Um dos suspeitos pela morte do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes já foi identificado, segundo informou o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, nesta terça-feira (16). A declaração foi feita durante o velório, que acontece na Assembleia Legislativa (Alesp). A Polícia Civil já pediu à Justiça a prisão temporária do investigado.
De acordo com o secretário, o suspeito tem extensa ficha criminal, com quatro passagens pela polícia – duas por tráfico de drogas e duas por roubo – além de ter sido apreendido na adolescência. Sua identidade, porém, não foi revelada. Derrite classificou o crime como um “atentado terrorista” e prometeu punição severa aos envolvidos.
O crime ocorreu na tarde de segunda-feira (15), em Praia Grande, na Baixada Santista. Imagens obtidas pelo VTV News mostram o momento em que Ruy Ferraz Fontes é executado a tiros ao sair do trabalho, dentro de um carro não blindado. A ocorrência mobilizou forças de segurança estaduais e equipes especializadas da Polícia Civil e da Polícia Militar (PM).
Material genético levou à identificação do suspeito
De acordo com a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), os criminosos utilizaram dois veículos na ação e tentaram incendiá-los após o crime. Um deles, um Jeep Renegade, não foi completamente destruído, o que permitiu à Polícia Técnico-Científica colher material genético. A análise desse material levou à identificação de um dos suspeitos.
A partir de agora, a investigação trabalha com duas linhas principais: vingança pela atuação histórica de Fontes contra o PCC e represália por sua função atual na Prefeitura de Praia Grande. Ruy era secretário de Administração no município e já havia incomodado interesses criminosos locais. As autoridades não descartam nenhuma hipótese.
Imagens mostram passo a passo da execução do ex-delegado Ruy Ferraz Fontes
Imagens de câmeras de monitoramento mostram o momento em que um veículo ocupado por pelo menos quatro criminosos estaciona próximo à Secretaria de Educação, na Rua 18 de Novembro, às 18h02. Quatorze minutos depois, o carro dirigido por Fontes se aproxima e é imediatamente alvejado, iniciando uma perseguição. Ele foge em direção à Rua 1º de Janeiro.
Durante a fuga, o carro conduzido pelo ex-delegado colide com dois ônibus e capota na Avenida Dr. Roberto de Almeida Vinhas. Após o acidente, três homens mascarados descem do veículo e cercam o carro capotado, enquanto um quarto fica na retaguarda para dar cobertura. Armados com fuzis de uso restrito, os suspeitos iniciam o ataque contra a vítima (assista à dinâmica do crime acima).
O ataque foi realizado à queima-roupa, com os criminosos disparando diversas vezes contra a vítima. De acordo com o registro policial, Fontes foi atingido por mais de 20 disparos, principalmente nos braços, pernas e abdômen. “Foi uma execução com um objetivo claro: eliminar a vítima rapidamente”, disse o delegado-geral da Polícia Civil, Artur Dian.
Carro usado no assassinato do ex-delegado era roubado e registrado em Indaiatuba (SP)
Pouco após o crime, a Polícia Civil encontrou a Hilux usada pelos criminosos completamente incendiada. O veículo foi localizado em uma área a cerca de dois quilômetros do local da execução. Para os investigadores, a principal suspeita é de que o fogo tenha sido provocado para eliminar vestígios e dificultar a investigação.
Um segundo carro, um Jeep Renegade, também foi localizado nas proximidades, com carregadores de fuzil e munições no interior. A polícia apura se esse veículo foi usado como apoio na execução ou se tem ligação com outras ações criminosas. Ambos os veículos tinham registro de roubo em São Paulo, segundo o boletim de ocorrência (BO).
A Hilux, modelo 2022 com placa de Indaiatuba foi achada às 18h45; já o Renegade, ano 2021 da Capital, foi encontrado às 19h. Dentro de um dos carros, a polícia encontrou a arma de uso pessoal de Ruy Ferraz Fontes, guardada em uma bolsa com seus pertences. O armamento foi apreendido e encaminhado para perícia.

Emboscada: criminosos aguardaram o fim do expediente de Ruy Fontes para executá-lo
O VTV News apurou que o ataque ao ex-delegado começou logo após ele deixar a Prefeitura de Praia Grande, onde atuava como secretário de Administração. Segundo o prefeito Alberto Mourão (MDB), Fontes havia encerrado o expediente um pouco mais cedo do que o habitual – ele costumava sair por volta de 19h, mas decidiu sair por volta de 18h20.
A vítima fazia um trajeto conhecido quando foi atacado e, naquele dia, usava um carro diferente do blindado que costumava utilizar. “Foi um dia excepcional, pelo que os funcionários falaram, ele hoje veio com outro carro”, afirmou Mourão. O prefeito acredita que os criminosos estavam à espera do secretário, próximo à sede da prefeitura.
A execução motivou uma força-tarefa, composta por equipes do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), Departamento Estadual de Investigações sobre Entorpecentes (Denarc) e do Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO).

Quem era o delegado Ruy Ferraz Fontes?
Ruy Ferraz Fontes, de 64 anos, foi delegado por mais de 40 anos e ocupou o cargo de delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo entre 2019 e 2022. Formado em Direito, atuou em unidades de elite como o Deic, DHPP, Denarc e Decap. Em 2023, assumiu a Secretaria de Administração de Praia Grande, onde trabalhava até ser executado.
Fontes teve papel de destaque no combate ao crime organizado em São Paulo, especialmente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC). Participou das investigações e prisões de líderes da facção no início dos anos 2000. Ele também foi um dos responsáveis por indiciar os chefes do grupo após os ataques de 2006.
Entre os presos à época estava Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, principal líder do PCC. Ruy foi citado no livro “Laços de Sangue”, escrito por Márcio Christino e Claudio Tognolli, como peça-chave no enfrentamento à facção. Segundo especialistas, seu assassinato pode ter ligação com essa atuação histórica.