Fascinado por lobisomens desde a infância, o escritor Thiago Souza, de Campinas, lança neste Dia do Folclore (22)o livro “Conheça o lobisomem do seu bairro”, uma obra que mergulha em lendas urbanas, histórias populares e relatos de aparições dessa criatura pelo Brasil
A inspiração veio ainda em 1985, quando Thiago, então criança, se impressionou com o personagem professor Astromar, vivido por Rui Resende na novela Roque Santeiro. Na trama, Astromar se transformava em um lobisomem , algo que mexia com o medo e o fascínio do público.
“A desculpa do lobisomem é de que ele é um homem pacato, bacana, incapaz de fazer maldades, mas ele se transforma em uma besta quando perde a razão e se encontra com seu estado feral”, explica o autor.
Para Thiago, o mito do lobisomem funciona como uma poderosa metáfora sobre a violência masculina na sociedade contemporânea. Segundo ele, ao contrário das antigas lendas, hoje muitos homens cometem atos brutais com plena consciência e racionalidade e não sob o efeito de uma maldição.
“Tinhamos a história do homem como um cara sempre racional, que quando cometia uma loucura era o lobisomem que fazia aquilo, mas hoje estamos nos transformando nessa besta”, afirma.
Ilustração: Matheus Hass
Lobisomens da Grécia Antiga à novela das 8
O livro transita entre o mito clássico de Licaão, rei da Arcádia e “caso zero” do lobisomem, até a homenagem a Rui Resende, cujo personagem completa 40 anos em 2025. A obra também relata casos famosos de supostos encontros com lobisomens, inclusive com celebridades como Chitãozinho e Xororó, além de tipos de licantropos (ser mítico ou lendário que pode se transformar em lobo), julgamentos de acusados na Europa medieval, balas de prata e registros da imprensa nacional e internacional.
Durante a pesquisa, Thiago chegou a participar de uma caçada a lobisomem em Várzea Paulista e investigou relatos históricos e recentes em diversas cidades do interior de São Paulo.
Lobisomens da região de Campinas
Um dos relatos marcantes de aparição de lobisomens, segundo Thiago, se passa em Pedreira, em 2018, onde, testemunhas contam que um homem quase foi atacado por uma criatura peluda. O suposto lobisomem foi afugentado por um segurança e desapareceu em uma área de mata. A história causou pânico na cidade por dias.
Em Campinas, o autor cita como referência a obra “Retalhos da Velha Campinas”, de Geraldo Sesso (1970), que já mencionava aparições do lobisomem na zona rural do município.
A origem da bala de prata
Uma das curiosidades abordadas no livro é a origem da famosa “bala de prata”, tradicionalmente conhecida como a única arma capaz de matar um lobisomem. A lenda remonta à história da Besta de Gévaudan, uma criatura que aterrorizou a França no século XVIII. Diz a tradição que um caçador a matou usando uma bala feita a partir de uma medalha de prata com a imagem da Virgem Maria.
“Desde então, ‘bala de prata’ virou uma expressão usada para representar uma solução definitiva, mágica, para qualquer problema”, explica Thiago.
Ilustração: Matheus Hass
Uma provocação atual
A maior curiosidade descoberta por Thiago durante a pesquisa para o livro é que o lobisomem, historicamente, funcionava como uma válvula de escape para os homens justificarem atos de violência. Segundo ele, nos dias atuais, os homens se tornaram muito mais perigosos e violentos do que os próprios lobisomens das lendas.
“Por isso o título ‘Conheça o lobisomem do seu bairro’ é uma provocação, para mostrar que os monstros estão próximos de nós. Todo bairro tem sua violência e seu lobisomem. O livro traz esse convite à reflexão sobre o quanto estamos nos tornando o monstro que antes temíamos.”
‘Conheça o lobisomem do seu bairro’
Ilustração: Matheus Hass
O lançamento presencial do livro será feito em Campinas, na Livraria Pontes, na noite desta sexta-feira (21).
Data: sexta-feira, 22 de agosto, das 17h30 às 18h30
Local: Livraria Pontes
Endereço: Rua Dr. Quirino, 1223 – Centro, Campinas
Jornalista formada pela Universidade Paulista em 2023, com experiência em apuração, produção de pautas, apresentação e cobertura de matérias jornalísticas em diferentes formatos.