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Eleições e Inteligência Artificial: legislação branda e alerta institucional

Presidente do TSE alerta para o risco de erosão democrática; especialistas apontam aposta arriscada em big techs e falhas na regulação
Terminais de votação com urna eletrônica em uma seção eleitoral, com aviso sobre Prazo para voto em trânsito nas Eleições 2026. Eleitor tem até amanhã (20) para solicitar voto em trânsito.

A ministra Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), afirmou nesta terça-feira (27) que a propagação de conteúdos falsos nas eleições, sobretudo com o uso de inteligência artificial (IA), representa uma ameaça direta à democracia.

Em discurso durante seminário oficial da Corte sobre segurança e desinformação, a magistrada declarou que mentiras tecnologicamente divulgadas podem capturar a vontade do eleitor e comprometer a legitimidade do voto.

Segundo ela, a circulação de informações falsas “deforma, transtorna e ilude”, podendo induzir o cidadão a escolher candidatos com base em conteúdos fabricados.

“Quando a mentira circula e depois é desmentida, instala-se a dúvida, e a dúvida corrói a confiança nas instituições”, afirmou.

Para Cármen Lúcia, o papel da Justiça Eleitoral deve ser o de agir preventivamente, com medidas que protejam o pleito sem restringir a liberdade de expressão, base essencial da democracia.

Especialistas veem despreparo

Com o avanço da tecnologia, está cada vez mais difícil identificar o que é verdade e o que não é. Em maio 2025 por exemplo, viralizou um vídeo que mostrava um canguru supostamente sendo impedido de embarcar em um avião. A cena acumulou mais de 11 milhões de visualizações, e gerou certa comoção nas redes sociais. O vídeo, no entanto era falso.

Para a advogada Maria Eduarda Amaral, especialista em Direito Digital, o cenário das inteligências artificiais exige atenção redobrada, sobretudo pela dificuldade técnica em detectar essas manipulações visuais e sonoras com deepfakes.

“Concordo em parte com a ministra, especialmente no que diz respeito à dificuldade posterior de se comprovar que determinado conteúdo era falso. Esse desafio já se mostrou real em eleições passadas, mesmo sem a IA tão presente quanto agora.”

Canguru em aeroporto simulando tentativa de embarque em avião; cena de vídeo viral gerado por montagem digital.
A repercussão inicial sobre o vídeo foi tanta, que diversas pessoas não perceberam se tratar de uma montagem (Foto: Reprodução / YouTube)

Contraponto de especialistas

Amaral também criticou a postura institucional do TSE diante do tema, classificando como surpreendente o que considera um despreparo da Corte para lidar com as eleições deste ano, mesmo após a sanção da lei que regulamenta os profissionais de multimídia. Segundo ela, o foco da norma recaiu sobre a atuação de influenciadores digitais para o setor público, sem enfrentar de forma incisiva os impactos da desinformação.

A especialista avalia que o tribunal aposta demasiadamente na cooperação com as big techs para a remoção de conteúdos, em um contexto em que tais empresas estariam mais preocupadas em evitar responsabilizações.

“A boa vontade dessas plataformas nunca existiu. Elas atuaram contra a responsabilização judicial no julgamento do artigo 19 do Marco Civil da Internet justamente para escapar desse tipo de controle”, afirmou.

Mesmo com a mudança de interpretação do STJ sobre o Marco Civil, que passou a exigir atuação proativa das plataformas, a retirada de publicações indevidas ainda pode demorar até 72 horas úteis — tempo suficiente, segundo ela, para que “milhões de pessoas já tenham sido impactadas”.

Falta de protocolo e regulação

Durante o evento, o chefe da Seção de Defesa Cibernética do TSE, Marcelo Carneiro, afirmou que o tribunal ainda não possui protocolos bem definidos para lidar com o uso de inteligência artificial, por ser uma tecnologia recente. Segundo ele, apesar da presença crescente de vídeos e áudios falsificados nas redes — inclusive envolvendo figuras como Lula e Jair Bolsonaro —, os casos analisados até agora não foram considerados relevantes.

A declaração chamou atenção por contrastar com a percepção de especialistas e com a movimentação da própria Corte, que aprovou recentemente regras específicas para o uso de IA em propagandas eleitorais.

Ministra Cármen Lúcia discursa em seminário do TSE sobre desinformação e inteligência artificial nas eleições.
Ministra Cármen Lúcia no evento do TSE (Foto: Alejandro Zambrana/TSE)

Pela norma, conteúdos em vídeo devem conter aviso explícito sobre o uso de ferramentas artificiais, e materiais em áudio devem apresentar alertas sonoros ou textuais. O descumprimento pode levar à retirada do material por ordem judicial, por determinação direta do TSE ou por solicitação das plataformas.

Para Amaral, o problema é que o próprio tribunal reconhece que não consegue identificar com precisão o que foi ou não gerado por IA — o que tende a produzir um ambiente de insegurança jurídica e operacional às vésperas do processo eleitoral.

Justiça quer reforço institucional

Em sua fala final, a ministra Cármen Lúcia reiterou que o TSE vai atuar em parceria com a Polícia Federal, os tribunais regionais eleitorais e a imprensa para proteger a integridade do pleito e assegurar que “a democracia brasileira se sustente na confiança”.

Segundo ela, é fundamental garantir que os dias de votação — marcados para 4 e 25 de outubro — transcorram com tranquilidade e liberdade plena de escolha.

“A única coisa que garante uma democracia é a confiança da cidadania nas instituições que formam o poder público. O Brasil merece uma democracia, e precisamos garantir que ela seja assegurada”, afirmou.


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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