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Viajar por Portugal: um olhar de quem vive há 11 anos na cidade do Porto

Morador da cidade há mais de uma década, o autor compartilha um roteiro que vai além dos pontos turísticos tradicionais
Porto - Portugal

Quando decidi escrever esse artigo sobre “Viajar por Portugal” era mais que esperado que começasse por onde escolhi viver e que revisitasse lugares que, apesar de fazerem parte do meu cotidiano, deveriam ser revistos sob uma ótica diferente, um olhar de turista.

Se minha escolha era mais que natural, ela não aconteceu sem apreensão e responsabilidade, afinal, será o nosso leitor o juiz das minhas sugestões.

Porto, uma cidade com alma

Há quem visite pela primeira vez e fale da Ribeira, das caves de vinho ou da Ponte Luís I. Tudo isso faz parte da cidade. Mas, para mim, que vivo aqui há 11 anos, aInvicta, apelido do Porto desde o século XIX, nunca foi apenas um conjunto de monumentos. Como dizem os portuenses, aqui existe alma.

Contrariando a tendência do turismo mundial, onde tudo fica impessoal e descartável, o Porto vem tentando resistir bravamente para permanecer genuíno, para que as pessoas possam viver com naturalidade.

Os cafés de bairro continuam cheios, os mercados ainda fazem parte da rotina, os vizinhos conversam à porta de casa e há uma autenticidade difícil de explicar, mas fácil de sentir. E que deixa seus moradores com imenso orgulho da cidade onde vivem.

Ao longo dos anos, descobri que conhecer verdadeiramente o Porto não passa por visitar apenas os lugares mais famosos. É preciso buscar espaços que preservam essa identidade.

Por isso sempre sugiro aos meus amigos que escolham um hotel cuja alma seja muito parecida com a da cidade. Como se diz por aqui: “A cara precisa combinar com a careta”.

Como um hotel pode mudar a forma como vivemos e desfrutamos de um lugar, a minha sugestão sempre recai sobre o Menina Colina, uma guest house que é um símbolo da alma da cidade.

Menina Colina - Porto - Portugal
Fotos: Divulgação

A menina dos meus olhos

Conheci o Menina Colina pouco depois de sua abertura, há alguns anos, e fiquei de imediato impressionado. Não apenas pela beleza da casa – um casarão de meados do século XIX – mas pela forma como a recuperação conseguiu preservar a sua identidade, sem o transformar num espaço artificial.

Ao voltar para fazer essa matéria, senti certo receio de que a magia que experimentei quando lá estive pela primeira vez tivesse ficado no passado, mas no caso do Menina Colina aconteceu exatamente o contrário.

Ao entrar novamente no jardim, senti imediatamente a mesma tranquilidade: as camélias, as árvores e o silêncio criam um espaço único numa cidade cada vez mais dinâmica.

A construção esteve fechada desde a década de 1980 e passou por uma grande renovação iniciada em 2017. Se o longo trabalho de restauração era, muitas vezes, extenuante, pouco a pouco pequenos tesouros escondidos pelo passar do tempo renasciam à luz do dia.

Depois de tanto esforço e trabalho, a abertura ao público aconteceu dois meses antes do fechamento da cidade – devido ao Covid 19 – e foi um duro golpe aos proprietários que desejavam devolver aos portuenses uma obra importante da arquitetura clássica portuguesa. Foi preciso esperar algum tempo para ver o casarão novamente cheio de vida.

Enquanto esperava para conversar com Guy Lehmann, um dos proprietários, fui informado de que o hotel recebe um grupo fadista para saraus durante a semana na antiga Sala da Música, um ex-libris da casa que não nos deixa indiferentes, tamanha a sua beleza.

Em uma das paredes dessa sala, os proprietários optaram por não restaurar a pintura original, deixando parte dela exatamente como foi encontrada, permitindo que o visitante perceba a dimensão do trabalho realizado.

Nas paredes restantes, sobrevivem pinturas ornamentais com figuras de músicos que atravessaram mais de um século de história. Hoje, esse espaço voltou a cumprir a função para a qual foi criado: promover a arte.

Guy me conta que ele e seus sócios – Júlia, Hinrich e Maria – visitaram dezenas de imóveis antes de se decidiram pelo prédio, e que todos ficaram surpresos ao entrar no casarão pela primeira vez, pois não imaginavam que a entrada discreta escondia um tesouro daqueles.

Durante o restauro, a preocupação de todos era não descaracterizar o edifício do século XIX, mas também oferecer todas as comodidades de um hotel em pleno século XXI.

Entre as curiosidades, ele diz que mudaram poucas paredes e preservaram toda a ornamentação e praticamente todos os assoalhos de pinho de riga, alguns com mais de 8 metros de comprimento.

A tarefa mais difícil certamente foi inserir a infraestrutura de iluminação, tubulação de água e esgoto, aquecimento e ar-condicionado, sem estragar nada da beleza original. Uma tarefa hercúlea para uma construção que pulou de 2 para 14 banheiros.

Com certo pesar, ele diz que não foi possível inserir um elevador, o que teria sido um estrago enorme na caixa da escada.

Alemão apaixonado pelo Brasil, onde viveu durante muitos anos no interior de São Paulo, Guy divide seu tempo entre Hamburgo e Porto. Marceneiro de formação seu olhar, talhado pela profissão, está presente em cada canto da casa: da espaçosa cozinha à sala de almoço com cores vibrantes, na ensolarada sala do pequeno-almoço com vista para o jardim, na suntuosa escadaria, na enorme claraboia, tudo meticulosamente projetado.

Não é à toa que a guest house é considerada uma das melhores opções da cidade. O hotel conta com 13 confortáveis quartos, cada um deles decorado de forma exclusiva e com tons que remetem às cores das casas novecentistas.

Se conhecer uma cidade é preciso, e o hotel faz parte dessa experiência, o Porto e o Menina Colina andam de mãos dadas.

Meus cinco lugares preferidos do Porto

Uma vez instalado, hora de passear e conhecer a cidade. Obviamente que o Porto tem lugares icônicos que fazem parte da lista de qualquer turista, como visitar o Mercado do Bolhão, ir à Casa da Música, andar pela Ribeira, conhecer a Sé do Porto e as muralhas Fernandinas. As minhas sugestões, no entanto, vão na contramão do “mais do mesmo”, pelo menos assim espero. O leitor pode me contrariar se for preciso.      

A cidade convida a andar a pé e sugiro começar pelo Parque da Cidade. Durante muitos anos, vivi ali perto e caminhar pelas alamedas arborizadas é uma experiência bastante relaxante. É possível encontrar coelhos e galos, com suas cristas majestosas, andando pelo parque em plena harmonia com os visitantes. Vale passear pelo Sítio das Camélias, área com grande variedade de espécies dessa flor, concebida como homenagem à própria cidade do Porto, que, desde 1880, é conhecida como Cidade das Camélias.

Se o caminhar já cumpriu sua missão, mais alguns passos o levam direto à praia. Isso mesmo, do parque ao mar, quase num piscar de olhos. Nada melhor que tomar um pouco de sol, com os pés na areia e observar os surfistas

Outra sugestão é flanar pelo bairro do Bonfim, uma das zonas mais criativas e interessantes do Porto. Costumo sugerir dois lugares.

O primeiro é o Fiasco, um bar que ganhou prestígio entre moradores e estrangeiros por conta da personalidade despretensiosa. Autointitulado um record bar, por lá a música é tão importante quanto o que se consome. Além de coquetéis caprichados, é possível procurar raridades entre as centenas de vinis disponíveis para venda na parceria com a 8 mm Records. Há alguns meses, o cantor Patrick Watson gostou tanto da vibe do local que acabou por surpreender os clientes tocando alguns dos seus sucessos de improviso.

Ainda na mesma região, gosto muito do Dona Mira Café, um café-bar casual cheio de bossa. Com um público descolado, moradores, jovens e turistas se encontram de forma espontânea para simplesmente viver a vida sem nenhuma pressa.

Se o turista tem sede de cultura, passar o sábado ou o domingo na Fundação Serralves é sem dúvida, um programa obrigatório.  Ali, arte contemporânea, arquitetura e natureza convivem num dos espaços mais agradáveis do país. Uma dica importante: no primeiro domingo de cada mês, a entrada para conhecer a Fundação e suas exposições é gratuita.

Se a viagem pede um clima romântico ou de celebração, dificilmente encontro lugar melhor do que o Restaurante Portucale. Mais do que um jantar com boa comida, o restaurante, no rooftop, oferece uma vista panorâmica da cidade toda iluminada.

Esta é apenas a primeira paragem

Espero que os leitores do VTV News tenham gostado desta primeira reportagem sobre Portugal – e, em especial, sobre o Porto, cidade onde vivo e à qual fazia questão de dedicar este primeiro capítulo da nossa jornada.

Nas próximas reportagens vamos conhecer outras cidades, outras paisagens e outras formas de viver Portugal.

Do litoral ao interior, das aldeias históricas aos pequenos hotéis de família, a intenção será sempre a mesma: mostrar um país que existe para além dos roteiros turísticos tradicionais.

Porque, muitas vezes, o verdadeiro Portugal está precisamente onde menos se espera.

Serviço:


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Autor

  • Paulo Visani Rossi

    Paulo Visani Rossi é advogado especializado em Direito Autoral e assessor de imprensa, atua como consultor de marketing na Europa e vive há 9 anos em Portugal

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