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1 em cada 4 meninas sente que a vida não vale a pena ser vivida, aponta IBGE

Levantamento nacional expõe alto nível de sofrimento emocional entre jovens e destaca desigualdades de gênero nos indicadores recentes
Adolescente pensativo representando a crise de saúde mental juvenil revelada pela pesquisa PeNSE 2024 do IBGE.

Nesta quarta-feira (25), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados preocupantes sobre a saúde mental dos adolescentes brasileiros.

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, 25% das meninas de 13 a 17 anos relataram sentir que a vida não vale a pena ser vivida, o dobro do percentual registrado entre os meninos. A pesquisa, que está em sua quinta edição, analisou hábitos, atitudes e cuidados com a saúde de estudantes matriculados em escolas públicas e privadas de todo o território nacional, reunindo mais de 100 mil respostas.

O levantamento aborda temas como bullying, saúde mental, comportamento sedentário, uso de álcool e drogas, saúde sexual e reprodutiva, segurança, violência, hábitos de higiene, imagem corporal e uso de serviços de saúde.

O resultado sobre a perda de sentido da vida entre adolescentes chama atenção para a urgência de políticas públicas e de estratégias de acompanhamento familiar e escolar. O suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 19 anos, conforme dados da Organização Mundial da Saúde citados pela PeNSE.

Saúde mental na adolescência: uma crise silenciosa

A pesquisa revelou que sentimentos de tristeza, irritabilidade e desesperança são mais frequentes entre meninas do que meninos. Além de 25% das meninas declararem que a vida não vale a pena, 43,4% relataram vontade de se machucar de propósito nos últimos 12 meses, em comparação com 20,5% dos meninos.

Outros indicadores de saúde emocional também se mostraram preocupantes: 58,1% das meninas afirmaram sentir irritabilidade, nervosismo ou mau humor por qualquer motivo nos 30 dias anteriores à pesquisa, mais do que o dobro do registrado entre os meninos (27,6%).

De acordo com Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora da University of Saskatchewan (Canadá), especialista em saúde emocional e vínculos com animais, em entrevista para a VTV News, esses números não devem ser interpretados como casos isolados:

“Esse é um dado muito preocupante porque aponta para algo que não é individual, mas coletivo. É um número expressivo de jovens descrevendo o mesmo sentimento. Muito possivelmente, temos fatores sociais que permeiam a vida de jovens em diferentes espaços sociais, resultando nessa percepção. Muitas vezes, quando o jovem fala do desejo de morrer ou da sensação de que a vida não merece ser vivida, ele não está falando literalmente de uma morte física, mas do desejo de interromper um sofrimento interno. Esse sofrimento pode estar associado a uma sobrecarga emocional, a uma sensação de solidão muito grande, à percepção de não ser visto e valorizado ou mesmo à desesperança em relação ao futuro. Isso precisa ser considerado e esses fatores olhados de perto para que possamos oferecer suporte adequado aos jovens.”

Segundo a especialista, a vulnerabilidade das meninas é particularmente alta:

“Meninas tendem a ter uma consciência emocional maior e a internalizar o sofrimento, desenvolvendo ansiedade, tristeza e ruminação, principalmente se se sentem isoladas socialmente. Elas enfrentam pressões sociais significativas, como padrões de beleza, comparação constante em redes sociais e expectativas nas relações com pares e pais. Isso aumenta a sensação de inadequação e autocrítica, e, diante da ausência de canais de expressão, ocorre a percepção de que a vida não merece ser vivida.”

Dados detalhados sobre a saúde emocional dos adolescentes

Além da sensação de perda de sentido, a PeNSE investigou outros aspectos da saúde mental e social:

  • Não ter amigos próximos: 4,5% dos adolescentes afirmaram não ter amigos próximos, número que cresceu 0,5 pontos percentuais em relação a 2019. Entre 13 e 15 anos, 3,9% disseram não ter amigos próximos; entre 16 e 17 anos, 5,5%. Por gênero, 4,8% dos meninos e 4,1% das meninas relataram ausência de amigos próximos.
  • Sentimento de que ninguém se preocupa com eles: 26,1% dos adolescentes disseram sentir-se assim ‘na maioria das vezes’ ou ‘sempre’, sendo 33,3% entre meninas e 19,0% entre meninos.
  • Tristeza frequente: 28,9% relataram sentir-se tristes com frequência, com maior incidência entre meninas (41%) do que entre meninos (16,7%). Apesar disso, houve redução de 2,5 pontos percentuais em comparação com 2019, indicando algum avanço na resiliência pós-pandemia.
  • Irritabilidade e mau humor: Entre meninas de 16 a 17 anos, 59,5% relataram irritabilidade, nervosismo ou mau humor, contra 28,5% dos meninos na mesma faixa etária.
  • Vontade de se machucar de propósito: Introduzida em 2024, a pergunta revelou que 32% dos adolescentes relataram esse desejo, com diferença significativa entre meninas (43,4%) e meninos (20,5%).

Esses números evidenciam uma crise de saúde mental que afeta tanto o bem-estar emocional quanto a integração social dos jovens.

Gráfico PeNSE 2024 detalhando indicadores de bem-estar emocional e integração social de adolescentes brasileiros.

Especialistas apontam causas múltiplas

Anne Brito, psiquiatra da infância e adolescência, explica para a VTV News que os dados refletem não apenas fatores individuais, mas mudanças profundas no cotidiano dos adolescentes:

“Esses dados nos trazem um sinal de alerta e apontam que estamos falhando em fornecer os nutrientes básicos para o desenvolvimento cerebral saudável dos jovens. Jonathan Haidt define isso como uma mudança profunda na estrutura da infância: trocamos uma infância baseada no brincar por uma infância baseada em telas. Os estímulos digitais infinitos oferecem prazer imediato e fácil; para se proteger desse excesso, o cérebro acaba baixando a sensibilidade ao prazer. Quando o mundo real perde cor, surge a percepção devastadora de que a vida não vale a pena ser vivida.”

Segundo Anne, a fragmentação da identidade é um efeito adicional desse ambiente digital:

“O jovem se enxerga como um produto avaliado por likes e comentários. Quando o valor de uma pessoa é terceirizado para métricas digitais, o risco de insatisfação profunda com o próprio corpo e sensação de insuficiência é elevado. Não se trata de fragilidade das meninas, mas de um ecossistema digital hostil às formas de se relacionar do universo feminino.”

Ela destaca que fatores como exclusão social digital e padrões estéticos irreais impõem pressão adicional às meninas, enquanto meninos tendem a expressar conflitos de forma mais direta ou física, sendo menos impactados por esses estímulos digitais.

Gráfico PeNSE 2024 comparando impactos de padrões estéticos e exclusão digital na saúde mental entre gêneros.

Como identificar sinais de alerta

Especialistas alertam que a percepção de sofrimento emocional nem sempre é evidente. Roma explica alguns sinais que pais, responsáveis e educadores devem observar:

“Mudança de humor, dificuldade em regular emoções, tristeza ou irritabilidade frequentes, isolamento social, abandono de atividades que antes traziam prazer. Às vezes os sinais não são visíveis e o jovem parece funcional, mas apresenta dificuldades na escola, concentração prejudicada, autocritica intensa ou mudanças no comportamento habitual.”

Anne acrescenta que alterações biológicas e de rotina também são indicativos importantes:

“Retraimento social, abandono de atividades, alterações no apetite, dificuldade para dormir, sonolência excessiva, queda no desempenho escolar. Não significa que há um problema isolado, mas são sinais para observar e compreender o que está acontecendo. É essencial que pais e responsáveis estejam presentes e conectados.”

Pressão das redes sociais e impacto biológico

O ecossistema digital contribui para agravar a vulnerabilidade emocional, segundo as especialistas consultadas pela reportagem. Anne explica que o excesso de estímulos digitais prejudica o sistema de recompensa do cérebro:

“O uso excessivo de telas desregula o ritmo biológico, o sono e a secreção de melatonina. Isso torna o cérebro incapaz de regular emoções e vulnerável a uma cultura que prioriza performance, comparação e exposição digital. O isolamento digital, embora mascarado por conectividade constante, gera vazio emocional e atrofia a sensação de pertencimento.”

Roma complementa:

“Redes sociais intensificam comparação e inadequação. A falta de suporte social está relacionada a esse tipo de comportamento. É fundamental estimular participação em espaços presenciais, pois, embora a internet facilite conexão, ela também tem aspectos nocivos quando excessiva.”

Estratégias práticas para melhorar a saúde mental

Segundo as especialistas, é necessário adotar estratégias tanto individuais quanto coletivas:

  • Escuta ativa e presença familiar: criar espaços de diálogo sem julgamento, validar emoções e acompanhar rotina diária.
  • Resiliência emocional: permitir microdesafios, enfrentar frustrações e conflitos cotidianos, incentivar responsabilidades, limitar gratificação instantânea digital.
  • Sono e hábitos saudáveis: garantir horário regular de sono, alimentação adequada e atividade física.
  • Conexão social real: incentivar pertencimento a grupos culturais, esportivos ou voluntários, reduzir exposição digital à noite e promover momentos de desconexão familiar.
  • Políticas coletivas: medidas como restrição de aparelhos eletrônicos em escolas ajudam a reduzir impacto coletivo do excesso de telas.

Anne enfatiza:

“É importante resgatar conexão síncrona, senso de pertencimento e habilidades sociais. A sobreproteção digital e física impede desenvolvimento de resiliência. Sem microdoses de estresse diário, qualquer adversidade é percebida como catástrofe insuportável.”

Roma reforça:

“Oferecer suporte adequado, observar fatores múltiplos — redes sociais, pressão escolar, relações familiares e econômicas — e criar canais seguros de escuta tem impacto significativo. Ações simples, como perguntar sobre o dia e sentimentos, mostram cuidado e ajudam a prevenir sofrimento emocional.”

Onde buscar ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito 24 horas por dia, todos os dias da semana, por chat, e-mail ou telefone (188), inclusive com canal exclusivo para adolescentes de 13 a 24 anos, em parceria com o UNICEF (“Pode Falar”). O serviço garante anonimato e acolhimento sem julgamento.

O que fazer

Os dados da PeNSE 2024 revelam que a saúde mental dos adolescentes brasileiros é uma questão urgente, com impacto maior sobre meninas. Sentimentos de tristeza, irritabilidade e perda de sentido na vida refletem fatores biológicos, sociais e digitais, exigindo atenção de pais, educadores e sociedade.

Especialistas destacam que, embora complexa, a situação pode ser enfrentada com medidas de escuta, resiliência, rotina saudável, conexão social real e políticas coletivas de cuidado.

O alerta é claro: compreender, identificar e agir são passos essenciais para garantir que adolescentes encontrem significado na vida, desenvolvam habilidades emocionais e tenham suporte para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo.


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Autor

  • Laís Seguin

    Formada em Jornalismo pela Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba) e atua na imprensa desde 2021 como repórter de cotidiano, comportamento e variedades. Produz conteúdos voltados ao dia a dia da população, com foco em informação acessível e de interesse regional.

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