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Opinião: Moraes está deslumbrado com o poder e Trump não sabe o que está fazendo

Sim, Bolsonaro precisa ser julgado conforme a Constituição, mas não é por isso que devemos fechar os olhos à escalada de poder pessoal de Moraes.
Alexandre de Moraes (Foto: arquivo pessoal / auto geração)

Alexandre de Moraes é um estrategista formidável. Tem o faro, o instinto, a paciência. Não atua no calor da hora — ele calcula suas jogadas, e parece estar jogando com o próprio Trump agora. Dobrou a aposta com o presidente dos Estados Unidos ao enquadrar Bolsonaro por associação a uma suposta organização criminosa internacional. Moraes talvez “desse “funcionasse” como um bom presidente da república, mas essas características assustam quando se trata de um ministro da Suprema Corte.


Ato contínuo, colocou Donald Trump diante de um dilema desconfortável: vale a pena comprometer a relação com um dos maiores aliados dos EUA no Ocidente e de membros da OTAN, parceiro comercial e diplomático por causa de Jair Messias Bolsonaro? A cartada é cirúrgica. Resta saber se o republicano vai carregar o peso dos “doidinhos do 8”, como disse o próprio Bolsonaro no depoimento que o tornou réu. Mas que ninguém se apresse em saudar o ministro. Isso não é um elogio.


Moraes não se reinventou no Supremo. Apenas ganhou um palco maior. As suspensões de redes sociais, sob o pretexto difuso de proteger a soberania nacional, expõem não apenas a gravidade da desinformação, mas também o risco de termos um ministro com poderes excepcionais, sem freios nem contrapesos. Sim, Bolsonaro precisa ser julgado conforme a Constituição. Sim, deve responder por todos os atos espúrios contra a democracia que porventura tenha cometido. Mas não é por isso que devemos fechar os olhos à escalada de poder pessoal de Moraes, que opera com mais autonomia que qualquer outro agente público da República. E quem há de confrontá-lo? O Senado atolado de investigações? A base governista cúmplice? Nem Lula parece se dar conta do que está sendo gestado do outro lado da praça dos Três Poderes.

Alexandre de Moraes (Foto: Ton Molina/STF)
Ton Molina/STF

Moraes está deslumbrado com o poder. Um deslumbramento inquietante que beira o medo. Em 2019, antes mesmo de se tornar a figura central da cruzada contra o bolsonarismo, recusou-se a passar pelo detector de metais em um aeroporto e deu a célebre carteirada, como revelou a jornalista Bela Megale.

A arrogância não é novidade — vem de longe. Secretário de Segurança Pública de São Paulo, ministro da Justiça de Michel Temer por indicação de Eduardo Cunha, colecionou episódios que revelam mais autoritarismo que autoridade. Segundo noticiado, naquele cargo falou por duas horas seguidas a especialistas em segurança pública sem ouvir uma única sugestão. Um mês depois, quando as penitenciárias do país explodiram em sangue e fogo, apresentou um “plano” que um dos presentes classificou, sob anonimato ao El País, como um “show de horrores”. Nenhuma menção à valorização de policiais, à prevenção da violência ou à tragédia diária dos jovens negros e pobres.


Moraes não precisa do aplauso popular, afinal tem cargo vitalício. E quando não cala adversários por ordem judicial, avança sobre o Legislativo pela via técnica — como no caso do IOF. Mesmo após o Congresso suspender o decreto que elevava alíquotas, o ministro restabeleceu quase tudo. Passou por cima da vontade dos representantes da população com uma caneta. E ainda o fez com o manto da legalidade, amparado por uma Constituição prolixa, deformada por emendas e que confere superpoderes ao Supremo Tribunal Federal.

É claro que Moraes tem méritos, no entanto, é imperativo questionar se é essa a função da Suprema Corte de um país. Comprar conflitos políticos internacionais, e fazer do mapa mundi seu próprio tabuleiro de “War”, até porque toda República que se quer democrática precisa saber onde seus guardiões terminam — e onde começa o perigo da soberania de um só homem.


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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