O Paraguai vive momentos de forte tensão política e econômica. Cerca de 3 milhões de clientes do Ueno Bank (quase metade da população de 6,4 milhões de habitantes do país) perderam o acesso às contas e ficaram impossibilitados de sacar dinheiro.
Diante dos bloqueios financeiros, manifestantes foram às ruas em protesto, desencadeando uma crise institucional que levou à iminência de um processo de impeachment e, finalmente, à renúncia do presidente Santiago Peña.
Entenda o colapso do Ueno Bank
O estopim da crise ocorreu após o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciar intervenção na administração do banco digital e determinar sua liquidação, visando conter prejuízos aos correntistas.
A medida foi tomada porque o índice de solvência da instituição ficou abaixo do patamar regulatório em razão da concessão desmedida de empréstimos irregulares, que superaram as reservas de capital da entidade.
Além do atendimento massivo à população, a instituição administrava recursos do Ministério da Economia e Finanças e do Instituto de Previdência Social (IPS).
Em desdobramento à intervenção, o Ministério Público ordenou a prisão de oito diretores do Ueno Bank. Paralelamente, o presidente do BCP, Carlos Carvallo — que presidiu a financeira Ueno antes de assumir o cargo regulador —, renunciou a pedido de Peña.
Ligações políticas e suspeitas de favorecimento
A crise financeira atingiu diretamente o governo devido ao histórico empresarial de Santiago Peña, cujo mandato começou em 2023 e previa vigência até 2028. O presidente figurou como acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição financeira, até março do ano passado.
Dessa maneira, a oposição e setores críticos o acusam de ter beneficiado o banco por meio de decisões regulatórias e de articular aportes de recursos públicos, sobretudo oriundos do IPS, para sustentar as operações da entidade.
Em resposta à indignação popular e com os depósitos ainda retidos, Peña chegou a sancionar uma lei emergencial que previa a devolução da maior parte dos valores aos correntistas em menos de uma semana.
Pressão por impeachment e renúncia
A medida paliativa não freou a revolta popular nem o avanço político contra o Executivo. Parlamentares da oposição e da própria base governista articularam a abertura de um processo de julgamento político.
Durante sessão extraordinária na Câmara dos Deputados, as bancadas manifestaram apoio unânime ao afastamento do mandatário, movimento respaldado inclusive por alas do próprio Partido Colorado, legenda à qual o presidente é filiado.
Diante do cerco político incontornável, Santiago Peña anunciou oficialmente a sua renúncia ao cargo. Em pronunciamento publicado em suas redes sociais, o chefe de Estado afirmou que tomou a decisão em respeito à Constituição Nacional e à estabilidade do país:
“Decidi apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas.”




