A divulgação do relatório preliminar do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) sobre o acidente que matou o cantor Rick trouxe novos elementos técnicos para a apuração, mas ainda não permite determinar as causas definitivas da ocorrência nem apontar responsáveis. Segundo o advogado João Mello, sócio do escritório Leonardo Amarante Advogados Associados, os próximos passos incluem a conclusão da investigação aeronáutica e a análise das evidências pelas autoridades competentes.
Em entrevista ao VTV News, o advogado explicou que o relatório final poderá contribuir para o avanço de eventuais investigações criminais e processos judiciais. Além disso, destacou que as famílias das vítimas podem buscar reparação civil sem precisar aguardar a conclusão da apuração sobre as causas do acidente.
A ausência de gravações de voz da cabine referentes ao voo, as condições meteorológicas e as exigências de segurança para a categoria da aeronave estão entre os pontos que podem influenciar a análise do caso.
Relatório preliminar não define responsabilidades
De acordo com João Mello, o documento preliminar do CENIPA tem caráter provisório e não deve ser interpretado como uma conclusão definitiva sobre o acidente.
O advogado ressalta que a investigação aeronáutica busca esclarecer os fatores que contribuíram para a ocorrência, incluindo eventuais falhas operacionais e questões relacionadas à segurança do voo.
Após a divulgação do relatório final, o Ministério Público poderá analisar os elementos reunidos e dar continuidade às apurações dentro de suas atribuições. Conforme as evidências e os resultados dessa análise, o procedimento poderá resultar em medidas para responsabilização criminal ou ser arquivado.
Mello também destaca que é necessário respeitar o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal antes de atribuir responsabilidades aos envolvidos.
Relembre o caso:
- Um mês após acidente que matou Rick, celulares das vítimas aguardam perícia
- Acidente aéreo que matou Rick: veja o que diz o relatório do Cenipa
- Helicóptero que levava cantor Rick é encontrado com cinco corpos em SC
Ausência de áudio pode dificultar a investigação
Um dos pontos levantados na análise do acidente é a falta de registro das conversas da cabine durante o voo no gravador de voz, conhecido pela sigla CVR.
Segundo o advogado, esse tipo de equipamento pode fornecer informações relevantes sobre as comunicações e as reações dos ocupantes diante de situações enfrentadas durante a viagem.
A ausência desses registros, portanto, pode dificultar a reconstrução dos acontecimentos e exigir a análise de outras evidências disponíveis.
Questionado sobre a possibilidade de falha de manutenção, Mello afirmou que a falta da gravação pode indicar um problema nos procedimentos de aviação. Entretanto, ele ressalta que a avaliação de eventuais responsabilidades depende de diferentes elementos relacionados à operação da aeronave.
A confirmação de uma falha e a eventual atribuição de responsabilidade exigem análise técnica e jurídica, considerando as circunstâncias específicas do caso.

Condições meteorológicas também serão analisadas
O relatório preliminar menciona condições meteorológicas adversas, incluindo chuva e nuvens baixas. Esses fatores podem influenciar o planejamento e a condução de um voo, mas sua participação no acidente precisa ser examinada tecnicamente.
Para Mello, compreender como as condições do tempo interferiram na operação exige conhecimento especializado, especialmente de profissionais com experiência em engenharia aeronáutica.
A análise deverá considerar as informações meteorológicas disponíveis e sua relação com as decisões tomadas antes e durante o percurso.
Dessa forma, a existência de condições climáticas desfavoráveis, isoladamente, não permite concluir que houve erro operacional ou estabelecer a responsabilidade de qualquer pessoa envolvida.
CENIPA e investigação criminal têm funções diferentes
O CENIPA, órgão vinculado à Força Aérea Brasileira, conduz investigações voltadas à compreensão dos fatores que contribuem para acidentes e incidentes aeronáuticos, com foco na prevenção de novas ocorrências.
Já a apuração criminal busca verificar se existem elementos que justifiquem a responsabilização penal de pessoas envolvidas. Eventuais processos cíveis, por sua vez, podem tratar da reparação dos prejuízos sofridos pelas vítimas e por seus familiares.
Segundo Mello, as conclusões técnicas do CENIPA podem fornecer subsídios para procedimentos administrativos e judiciais, mas não substituem as análises próprias de cada esfera.
Isso significa que a investigação aeronáutica e as apurações judiciais possuem objetivos distintos, embora possam utilizar elementos de prova em comum.
Famílias podem buscar indenização antes do relatório final
Apesar de a investigação ainda estar em andamento, as famílias das vítimas podem tomar medidas para buscar reparação pelos danos sofridos.
De acordo com João Mello, uma ação de indenização na esfera cível não depende necessariamente da conclusão da investigação aeronáutica ou da identificação de uma conduta culposa.
O advogado explica que a responsabilidade civil objetiva pode fundamentar pedidos de reparação independentemente da comprovação de culpa, desde que estejam presentes os requisitos legais aplicáveis ao caso.
Entre os prejuízos que podem ser discutidos judicialmente estão os danos materiais e morais. A definição dos valores e dos responsáveis depende, contudo, das circunstâncias da ocorrência e da análise jurídica de cada situação.
Mello acrescenta que pessoas e empresas ligadas à operação do voo podem ser acionadas judicialmente, conforme sua participação e a responsabilidade que lhes possa ser atribuída na cadeia de fornecimento.

Seguro RETA integra a discussão sobre indenizações
Outro ponto abordado na entrevista é o seguro de Responsabilidade do Explorador ou Transportador Aéreo, conhecido como RETA.
Segundo o advogado, o seguro é obrigatório nas operações abrangidas pela legislação e tem a finalidade de oferecer cobertura para determinadas responsabilidades decorrentes da atividade aérea.
Mello compara sua função à de um seguro obrigatório utilizado no transporte terrestre, embora as coberturas e as regras aplicáveis sejam específicas do setor aeronáutico.
A existência do seguro, entretanto, não encerra necessariamente a discussão sobre a reparação integral dos prejuízos. Dependendo das circunstâncias e dos limites de cobertura, as famílias podem buscar judicialmente outros responsáveis pela operação.
A análise de cada pedido deverá considerar a legislação aplicável, os danos comprovados e as responsabilidades eventualmente reconhecidas.
O que acontece a partir de agora?
Na avaliação de João Mello, os principais pontos a acompanhar são a divulgação do relatório final do CENIPA, o andamento das apurações conduzidas pelo Ministério Público e eventuais medidas para responsabilização criminal.
Paralelamente, as famílias podem avaliar as possibilidades de reparação civil e adotar providências para preservar seus direitos.
O advogado recomenda que os familiares procurem profissionais especializados em responsabilidade civil e na defesa de vítimas de acidentes para receber orientação sobre as medidas cabíveis.
A definição das causas do acidente e de eventuais responsabilidades dependerá do avanço das investigações e da análise das evidências pelas autoridades competentes.




