Uma nova substância psicoativa foi detectada no Brasil pela primeira vez em julho de 2025, após um paciente dar entrada com sintomas graves de intoxicação no Hospital de Clínicas da Unicamp, em Campinas (SP). O composto identificado é o N-pirrolidino protonitazeno, um opioide sintético da classe dos nitazenos, com alto potencial tóxico, ainda não incluído nas convenções internacionais de controle. A descoberta foi publicada nesta segunda-feira (29) no Jornal da Unicamp (leia o estudo na íntegra).
A descoberta foi realizada por meio de testes conduzidos pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (Ciatox) da Unicamp, ligado à Faculdade de Ciências Médicas e ao próprio HC. O paciente relatou ter ingerido um comprimido de substância estimulante antes de apresentar sonolência profunda e perda de consciência, o que exigiu a administração urgente de naloxona, antídoto usado em casos de intoxicação por opioides.
“A sorte é que o plantonista que o atendeu era médico do Ciatox”, disse José Luiz da Costa, coordenador-executivo do centro na publicação desta segunda-feira.
A ocorrência foi informada à Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos (Senad), vinculada ao Ministério da Justiça.

Substâncias fogem do controle internacional
- Os nitazenos pertencem ao grupo das chamadas novas substâncias psicoativas (NSP), compostos criados a partir de alterações químicas em moléculas já conhecidas.
- Essa modificação permite que seus efeitos se aproximem dos de drogas convencionais — como estimulantes e alucinógenos —, mas escapem das listas de controle estabelecidas por convenções como as da ONU de 1961 e 1971.
- Por isso, são vendidas livremente até serem identificadas pelas autoridades e reguladas, quando então sofrem novas alterações para burlar a proibição.
“As pessoas as consomem de forma indiscriminada até que haja algum tipo de controle”, explicou Costa. Grande parte dessas substâncias é fabricada no Sudeste Asiático e vendida pela internet.
O problema, segundo especialistas, é que serviços de saúde não têm recursos para identificar essas drogas nem protocolos prontos para tratar os casos de intoxicação.
Festa, pesquisa e rastreamento
A detecção do novo opioide foi possível graças ao Projeto Baco, convênio firmado em 2022 entre a Unicamp e a Senad, que estrutura um sistema de informações toxicológicas a partir de atendimentos emergenciais do Ciatox. Parte da estratégia inclui buscas ativas em festas de música eletrônica, ambientes nos quais o uso de substâncias é frequente e há abertura para práticas de redução de danos.
Entre 2023 e 2025, os pesquisadores participaram de 14 eventos em São Paulo, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul, coletando 1.565 amostras de saliva de forma voluntária e anônima. As coletas ocorreram em cidades como Campinas, Hortolândia, Sorocaba e São José dos Campos. O público também respondia a formulários com dados de perfil e recebia cartões para acessar seus resultados toxicológicos.
- Segundo os dados, 70,8% dos participantes afirmaram ter usado drogas ilícitas recentemente, e a maioria dos testes indicou policonsumo: entre seis e sete substâncias detectadas por amostra.
- Entre as drogas clássicas, apareceram a nicotina (72,3%), o MDA (71,7%), o THC (48,7%) e o MDMA (47,5%).
- Já entre as NSP, destacaram-se compostos como MDEA, desclorocetamina, dipentilona e metilona.
“O que há nessa nova droga?”
A pesquisadora Náthaly Bueno, doutoranda em Farmacologia, aponta que muitos usuários não sabiam o que de fato haviam consumido.
“Alegavam ter tomado apenas uma ‘bala’, mas havia várias substâncias misturadas”.
O cruzamento entre os dados das coletas e apreensões policiais sugere que o consumo de MDMA, cada vez mais escasso no Brasil, tem sido substituído por análogos como o MDA, já produzidos em laboratórios clandestinos no país.