O Brasil é um curioso experimento social, não? Onde até para fazer o certo se faz de maneira errada. Hytalo Santos foi preso, mas por que agora? A prisão do influenciador, acusado de tráfico humano e exploração sexual infantil, não surgiu de súbita revelação ou ação diligente do Ministério Público. A engrenagem estatal só andou — como de costume — depois que o barulho na internet se tornou alto demais para ser ignorado.
O vídeo do Felca viralizou e, de repente, tudo que já era de conhecimento institucional passou a ser urgente. Como se o MP tivesse acordado e pensado: “Agora sim vale a pena agir.”
Hytalo já era alvo de investigações do MP no seu estado, ao passo de já ter prestado depoimentos, mas, parafraseando as matérias dos meus colegas de imprensa “o caso ganhou repercussão após denuncias do youtuber Felca”.
A Justiça brasileira, as leis e a cultura é essa risível realidade, de mover a legalidade a partir do like, visualização e compartilhamento. Já estava tudo na mesa: denúncias, depoimentos, rastros digitais. Mas foi preciso a sanha digital da opinião pública para que a prisão fosse expedida.
Pense: se o Felca não tivesse gravado o tal vídeo, onde estaria Hytalo hoje? Provavelmente em casa, gravando o próximo conteúdo, e, provavelmente, com as mesmas meninas.
Não se trata aqui de defender o indefensável. Trata-se de apontar o quão doente é um sistema que só age quando pressionado pelo termômetro da repercussão midiática. Isso é o sulco das instituições brasileiras, carregadas e viciadas por uma cultura ainda desconhecida, mas necessitada por atenção da mídia.
Hytalo foi preso, mas a cultura que o criou (e não que ele fabricou) continua solta, sorridente e monetizada em outros canais — e talvez, bem vivas nas mentes das pessoas menos informadas Brasil afora.
Durante anos, ele produziu conteúdos com meninas, explorando a permissividade da cultura nacional de normalizar o absurdo como trampolim para a fama. E todos assistiram (mesmo os indignados). Curtiram. Compartilharam. Hytalo não é exceção, e sim um sintoma da cultura que comumente normaliza o “no fim tudo acaba em pizza”.
Outro ponto aqui é a necessidade do registro de imagens. Assim que o casal foi preso, uma gravação surgiu nas redes: o rosto de Hytalo e do companheiro estampado, em close. “Vocês estão sendo presos pelo DEIC, tá?”, anuncia um agente. Nenhuma preocupação com sigilo, com o devido processo, com os ritos que o mesmo Estado exige quando não há holofotes. Se um policial do BOPE faz algo parecido com um traficante no Rio, alguma ONG acionaria a corregedoria em tempo recorde. Mas, como Hytalo virou o vilão da vez, tudo é permitido.

A questão aqui, novamente, não é defender tratamento brando ou algo do gênero, mas apontar os pesos e as medidas que o Estado adota conforme o clamor público. É assim que se constrói um arbítrio perigoso, onde o devido processo legal é moldado conforme o vilão da semana no X.
O caso da médica espancada em Santos é outro exemplo dessa cultura brasileira. Sejamos francos aqui: a agressão só teve repercussão porque havia uma câmera de segurança registrando tudo. A imagem do elevador gerou indignação popular. Mas, e então, questiono ao tal calor popular: e os outros 258 mil casos de violência doméstica registrados no país em 2024? Sem câmera e sem grito, sem Justiça?
Eis a razão que não comemoro a prisão. Porque ela chegou tarde, com estardalhaço, e não resolve. É só uma válvula de escape temporária para a euforia da semana. Nada muda na raiz. Nada se transforma na estrutura cultural, que legitima o absurdo da “adultização” ou da resolução de problemas estando afastado dos holofotes da mídia. A culpa é do brasileiro, sim, e de mais ninguém.
Se a Justiça só se move por cliques, convido o Felca aqui: vá até Brasília e explique em vídeo como funciona a engrenagem política nacional. Quem sabe, com um pouco de sorte, conseguimos viralizar o interesse público e mover, finalmente, alguma coisa nesse país néscio.