Em meio às discussões sobre uma possível nova reforma da Previdência, uma pergunta precisa ser feita: como convencer os jovens a contribuir para um sistema no qual regras mudam constantemente?
O Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento de que não há direito adquirido à manutenção de um regime previdenciário enquanto o segurado ainda não tiver preenchido os requisitos para o benefício.
Em outras palavras, a lei pode mudar antes da aposentadoria e a linha de chegada pode se deslocar durante a corrida. E foi exatamente isso que aconteceu nas últimas reformas.
Por que os jovens desconfiam da Previdência?
Essa percepção ajuda a explicar a crescente desconfiança das novas gerações em relação à Previdência. A ela se somam o envelhecimento da população, a informalidade e as novas formas de trabalho, que já não cabem no modelo tradicional da carteira assinada.
Mas esse não precisa ser o destino da Previdência. O futuro não precisa ser uma sequência de frustrações, idade mínima cada vez maior, tempo de contribuição crescente e benefícios cada vez mais difíceis de alcançar.
É possível construir um modelo integrado, simples e confiável, capaz de aproximar o Regime Geral de Previdência Social (RGPS), a assistência social e a previdência complementar sem apagar a função de cada um. Integrar não significa misturar patrimônios nem eliminar a autonomia dos sistemas.
Um sistema sustentável precisa proteger as pessoas em diferentes momentos da vida. Na base, deve haver proteção mínima para quem envelheceu em situação de vulnerabilidade. No centro, um RGPS solidário e transparente, capaz de registrar e reconhecer cada contribuição. No complemento, planos portáteis, acessíveis e de baixo custo para empregados, autônomos, MEIs e trabalhadores de plataformas digitais.
Como o mercado de trabalho mudou a Previdência
Uma ‘conta previdenciária cidadã’ poderia reunir, em um único ambiente digital, todo o histórico contributivo do trabalhador, projeções de aposentadoria, informações sobre benefícios, proteção assistencial e previdência complementar. A ideia é facilitar o planejamento da vida previdenciária e devolver ao cidadão algo que hoje lhe falta: previsibilidade.
Empresas, plataformas digitais e poder público também precisariam participar do financiamento, com regras claras e responsabilidades proporcionais.
Quem contribuiu mais e por mais tempo deve ter esse esforço reconhecido. Quem enfrentou desemprego, baixa renda, maternidade, períodos dedicados ao cuidado da família ou incapacidade para o trabalho não pode chegar à velhice sem proteção.
O que pode tornar o sistema mais confiável?
Em um ano eleitoral, esse debate deveria ocupar lugar central. Mais do que discutir uma nova reforma, é fundamental analisar as propostas dos candidatos para o futuro da Previdência e compreender como cada uma delas pretende garantir sustentabilidade ao sistema sem ampliar a insegurança de quem contribui.
Isso exige enfrentar privilégios, fraudes, sonegação e desonerações sem retorno social comprovado. A sociedade não quer mais reformas improvisadas, restritivas e sempre cobradas dos mesmos.
Uma boa reforma precisa reconquistar a confiança dos jovens, oferecer previsibilidade a quem trabalha e garantir sustentabilidade a quem financia. Porque nenhum sistema previdenciário sobrevive sem confiança. E nenhum jovem fará planos para uma aposentadoria na qual não acredita.
A Previdência do futuro não pode ser um labirinto de regras. Deve ser um pacto claro, confiável e justo entre gerações.