Há livros que chegam cercados de expectativa. Outros chegam cercados de barulho. Bons Tempos: Yesteryear, romance de estreia da escritora Caro Claire Burke, juntou as duas coisas e, de quebra, vem com adaptação literária garantida. E é justamente por isso que estou curiosa e já o coloquei na minha lista de leituras.
O livro chegaria ao Brasil somente em 31 de agosto, pela Editora Rocco, mas a demanda foi tão grande que a data foi antecipada para esta segunda-feira, dia 17.
Fato é que Bons Tempos chega trazendo a reboque uma trajetória internacional impressionante. Publicado originalmente em inglês em abril, passou semanas entre os mais vendidos do The New York Times, alcançou o primeiro lugar entre os livros de ficção do Sunday Times e virou assunto recorrente em comunidades literárias como BookTok e Bookstagram.
E confesso: minha curiosidade começou justamente por uma dúvida.
O que há de tão extraordinário em uma história que, à primeira vista, não parece apresentar uma ideia tão inovadora?
A premissa é, de fato, irresistível. Natalie Heller Mills é uma influenciadora de sucesso que construiu sua imagem em torno da chamada tradwife, a mulher conservadora que abraça papéis tradicionais de gênero, apresenta a vida doméstica como ideal e transforma essa rotina em conteúdo para milhões de seguidores.
Aos 32 anos, casada, mãe de cinco filhos e grávida do sexto, Natalie vive em uma fazenda em Idaho. Faz pão de fermentação natural, tira leite da própria vaca, coleta ovos, educa os filhos em casa e exibe nas redes sociais uma existência que parece ter saído de um catálogo de vida perfeita.
Só que existe um detalhe: toda essa perfeição está sendo encenada. Nos bastidores, Natalie conta com babás, produtores e uma cozinha equipada com aparelhos industriais escondidos dos seguidores. Seu marido também é herdeiro de uma poderosa família ligada à política, enquanto a influenciadora transforma aquela fantasia rural em uma marca acompanhada por milhões de pessoas.
Até que um dia Natalie acorda no ano de 1855, justamente no passado que ela romantiza e transforma em inspiração para sua vida contemporânea.
É aí que a ideia ganha outra dimensão.
O que acontece quando alguém que transformou uma fantasia de passado em produto é obrigado a experimentar esse passado de verdade?
É esse “e se?” que parece estar no centro do fenômeno. E talvez seja também o motivo pelo qual o livro tenha provocado tantas discussões.
A temática das tradwives não é exatamente nova. A própria internet já transformou essas mulheres em personagens de um debate cultural que envolve maternidade, casamento, carreira, religião, feminismo, conservadorismo e, claro, a maneira como as redes sociais transformam estilos de vida em mercadoria.
O que me interessa em Bons Tempos, portanto, não é apenas descobrir o que acontece com Natalie. É entender por que essa personagem incomoda, fascina e divide tanto os leitores.
Porque há algo particularmente contemporâneo nessa história: a dificuldade de separar aquilo que alguém realmente vive daquilo que escolhe mostrar.
Natalie sabe que precisa ser, ao mesmo tempo, adorável e insuportável para manter a atenção do público. Seus seguidores são parte do negócio, inclusive aqueles que a criticam. O romance, segundo análises e entrevistas sobre a obra, explora justamente essa relação quase simbiótica entre influenciadores e seus detratores.
E isso torna o livro muito mais interessante do que uma simples viagem no tempo.
Afinal, não estamos falando apenas de uma mulher do século 21 transportada para o século 19. Estamos falando de uma personagem que construiu uma identidade pública a partir da idealização de uma época e de um modelo mais tradicional de casamento que ela nunca viveu.
Quando essa fantasia deixa de ser conteúdo e se transforma em realidade, o que sobra?
É essa pergunta para a qual espero resposta.
Também quero descobrir se o livro consegue ir além de sua ótima premissa. Porque o sucesso de Bons Tempos não significa que ele tenha sido unanimemente recebido como uma grande obra literária. Há críticas de leitores e especialistas que consideram a narrativa provocadora, mas superficial em alguns dos muitos temas que aborda. Outros enxergam justamente sua capacidade de provocar conversas como uma de suas maiores qualidades.
E talvez aí esteja uma das razões pelas quais eu queira tanto ler o livro: não quero chegar à última página apenas para saber se gostei ou não. Quero entender o que ele provocou em mim.
Quero descobrir se vou enxergar Natalie apenas como uma personagem antipática ou se, em algum momento, vou conseguir compreender suas contradições. Quero saber se o passado realmente funciona como espelho do presente ou se é apenas o cenário para uma boa provocação.
E há ainda um ingrediente que tornou minha expectativa – e provavelmente a de muitos outros leitores – ainda maior: Anne Hathaway.
A atriz teve acesso a um primeiro rascunho do romance, se encantou pela história, comprou os direitos para o cinema e será produtora e protagonista da adaptação.
Quando uma atriz do calibre de Hathaway aposta tão cedo em uma obra ainda inédita, é inevitável pensar: o que ela enxergou ali?
Talvez seja justamente essa a pergunta que eu esteja tentando responder antes mesmo de abrir o livro.
Bons Tempos: Yesteryear chega ao Brasil em 31 de agosto. Até lá, o livro já carrega uma avalanche de elogios, críticas, debates, vídeos, teorias e uma futura adaptação cinematográfica.
Eu, particularmente, prefiro não embarcar na leitura acreditando que estou diante de “o livro do momento”.
Quero descobrir por conta própria.
Quero entrar na fazenda de Natalie, atravessar a porta que leva a 1855 e descobrir se os tais “bons tempos” eram realmente tão bons assim.
E, principalmente, quero entender por que uma história que parecia tão simples conseguiu fazer tanta gente, em tantos lugares, parar de ler para começar a discutir.

Ficha Técnica
- Bons Tempos: Yesteryear
- Autora: Caro Claire Burke
- Tradução: Anna Castro
- Dimensões: 16 x 2 x 23 cm
- Nº de páginas: 368
- Preço: R$ 69,90
- Data de publicação: 17 de agosto 2026 (livrarias das capitais do Rio de Janeiro e São Paulo terão exemplares disponíveis a partir deste sábado, dia 15 de agosto, e a editora já anuncia uma segunda edição).