sem perder a criatividade e o conhecimento que os profissionais possuem sobre seus mercados. E isso é particularmente importante quando pensamos na realidade de muitas emissoras locais e regionais, que precisam administrar diferentes atividades com estruturas enxutas. A tecnologia pode ajudar a organizar informações, identificar oportunidades e liberar tempo para aquilo que continua sendo essencial no relacionamento comercial: conhecer o cliente, compreender suas necessidades e construir soluções que tragam resultados.
Essa discussão também passa pela maneira como o próprio setor apresenta seu valor ao mercado publicitário. Temos falado sobre o Rádio 3.0 como uma forma de organizar e explicar a presença do rádio em diferentes plataformas, mas esse conceito precisa chegar também às equipes comerciais, aos anunciantes e às agências. Uma emissora não oferece apenas uma frequência, assim como sua audiência não está limitada a um único dispositivo. Existe uma marca, uma relação de confiança com o público, conteúdo produzido diariamente e diferentes possibilidades de distribuição e interação. E, quando essa estrutura é bem compreendida, fica mais possível desenvolver produtos comerciais que aproveitem a força do dial e as características dos ambientes digitais, inclusive com métricas capazes de demonstrar o alcance e a entrega dessas ações.
Se 2026 foi um ano importante para consolidar essa visão multiplataforma do rádio, vejo 2027 como uma oportunidade para avançarmos na sua aplicação prática. Isso passa por capacitação, organização dos produtos, melhor utilização dos dados e uma postura mais assertiva na apresentação do meio ao mercado. O rádio já possui uma presença relevante em diferentes ambientes e continua ampliando seus caminhos de distribuição. Agora, precisamos fazer com que essa evolução também apareça na maneira como as emissoras estruturam seus negócios. Afinal, ampliar a presença do rádio é fundamental, mas transformar essa presença em valor para a audiência, para os anunciantes e para as próprias operações é o que ajudará a sustentar os próximos passos do setor.




