Acusada de furto sem provas, Gabrielly Santana, de 19 anos, afirma ter sido alvo de uma abordagem “constrangedora” e “possivelmente motivada por racismo”. O caso ocorreu no dia 24 de março, em um mercado de Praia Grande, na Baixada Santista, onde a jovem foi abordada por funcionários na saída do estabelecimento.
Gabrielly, que mora em Praia Grande e estuda em Santos, havia ido ao mercado com o namorado antes da faculdade. Enquanto fazia compras, percebeu que o zíper de sua bolsa estava um pouco aberto e resolveu fechá-lo. Uma cliente, notando a situação, teria comunicado o gerente. A estudante conta que, naquele momento, começou a sentir que estava sendo observada.
Após pagar pelos produtos no caixa, Gabrielly foi abordada pelo segurança e pelo subgerente na saída do mercado. “Eles disseram que precisavam verificar minha bolsa por precaução. Fiquei nervosa e constrangida. Imagine ser acusada de algo que não fez em um lugar cheio de câmeras?”, desabafa ao VTV News.
‘Minha pele’
A jovem relata que, mesmo sem encontrar nada ilícito, não recebeu um pedido imediato de desculpas. Nervosa e com pressa para a faculdade, ela saiu correndo do local. No dia seguinte (25), voltou à loja em busca de uma explicação, mas ouviu que a abordagem não teve relação com racismo e que ‘a suposta cliente apenas quis ajudar’.
Ainda assim, Gabrielly decidiu registrar um boletim de ocorrência na quarta-feira (26), alegando que a situação poderia ter sido evitada ou conduzida de forma diferente. Em um vídeo compartilhado nas redes sociais, na última terça-feira (1º), Gabrielly expõe a situação.
“Eu acredito que possa ter sido em relação à cor da minha pele. Pessoas negras sempre são vistas nessas situações de acusação”, afirma. A estudante também procurou orientação de advogados sobre o caso.
O que diz o mercado?
Em resposta, o mercado negou qualquer ato discriminatório. Em nota, a empresa afirmou que a abordagem foi discreta e conduzida de forma respeitosa. “O segurança apenas fez seu trabalho, como qualquer outro faria. Não houve em momento algum ato racista”, diz o comunicado.
A empresa reconheceu, no entanto, que o local da abordagem poderia ter sido outro. “Já conversamos com o segurança e orientamos que, em futuras situações, a abordagem ocorra em uma área mais reservada para evitar constrangimentos”, explicou o mercado.
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A seguir, leia a nota na íntegra:
O subgerente não tinha acesso às câmeras no momento do ocorrido. Em momento algum a menina foi mal tratada pela equipe e pelo segurança, que estava apenas fazendo o trabalho dele. Ela mesmo falou isso um dia depois ao vir na loja junto com sua tia. Foi feito sim o pedido de desculpas e deixamos bem claro que não houve em momento algum ato racista como a própria tia da menina falou, pois ja abordamos pessoas brancas também. A [loja] repudia qualquer ato racista tanto como gerentes e funcionários, e não aceitamos qualquer conduta do tipo em seu estabelecimento. Para fazer esse tipo de acusação ela deveria ter uma prova concreta de uma fala, e isso não houve. Isso é uma acusação muito séria e sabemos das consequências, por isso repito: em momento algum houve ato racista, o segurança apenas fez seu trabalho, como qualquer outro faria.
- As abordagens são discretas, como foi com ela, em momento algum criamos constrangimento para a pessoa envolvida. Foi falado com ela de forma branda, com voz calma, sem expor a pessoa.
- Como já mencionei, existe câmeras sim, funcionários não tem acesso a elas. Pelas câmeras dá pra ver que não foi criado nenhum desentendimento, e sim uma abordagem natural como em qualquer estabelecimento
- Já conversamos pessoalmente com o segurança que estava no dia da abordagem, e pedimos para que se isso acontecer novamente, tentar falar com a pessoa em outra parte da loja e não quando ela estiver saindo, pois outras pessoas poderiam ver. Realmente podia ter pessoas por perto e isso podia gerar algo maior, porém ele foi discreto e falou com ela sem ter pessoas por perto. Mas repito, ele fez o trabalho dele e não houve racismo por parte dele e de nenhum funcionário. Durante sua entrada na loja ate a saída ninguém ficou seguindo ela na loja ou desconfiando de algo. Apenas foi realizada a abordagem devido a uma denuncia de uma outra cliente.
- A única coisa que poderia ter sido diferente na abordagem é o local que foi realizada, pois de forma alguma o segurança foi rude ou agiu de modo grosseiro com a pessoa envolvida. Fez seu trabalho como qualquer segurança precisa fazer. Todo estabelecimento é assim. De forma alguma o segurança e o subgerente agiram de forma racista como a tia dela falou. A [equipe] repudia qualquer ato racista, isso de forma alguma aconteceu. Não autorizamos qualquer tipo de de publicação de algo que não existe provas, caso isso seja divulgado, tomaremos as medidas necessárias.
A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), mas ainda não obteve retorno.

Como denunciar uma abordagem discriminatória?
O Disque Direitos Humanos – Disque 100 é um serviço público do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, criado para receber denúncias de violações de direitos, especialmente de grupos em situação de vulnerabilidade. O canal funciona gratuitamente, 24 horas por dia, incluindo feriados e finais de semana. As denúncias podem ser feitas de forma anônima e são encaminhadas aos órgãos responsáveis.
Além de registrar denúncias, o Disque 100 também fornece informações sobre direitos, programas sociais e serviços de proteção oferecidos nos níveis federal, estadual e municipal. O serviço atende casos de violência e discriminação contra crianças, idosos, pessoas com deficiência, população LGBTQIA+, indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais. Também recebe denúncias de trabalho escravo e tráfico de pessoas.
A plataforma abrange ainda denúncias de violência policial, agressões contra comunicadores, conflitos agrários e urbanos, além de violações sofridas por migrantes e refugiados. Situações de abuso envolvendo pessoas em restrição de liberdade e portadores de doenças raras também podem ser reportadas.