Mais da metade da população adulta da Região Metropolitana de Campinas enfrenta dívidas. O total acumulado chegou a R$ 11 bilhões, e cerca de 1,3 milhão de pessoas estão endividadas, o equivalente a quase 54% dos moradores. Em Campinas, mais de 490 mil pessoas têm contas atrasadas, com débitos que somam R$ 4 bilhões. Para ajudar quem precisa recuperar o equilíbrio financeiro, a prefeitura oferece um programa de renegociação de dívidas com descontos de até 85%.
A educadora financeira Mona Lisa Santana conhece essa realidade de perto. Antes de trabalhar com educação financeira, ela enfrentou dificuldades financeiras que levaram sua família a acumular dívidas com cartões de crédito e empréstimos. Ao todo, os compromissos chegaram a R$ 1,4 milhão.
Hoje, depois de superar o endividamento, Mona Lisa compartilha sua experiência e orienta pessoas que enfrentam dificuldades para pagar as contas.
Endividamento em Campinas chega a bilhões de reais
Campinas concentra a maior parcela de inadimplentes da região. Mais de 490 mil moradores têm contas atrasadas, e os débitos acumulados chegam a R$ 4 bilhões. A dívida média do campineiro alcança R$ 8,3 mil.
Na Região Metropolitana de Campinas, o cenário também preocupa: 1,3 milhão de pessoas enfrentam dívidas, que somam R$ 11 bilhões.
Para quem precisa regularizar a situação, a Prefeitura de Campinas mantém um programa de negociação que oferece descontos de até 85% sobre os débitos, conforme as condições aplicáveis. Outra alternativa é consultar as oportunidades disponíveis na Serasa.
Como Mona Lisa acumulou R$ 1,4 milhão em dívidas
A história de Mona Lisa começou antes da pandemia de Covid-19, quando sua família dependia de uma única fonte de renda. Os atrasos nos pagamentos já preocupavam, mas a situação piorou quando a pandemia interrompeu a entrada de dinheiro.
As despesas continuaram, mas a renda familiar deixou de cobrir os compromissos. Para pagar as contas, Mona Lisa recorreu a empréstimos no cartão de crédito.
Com o tempo, os bancos passaram a oferecer novos cartões e limites, o que ampliou o acesso ao crédito e agravou o problema.
“Quando a gente tem um bom nome, os bancos começam a liberar mais oportunidades de crédito”, relata.
Mona Lisa, a mãe e a irmã chegaram a acumular 44 cartões de crédito. Quando esgotava as possibilidades em seu próprio nome, ela recorria ao nome das familiares para conseguir novos empréstimos.
A estratégia criou um ciclo: Mona Lisa contratava crédito para pagar as faturas anteriores e liberar os limites dos cartões para novas despesas.
O problema chegou ao ponto em que ela contratou um empréstimo de R$ 20 mil para pagar o valor mínimo da fatura de um dos cartões.
No total, as dívidas com cartões, empréstimos e outros compromissos alcançaram R$ 1,4 milhão.
Como evitar novas dívidas? Veja as dicas de educação financeira
Depois de superar o endividamento, Mona Lisa passou a trabalhar com educação financeira. A experiência também a ajudou a reconhecer como a facilidade de acesso ao crédito pode estimular comportamentos difíceis de interromper.
Ela conta que sentia satisfação ao receber novos cartões e acompanhar os descontos nos valores das dívidas. Por isso, destaca a importância de reconhecer os próprios hábitos de consumo e estabelecer limites.
Uma das orientações é utilizar a regra 50-30-20, método que ajuda a distribuir a renda entre as principais categorias de despesas.
Como funciona a regra 50-30-20?
A regra propõe dividir a renda mensal em três partes:
- 50% para necessidades: despesas essenciais, como moradia, alimentação, água, energia e transporte.
- 30% para desejos pessoais: gastos não essenciais, como lazer, compras e serviços que variam conforme as prioridades.
- 20% para economias e dívidas: dinheiro destinado à quitação de débitos, à formação de uma reserva financeira e a outros objetivos.
A divisão funciona como uma referência para o planejamento financeiro. Quando a renda não permite seguir esses percentuais, a pessoa precisa identificar as despesas essenciais e adaptar o orçamento à própria realidade.
A regra não resolve sozinha situações de endividamento elevado, mas ajuda a visualizar os gastos, definir prioridades e planejar os pagamentos.
Por que os brasileiros se endividam?
O endividamento tem diferentes causas. Entre elas estão a renda insuficiente, o custo de vida, os juros elevados, os imprevistos e a falta de planejamento financeiro.
Mona Lisa também chama a atenção para o comportamento de consumo e a relação das pessoas com o dinheiro.
“Muitas vezes, as pessoas não aprenderam a lidar com o dinheiro. Elas sabem trabalhar, ganhar e pagar contas, mas não necessariamente sabem planejar, fazer escolhas e tomar decisões financeiras conscientes”, explica.
O acesso facilitado ao crédito e a pressão para consumir também podem comprometer o orçamento. Ao comprar com dinheiro que ainda precisa ganhar, a pessoa assume compromissos que reduzem a renda disponível nos meses seguintes.
O problema se agrava quando o consumidor contrata novos empréstimos para pagar dívidas antigas. Nesse cenário, os juros podem aumentar o valor dos débitos e dificultar a recuperação financeira.
Qual é a diferença entre estar endividado e inadimplente?
Embora muitas pessoas usem os termos como sinônimos, eles representam situações diferentes.
Estar endividado significa ter compromissos financeiros a pagar, como parcelas de um financiamento, compras no cartão de crédito ou empréstimos. Isso não representa necessariamente um problema, desde que as obrigações caibam no orçamento.
Estar inadimplente significa ter uma dívida vencida e não paga.
Uma pessoa pode manter um financiamento e pagar todas as parcelas em dia. Outra pode ter poucos compromissos financeiros, mas enfrentar dificuldades para pagar despesas básicas e acumular atrasos.
O principal sinal de alerta aparece quando as dívidas deixam de caber na renda e comprometem a capacidade de pagar as contas.
Por onde começar quando as contas estão atrasadas?
Para quem não sabe como sair das dívidas, Mona Lisa recomenda começar com um levantamento completo da situação financeira.
A orientação é anotar quanto dinheiro entra, quais são as despesas mensais, quais dívidas continuam em aberto e quais juros incidem sobre cada compromisso.
“Eu sei que olhar para esses números pode dar medo, mas fugir deles não faz a dívida desaparecer. A clareza é o que permite tomar decisões melhores”, afirma.
A pessoa não precisa resolver todos os débitos de uma vez. O primeiro objetivo é entender a situação, identificar as prioridades e definir medidas que caibam no orçamento.
Como organizar o orçamento quando o dinheiro não é suficiente?
O primeiro passo é separar as despesas essenciais daquelas que podem ser reduzidas, adiadas ou renegociadas.
Moradia, alimentação, água, energia, saúde e transporte para o trabalho precisam receber atenção especial. Depois, o consumidor deve avaliar as dívidas e procurar condições de pagamento compatíveis com a renda disponível.
Mona Lisa ressalta que nem sempre a dificuldade resulta apenas da falta de organização. Em algumas situações, a renda realmente não cobre o custo de vida.
Nesses casos, além de rever despesas, pode ser necessário buscar alternativas para aumentar os ganhos, renegociar contratos e reduzir compromissos financeiros.
Quais dívidas devem ser pagas primeiro?
A escolha deve considerar os juros, as consequências do atraso e o impacto da dívida sobre a vida do consumidor.
Débitos com juros elevados, como os do rotativo do cartão de crédito e do cheque especial, merecem atenção. Ao mesmo tempo, a pessoa precisa proteger as despesas essenciais e avaliar os riscos de cada contrato.
Por isso, não basta escolher a dívida de maior valor ou aquela cuja cobrança parece mais urgente. O consumidor precisa analisar o cenário e construir uma estratégia de pagamento compatível com sua realidade financeira.
Também é importante evitar novos empréstimos para cobrir compromissos anteriores, pois essa prática pode prolongar o ciclo de endividamento.
Renegociação de dívidas pode ajudar a recuperar o equilíbrio financeiro
A experiência de Mona Lisa mostra que reconhecer o problema, organizar os números e procurar condições de negociação pode abrir caminho para sair do endividamento.
Em Campinas, o programa de renegociação da prefeitura oferece descontos que podem chegar a 85% dos débitos, conforme as regras aplicáveis. A Serasa também disponibiliza canais para consultar oportunidades de negociação.
Antes de fechar um acordo, o consumidor deve conferir o valor final, as condições de pagamento e se as parcelas cabem no orçamento.
Mais do que quitar contas atrasadas, o objetivo é recuperar a capacidade de administrar o dinheiro e evitar que novas dívidas comprometam a renda.




