Parlamentares da oposição iniciaram, nesta segunda-feira (5), uma obstrução coordenada das atividades legislativas no Congresso Nacional em reação à decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A estratégia, anunciada na volta do recesso parlamentar, envolve a ocupação contínua do plenário da Câmara por grupos revezados de dez deputados, inclusive durante a madrugada.
O bloqueio, segundo os articuladores, será mantido por tempo indeterminado. Deputados do PL e de siglas aliadas afirmaram que só participarão da reunião de líderes marcada para hoje se os presidentes das duas Casas, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), estiverem presentes. Um dos principais pontos de pressão da oposição é a inclusão na pauta do projeto de anistia aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro, proposta que perdeu força diante da falta de votos para sua aprovação.
O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), criticou a ausência de interlocução com Alcolumbre, a quem acusa de ignorar as demandas da direita há semanas. Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que a votação da anistia representaria um gesto político capaz de sensibilizar o governo de Donald Trump diante das sanções comerciais impostas ao Brasil, que entraram em vigor hoje.
Tensão entre parlamentares e críticas da base governista
Deputados do PSB, PT e outras legendas classificaram a manobra como chantagem institucional e defenderam sanções aos parlamentares envolvidos por desrespeito ao regimento. O deputado Pedro Campos (PSB-PE) lembrou que a pauta é definida pelo colégio de líderes, que já rejeitou incluir o tema da anistia.
Apesar das críticas, a extensão da obstrução torna improvável a aplicação de punições amplas, dada a quantidade de congressistas envolvidos. A tensão culminou em um princípio de tumulto no plenário da Câmara: os deputados Rogério Correia (PT-MG) e Paulo Bilynskyj (PL-SP) trocaram ofensas e quase chegaram às vias de fato, o que levou à evacuação do espaço. O acesso foi limitado a parlamentares.
Eles estão atacando o parlamento e a democracia! Vergonha total! Deputados do PL sequestraram a mesa impedindo o funcionamento do parlamento. pic.twitter.com/8i7Xp2Ajet
— Lindbergh Farias (@lindberghfarias) August 5, 2025
Centrão assume protagonismo nas negociações
Sem maioria clara entre governo e oposição, a definição da pauta de votações recai sobre o centrão. Lideranças desse bloco têm insistido na retomada da agenda econômica, especialmente a proposta que isenta do Imposto de Renda trabalhadores com salários de até R$ 5 mil mensais. O projeto, já aprovado em comissão especial, deve ser apreciado em plenário na próxima semana para valer no próximo ano fiscal.
Em resposta à crise, Hugo Motta antecipou sua volta a Brasília. O deputado estava na Paraíba para inaugurações e teria compromisso no Ceará hoje, mas cancelou a agenda. Davi Alcolumbre e Motta também divulgaram notas condenando os protestos em plenário e defenderam a normalidade do funcionamento do Congresso.
A tensão no Congresso ocorre paralelamente à divulgação de nova pesquisa Datafolha, segundo a qual 78% da população acredita que os parlamentares atuam mais em benefício próprio do que do país. Além disso, 35% classificam como ruim ou péssimo o desempenho do Legislativo.