A votação do projeto de autarquização da área da saúde da Unicamp foi suspensa nesta terça-feira (16) após duas invasões consecutivas às sessões do Conselho Universitário (Consu). As interrupções ocorreram durante tentativas de deliberação sobre a proposta que pretende submeter ao governo do Estado um novo modelo de gestão do complexo de saúde da universidade e um programa de expansão acadêmica.
A primeira sessão, realizada às 10h15, foi interrompida por integrantes de movimentos estudantis, do Sindicato dos Servidores da Unicamp (STU) e de entidades como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que ocuparam a sala do Conselho, ao lado do prédio da Reitoria, impedindo a continuidade da discussão. A Reitoria tentou negociar a desocupação, sem sucesso.
No período da tarde, uma nova reunião foi convocada em sala da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp), mas também foi invadida por manifestantes, o que levou à nova suspensão.
Ao final do dia, o reitor Paulo Cesar Montagner classificou os episódios como graves. “Hoje é um dia muito triste. A Universidade não deveria viver dias como este”, declarou. Segundo ele, os pedidos de retirada de pauta e de vistas já haviam sido derrotados em plenário, o que, em sua avaliação, evidencia o caráter “protelatório” da ocupação.
“A Unicamp não pode ter alguns alunos e funcionários que se acham donos da Universidade, podendo cercear, coagir e assediar com violência. Eles fizeram tudo isso hoje”, afirmou. Apesar das interrupções, Montagner assegurou que o processo terá continuidade.
Proposta prevê transição de dez anos
O projeto em debate propõe transformar a área da saúde da Unicamp — hoje vinculada diretamente à estrutura administrativa e orçamentária da universidade — em uma autarquia vinculada à Secretaria de Saúde do Estado, modelo já adotado por instituições como a USP e a Unesp (Botucatu). A mudança tem como objetivo, segundo a Reitoria, aliviar a pressão orçamentária sobre a universidade, que atualmente destina cerca de R$ 1,1 bilhão anuais à manutenção do setor.
A autarquia, denominada Complexo de Saúde da Unicamp, permaneceria vinculada à universidade em suas funções de ensino, pesquisa, formação de profissionais e supervisão de residências, mantendo também o atendimento integral pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta inclui um cronograma de transição de dez anos.
Nos dois primeiros anos, nenhuma mudança orçamentária seria feita, segundo a Unicamp. A partir do terceiro ano, a Secretaria de Saúde passaria a arcar com despesas operacionais, hoje estimadas em R$ 300 milhões anuais, até chegar, no décimo ano, ao repasse integral da folha de pagamento, hoje estimada em R$ 754 milhões por ano.
Vereadora Mariana Conti
Nas redes sociais, a vereadora de Campinas, Mariana Conti (PSOL), manifestou sobre a suspensão da votação: “Uma grande vitória hoje, a ocupação obrigou a reitoria a suspender a reunião, planejada para aprovar a privatização da Unicamp. Uma grande conquista e uma grande luta.”
Por outro lado, o coordenador-geral da Unicamp, professor Fernando Coelho, lamentou os episódios. Para ele, houve violação dos princípios democráticos.
“Os episódios são lamentáveis, na medida em que a gente vê a Universidade conviver com procedimentos antidemocráticos. Eu penso que isso não representa o pensar democrático da Universidade”, declarou.