Uma mulher morreu na madrugada da última quarta-feira (21) para quinta-feira, em Indaiatuba, dias após dar à luz em um hospital da cidade, após complicações registradas durante o parto. A Polícia Civil investiga o caso, registrado como morte suspeita, enquanto a unidade hospitalar e o poder público municipal abriram procedimentos administrativos para apuração dos fatos.
Bianca Fidêncio da Silva, de 28 anos, deu entrada no Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Hoac), em trabalho de parto, no último dia 18. Segundo relato da família, havia indicação médica prévia para cesariana, mas a gestação evoluiu para parto vaginal simples, sendo descartada a cesárea pelo médico. Durante o procedimento, a paciente apresentou hemorragia grave, sendo submetida a cirurgia de emergência. Ela permaneceu internada até o óbito. A família informou que o recém-nascido não resistiu e faleceu nesta sexta-feira (23). O hospital pro sua vez nega o óbito, e diz que o bebê segue internado.
Em entrevista ao VTV da Gente, o marido da Bianca, Mateus Felipe de Souza relatou indignação: “por que não fez a cesária? A palavra da mulher não vale mais nada? A lei não vale? Ela tem o direito de escolher. Era para ser cesária.
Mateus disse ter ouvido diversas outras pessoas que passaram pelo mesmo médico, que relataram “quase ter perdido a vida nas mãos do doutor”. De acordo com o boletim de ocorrência, a morte ocorreu durante o atendimento hospitalar, após intercorrências clínicas no parto. O caso é apurado pela Polícia Civil, que realiza diligências para esclarecer as circunstâncias e eventuais responsabilidades.
“Meu filho não se mexe,não abre o olho. Isso é morte natural?“, questionou o pai indignado.

Linha do tempo dos fatos
- 18 de janeiro, por volta das 10h: Bianca Fidêncio deu entrada na maternidade. Manifestou desejo de parto cesariano, mas já estava em trabalho de parto ativo, contrações eficazes e batimentos cardíacos fetais normais.
- 10h45: novo exame indicou evolução rápida do trabalho de parto, com dilatação maior e considerada adequada. Nesse momento, o parto vaginal passou a ser optado, ficando a cesariana reservada apenas para eventual intercorrência.
- 11h15: a dilatação foi completada. Nesse momento, foi identificada bradicardia fetal sustentada. Isto é, uma frequência cardíaca anormalmente baixa, e sinal de sofrimento fetal agudo.
- Após a identificação do sofrimento fetal: o obstetra informou a paciente e o acompanhante sobre o quadro e explicou que, naquele estágio avançado do parto, a via vaginal era a forma mais rápida e segura de nascimento. Para abreviar o parto e reduzir o sofrimento do bebê, foi realizada a aplicação de fórceps, procedimento previsto em emergências obstétricas.
- Nascimento do bebê: o recém-nascido, com peso aproximado de 4 kg, nasceu com sinais de hipóxia — falta de oxigênio adequada para o bebê — e recebeu atendimento imediato da equipe neonatal especializada. Segundo o hospital, o bebê estaria internado na UTI em estado grave. Já a família relata que o bebê não resistiu e morreu no local.
- Pós-parto imediato: a paciente apresentou sangramento vaginal intenso, causada por uma condição em que o útero não se contrai adequadamente após o parto.
- Diante da gravidade do sangramento: foi necessária uma cirurgia de urgência, medida extrema adotada para conter a hemorragia e preservar a vida da paciente. Bianca teve uma complicação grave e potencialmente fatal associada a hemorragias obstétricas severas.
- Apuração interna: a Diretoria do Hospital instaurou uma sindicância interna. O resultado será encaminhado à Comissão de Ética Médica e, posteriormente, ao Conselho Regional de Medicina, responsável pela avaliação da conduta profissional.
- Caso é levado à Polícia Civil: em nota, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou a Polícia Civil está investigando a morte de Bianca. O caso foi registrado como morte suspeita na Delegacia de Indaiatuba.
Providências administrativas
A Secretaria Municipal de Saúde de Indaiatuba informou que determinou a abertura imediata de sindicância interna no hospital e solicitou o encaminhamento do caso aos Comitês de Óbito Materno e Hospitalar, conforme os protocolos de vigilância em saúde. A pasta requisitou ainda toda a documentação clínica e técnica do atendimento, afirmando que acompanhará o caso no âmbito da fiscalização dos serviços prestados pelo SUS.
Em nota, a Secretaria declarou solidariedade aos familiares e informou que monitora a evolução clínica do recém-nascido, internado em UTI neonatal, aguardando a conclusão das apurações para adoção das medidas cabíveis, nos termos da legislação vigente.
Em entrevista, o defensor da família, Caio Devecchi, ressaltou uma certa estranheza que, apesar da recomendação do obstetra pela cesariana, o médico optou pelo parto normal:
“Ele insistiu no parto normal, e a Bianca veio à morte. Fizemos um Boletim de Ocorrência e o delegado requereu uma necropsia. Queremos a solução e a responsabilização daqueles que provocaram essa tragédia. O CRM também foi acionado e o Ministério Público também será.”

Versão do hospital (nota na íntegra)
No momento da admissão, no dia 18 de janeiro, por volta das 10h, a paciente manifestou desejo de parto cesariano. No entanto, já se encontrava em franco trabalho de parto, com dilatação cervical de 4 cm, contrações eficazes e batimentos cardíacos fetais presentes e normais, em torno de 130 batimentos por minuto, indicando boa vitalidade fetal naquele momento.
Às 10h45, novo exame mostrou evolução rápida do trabalho de parto, com dilatação entre 6 e 7 cm, o que indicava progresso adequado e tornava o parto vaginal uma conduta viável e recomendada nessa situação, passando a cesariana a ser considerada apenas se surgissem intercorrências.
Às 11h15, a dilatação encontrava-se em 9 cm, praticamente completa, quando foi identificada bradicardia fetal sustentada, sinal de sofrimento fetal agudo. Diante dessa situação, o médico obstetra informou a paciente e seu acompanhante sobre o quadro clínico e explicou que, naquele momento, a via vaginal representava a forma mais rápida e segura de nascimento. Com o objetivo de abreviar o nascimento e reduzir o sofrimento fetal, foi realizada a aplicação de fórceps, procedimento previsto e indicado em situações específicas de emergência obstétrica.
O recém-nascido apresentou peso aproximado de 4 kg e nasceu com sinais de hipóxia, recebendo imediatamente assistência da equipe neonatal especializada.
Após o parto, a paciente evoluiu com sangramento vaginal intenso, associado à atonia uterina, condição em que o útero não consegue se contrair adequadamente após o nascimento, configurando uma das principais causas de hemorragia pós-parto.
Diante da gravidade do quadro, foi necessária intervenção cirúrgica de urgência, por meio de laparotomia, culminando em histerectomia, medida extrema, porém indicada para o controle do sangramento e preservação da vida materna. A paciente evoluiu com complicações graves, incluindo Coagulação Intravascular Disseminada (CIVD), condição reconhecida como potencialmente fatal e associada a hemorragias obstétricas severas.
Esclarecemos que o Dr. Gabriel Alvarenga é médico obstetra, com formação especializada e ampla experiência nesta unidade hospitalar, não havendo registros prévios de condutas inadequadas ou infrações éticas em sua atuação profissional.
Informamos ainda que a maternidade realiza, em média, 180 partos mensais, com histórico de nenhuma notificação de óbito materno no último ano. Nosso índice de óbito neonatal está abaixo da média do estado e também da média nacional. Os óbitos neonatais registrados decorrem, principalmente, de prematuridade e anomalias congênitas, com taxa de 7,09%, igualmente inferior à média nacional.
Todos os casos são analisados pelo Comitê de Mortalidade Infantil do município, o que demonstra o compromisso institucional com a qualidade e a segurança da assistência prestada.
Sobre o caso em questão, ressaltamos que a atonia uterina é uma complicação obstétrica conhecida, imprevisível em muitos casos, podendo ocorrer tanto em partos vaginais quanto cesarianos, mesmo na ausência de fatores de risco aparentes, sendo amplamente descrita na literatura médica como uma das principais emergências obstétricas.
O parto evoluiu de forma rápida e previsível desde a admissão até a dilatação completa, motivo pelo qual foi mantida a condução por via vaginal, em consonância com os protocolos assistenciais vigentes. A admissão ocorreu às 10h, com parto efetivo às 13h45, caracterizando um período expulsivo relativamente curto, com dilatação total.
Por fim, informamos que a Diretoria do Hospital instaurou uma sindicância interna, cujos resultados serão encaminhados à Comissão de Ética Médica do Hospital e, posteriormente, ao Conselho Regional de Medicina, órgão legalmente competente para a avaliação da conduta profissional.