Evelyne dos Santos, apontada pela Polícia Civil como uma das responsáveis pela morte da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, durante um salto de rope jump, em Limeira (SP), se manifestou pela primeira vez e negou que comandasse a equipe Entre Cordas. A declaração foi feita em uma carta escrita à mão e enviada ao VTV News por meio do advogado Mauricio Marchiori.
Conforme revelou a TV Globo, a investigação aponta que Evelyne exercia papel de liderança no grupo e teria determinado que imagens de dois acidentes fossem apagadas, além de excluir uma conta da equipe nas redes sociais após a morte de Maria Eduarda. Ela foi indiciada por homicídio com dolo eventual e fraude processual.
Na carta, a investigada afirma que, há cerca de oito meses, prestava serviços ao grupo de esportes radicais como freelancer – modalidade em que o profissional atua de forma autônoma, cumprindo funções sem vínculo empregatício – e que era responsável apenas por ajudar nas vendas e na divulgação dos eventos.
“Eu não tinha poder de decisão sobre a realização dos eventos, não fazia contratações, não realizava pagamentos, não coordenava funcionários e nem participava das decisões sobre montagem, manutenção, funcionamento dos equipamentos ou questões de segurança. Não tenho conhecimento técnico para a realização dos saltos e nunca ajudei na operação”,
escreveu.
De quem era a responsabilidade?
Ao longo da carta, Evelyne destacou que os eventos já aconteciam antes de sua chegada ao grupo e que foi convidada para integrar a equipe por Luis Felipe Feliciano Egoroff, um dos três instrutores indiciados por homicídio com dolo eventual. Segundo a investigada, era ele quem coordenava as equipes.
“Toda parte de organização, planejamentos, decisões dos eventos era feita pelo Luis Felipe, que era a pessoa responsável por coordenar as equipes, definir a estrutura e cuidar de tudo o que era necessário para a realização dos eventos. Minha participação era somente nas atividades que eu era chamada para trabalhar”.
Luis Felipe foi preso no dia da morte de Maria Eduarda, em 13 de junho deste ano. Em depoimento, ele classificou o caso como uma “fatalidade” e disse que não conseguia explicar como o acidente aconteceu. O instrutor também relatou que desceu de rapel até o local onde a jovem havia caído para prestar socorro e que permaneceu tentando ajudá-la até a chegada das equipes de resgate.
Dinheiro e redes sociais
Outro ponto abordado por Evelyne na carta é a administração financeira da equipe. Ela afirma que não tinha acesso aos valores arrecadados e que os pagamentos feitos pelos participantes eram destinados diretamente a Luis Felipe, por meio de Pix, WhatsApp e da máquina de cartão cadastrada em nome dele.
A investigada acrescentou que era Luis Felipe quem definia as datas dos eventos e a chamava para trabalhar. Segundo ela, saía do Rio Grande do Sul apenas para participar das atividades e retornava ao estado logo em seguida. “O Luis Felipe quem me pagava pelo trabalho, e eu recebia pelos dias que eu trabalhava”, escreveu.
Momento da tragédia
Em seguida, afirmou que, no dia da morte de Maria Eduarda, não desceu da ponte e permaneceu na parte superior da estrutura, “onde ainda havia várias pessoas na plateia”, pois ficou “desesperada e com muito medo”, principalmente da reação do público, por acreditar que poderia “sofrer algum tipo de agressão ou linchamento”.
“Por isso, eu tentei falar pelo rádio para pedir ajuda, mas ninguém respondia. Fiquei desesperada, sem saber o que fazer, comecei a gritar lá de cima da ponte, chamando o Gustavinho. Em nenhum momento fiquei sozinha com o Gustavinho, e nem com ninguém da equipe naquele dia. Ele subiu e, logo depois, uma mulher que estava na plateia se apresentou como enfermeira e pediu para ajudar. O Gustavinho se dispôs a ir com ela até a parte de baixo da ponte. Depois disso, fiquei sozinha novamente e passei a chamar o Kauê para subir, pois o amigo da vítima estava gritando muito e eu comecei a passar mal com toda aquela situação. Quando ele sobe, logo depois a polícia chega e sobe todo mundo que estava lá embaixo”.
Conforme apurado pelo VTV News, “Gustavinho” é Luís Gustavo de Oliveira, que atuava na recepção dos participantes, conferência de dados e equipagem básica. Já Kauê Felipe Silva Silveira era colaborador eventual da equipe e trabalhava na estrutura de ancoragem. Ambos prestaram depoimento à Polícia Civil e não foram indiciados por falta de elementos que os relacionassem à morte de Maria Eduarda.
Onde estão as imagens?
A investigada também rebateu uma das conclusões do segundo inquérito policial, que apontou que a conta do grupo no Instagram foi apagada para dificultar as investigações. Ela afirma que o perfil saiu do ar após denúncias feitas por usuários da plataforma e diz desconhecer o paradeiro da câmera usada pela vítima.
“Gostaria ainda de deixar meus mais sinceros sentimentos e minha solidariedade à família da menina Maria Eduarda diante do ocorrido. Tenho muito respeito pela dor que a família está enfrentando e desejo, de coração, que todos os fatos sejam esclarecidos. Desde o primeiro momento, tenho colaborado com as autoridades e com a Justiça, respondendo a todas as perguntas que me foram feitas, informando meu endereço corretamente, local onde fui encontrada posteriormente. Em nenhum momento resisti às determinações das autoridades. Continuo à disposição e seguirei colaborando com as investigações, porque também desejo que tudo seja esclarecido”.
A defesa de Evelyne informou que discorda do indiciamento e sustenta que as teses apresentadas pela investigada serão analisadas ao longo do processo. O caso ainda será apreciado pelo Ministério Público e, posteriormente, pela Justiça, que decidirá se acolhe ou não as acusações formuladas pela Polícia Civil.
Leia a carta na íntegra:
“Escrevo esta carta para esclarecer qual foi a minha participação nos eventos realizados da equipe ‘Entre cordas’. Meu nome é Evelyne e eu trabalhava como freelancer, fazendo serviços de vendas e divulgação por meio de mídias sociais. Meu trabalho era divulgar os eventos e atender as pessoas. Os eventos já aconteciam antes mesmo de eu começar a trabalhar com eles. Fui chamada pelo Luis há 8 meses para prestar serviços como freelancer, ajudando na divulgação e nas vendas.
Toda parte de organização, planejamentos, decisões dos eventos era feita pelo Luis Felipe, que era a pessoa responsável por coordenar as equipes, definir a estrutura e cuidar de tudo o que era necessário para a realização dos eventos. Minha participação era somente nas atividades que eu era chamada para trabalhar.
Eu não tinha poder de decisão sobre a realização dos eventos, não fazia contratações, não realizava pagamentos, não coordenava funcionários e nem participava das decisões sobre montagem, manutenção, funcionamento dos equipamentos ou questões de segurança. Não tenho conhecimento técnico para a realização dos saltos e nunca ajudei na operação.
O dinheiro das vendas feitas nos eventos ia diretamente para o Luis Felipe, tanto que os comprovantes da maquininha de cartão estavam no nome dele, inclusive o cadastro da máquina de cartão. O WhatsApp e Pix também estavam em nome dele, onde os clientes faziam os pagamentos diretamente para ele. Eu não tinha controle sobre os valores recebidos e nem participava da administração do dinheiro dos eventos.
Já o Maicon, naquele dia era responsável por supervisionar os debrês. Luis Felipe que organizava as datas e me passava, eu vinha do RS no dia do evento combinado, fazia meu serviço, e voltava para casa. O Luis Felipe quem me pagava pelo trabalho, e eu recebia pelos dias dos eventos que eu trabalhava.
No dia do ocorrido, eu não desci da ponte. Permaneci na parte de cima, onde ainda havia várias pessoas na plateia. Depois que eu entendi o que havia acontecido, fiquei desesperada e com muito medo, e não saí de lá de cima. Eu estava sozinha na parte de cima da ponte e fiquei com receio da reação das pessoas que estavam lá, inclusive de sofrer algum tipo de agressão ou linchamento. Por isso, eu tentei falar pelo rádio para pedir ajuda, mas ninguém respondia.
Fiquei desesperada, sem saber o que fazer, comecei a gritar lá de cima da ponte, chamando o Gustavinho. Em nenhum momento fiquei sozinha com o Gustavinho, e nem com ninguém da equipe naquele dia. Ele subiu e, logo depois, uma mulher que estava na plateia se apresentou como enfermeira e pediu para ajudar. O Gustavinho se dispôs a ir com ela até a parte de baixo da ponte.
Depois disso, fiquei sozinha novamente e passei a chamar o Kaue para subir, pois o amigo da vítima estava gritando muito e eu comecei a passar mal com toda aquela situação. Quando ele sobe, logo depois a polícia chega e sobe todo mundo que estava lá embaixo.
Além disso, a minha conta do Instagram foi derrubada após denúncias, por isso eu não tenho mais acesso ao meu perfil e nem ao conteúdo dele. Não sei onde está a câmera usada nos eventos, pois ela nunca esteve sob minha responsabilidade ou controle. Gostaria ainda de deixar meus mais sinceros sentimentos e minha solidariedade à família da menina Maria Eduarda diante do ocorrido. Tenho muito respeito pela dor que a família está enfrentando e desejo, de coração, que todos os fatos sejam esclarecidos.
Desde o primeiro momento, tenho colaborado com as autoridades e com a Justiça, respondendo a todas as perguntas que me foram feitas, informando meu endereço corretamente, local onde fui encontrada posteriormente. Em nenhum momento resisti às determinações das autoridades. Continuo à disposição e seguirei colaborando com as investigações, porque também desejo que tudo seja esclarecido.
Evelyne dos S. Gonçalves.”
Outro caso
Três meses antes da morte de Maria Eduarda, um menino de 9 anos sofreu um acidente durante um salto de rope jump realizado na ponte. Conforme revelou o Fantástico, da TV Globo, a criança caiu após uma falha no sistema de debreagem – mecanismo responsável pelo controle da descida da corda – e quase morreu.
O acidente aconteceu em março, quando o garoto participava da atividade organizada pelo grupo Entre Cordas. Segundo a reportagem, o menino chegou a ficar caído no chão após o salto e foi socorrido.

Relembre
Maria Eduarda Rodrigues de Freitas morreu aos 21 anos, após ser lançada da Ponte do Esqueleto, durante um salto de rope jump sem estar presa à corda de segurança. Imagens gravadas pelo celular da própria vítima registraram o momento em que ela é impulsionada da estrutura sem o equipamento conectado ao corpo.
O primeiro inquérito da Polícia Civil concluiu que a equipe atuava de forma clandestina, sem empresa formal, e identificou falhas graves na organização da atividade, como a ausência de isolamento adequado da área e a realização de diversos saltos em curto intervalo de tempo, fatores que, segundo os investigadores, aumentavam o risco de erro humano e comprometiam a segurança da operação.
O espaço para a manifestação da defesa de todos os envolvidos está aberto e o texto pode ser atualizado.