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Desinformação antivacina se organiza e ameaça saúde pública

Estudo da Unicamp revela como fake news influenciam a queda da vacinação, impulsionam o risco de doenças como o sarampo e desafiam ciência, comunicação e justiça
CAPA MATERIA (3)

A desinformação antivacina, frequentemente tratada como um fenômeno recente impulsionado pelas redes sociais, revela-se, à luz de evidências científicas e históricas, como um sistema complexo, estruturado e profundamente enraizado na sociedade. Essa constatação ganha força com o estudo conduzido pela Universidade Estadual de Campinas, que analisou aproximadamente quatro milhões de mensagens compartilhadas no Telegram entre 2020 e 2025, identificando padrões consistentes de discurso, estratégias narrativas sofisticadas e indícios claros de organização e coordenação entre grupos.

Mais do que mapear conteúdos falsos, a pesquisa — desenvolvida pelo laboratório Recod.ai — revela a existência de um verdadeiro ecossistema de desinformação. Trata-se de um ambiente dinâmico, altamente adaptável e sustentado por múltiplas dimensões: tecnológicas, sociais, políticas e econômicas. Com base em mais de 5,5 terabytes de dados — incluindo textos, vídeos, áudios, imagens e enquetes — os pesquisadores conseguiram não apenas identificar o conteúdo disseminado, mas compreender a lógica de funcionamento dessas redes.

Segundo a professora Ana Carolina Monari, que integra o laboratório Recod.ai, “o objetivo não é apenas espalhar informações, mas construir narrativas que façam sentido para determinados grupos, utilizando linguagem emocional e explorando fragilidades cognitivas”. Já o pesquisador Leopoldo Lusquino Filho, que também integra o laboratório Recod.ai, destaca que a desinformação raramente é totalmente falsa: “Estamos lidando com um ambiente híbrido, onde informações reais são retiradas de contexto, reinterpretadas ou combinadas com dados falsos para induzir o erro”. Esse fenômeno — que envolve misinformation, disinformation e malinformation — cria uma zona cinzenta que dificulta a identificação do que é verdadeiro, ampliando o poder de convencimento dessas mensagens.

Além disso, o estudo identificou estruturas organizadas que funcionam como verdadeiros centros de produção e distribuição de conteúdo. Esses grupos operam com lógica semelhante à de veículos de comunicação, com curadoria, frequência elevada de postagens, segmentação de público e até sinais de automatização. Para o professor e pesquisador da área de comunicação da Unicamp, Rafael Evangelista, há também uma dimensão econômica clara: “Vivemos em um sistema em que a atenção é mercadoria. Conteúdos mais sensacionalistas geram mais engajamento e, consequentemente, mais valor econômico”. Em muitos casos, essa lógica se traduz na venda de produtos, cursos e até certificados falsos de vacinação, evidenciando que a desinformação também pode funcionar como modelo de negócio.

(Foto: reprodução/Jornal Unicamp)

Confira a pesquisa

Um fenômeno histórico: a repetição de argumentos ao longo dos séculos

Apesar da sofisticação tecnológica atual, a base narrativa da desinformação antivacina está longe de ser nova. Em análise publicada pela BBC, o jornalista e pesquisador David Robert Grimes demonstra que os principais argumentos contrários à vacinação já circulavam desde o século XVIII, logo após a criação da primeira vacina por Edward Jenner, em 1796.

Desde então, ideias como a suposta “falta de naturalidade” das vacinas, o medo de efeitos colaterais exagerados, a desconfiança em relação à ciência e a crença de que a vacinação seria uma estratégia de controle social vêm sendo repetidas com poucas variações ao longo de mais de dois séculos. “A desinformação em saúde não apenas persiste — ela se adapta, mantendo uma base narrativa extremamente estável”, aponta Grimes.

Esse padrão histórico se reflete de forma quase literal nos discursos atuais. Comentários disseminados em redes sociais — como a alegação de que vacinas causam mais mortes do que doenças, que existem interesses ocultos por trás da imunização ou que a vacinação representa uma ameaça à liberdade individual — reproduzem exatamente as mesmas falácias identificadas na era vitoriana. O que mudou não foi o conteúdo, mas a escala e a velocidade de disseminação, potencializadas pelo ambiente digital.

Pandemia de COVID-19: o catalisador da desinformação contemporânea

A pandemia de COVID-19 representou um ponto de inflexão decisivo nesse cenário. Ao mesmo tempo em que mobilizou a ciência global em tempo recorde para o desenvolvimento de vacinas, também criou um ambiente de incerteza, medo e excesso de informação — terreno fértil para a proliferação de conteúdos enganosos.

De acordo com a OMS, 23 milhões de crianças deixaram de receber vacinas básicas por meio de serviços de saúde de rotina em 2020, o maior número desde 2009 e 3,7 milhões a mais do que em 2019.

Segundo a infectologista Andréa Alves da Silva, “houve uma mudança significativa na percepção da população. O medo aumentou, a insegurança cresceu e a confiança nas instituições foi abalada”. Ela observa que, no consultório, esse impacto é evidente: “antes, as dúvidas eram pontuais; hoje, chegam estruturadas, baseadas em conteúdos repetidos e reforçados nas redes”.

A pesquisa da Unicamp confirma essa percepção ao apontar que o período da pandemia concentrou o maior volume e engajamento de conteúdos antivacina. Para Rafael Evangelista, “a pandemia funcionou como catalisador. Grupos que já existiam ganharam escala, visibilidade e capacidade de mobilização”. Narrativas conspiratórias, desconfiança institucional e questionamentos sobre a segurança das vacinas passaram a circular com intensidade inédita — e muitos desses discursos permanecem ativos até hoje.

O reflexo na realidade: o retorno do sarampo e o risco da queda vacinal

Os efeitos desse ecossistema já são observados de forma concreta na saúde pública. O registro recente de um caso de sarampo em uma bebê de seis meses, em São Paulo — infectada após viagem à Bolívia, país que enfrenta surto da doença — reacendeu o alerta para o risco de reintrodução do vírus no Brasil.

Embora o país ainda mantenha o certificado de eliminação, o cenário nas Américas é preocupante: mais de 7 mil casos foram registrados apenas nos primeiros meses de 2026, quase metade do total de 2025. Esse avanço ocorre em paralelo à queda na cobertura vacinal.

Dados recentes indicam que cerca de 92,5% das crianças receberam a primeira dose da vacina em 2025, mas apenas 77,9% completaram o esquema no prazo recomendado — índice abaixo dos 95% necessários para garantir a imunidade coletiva. “Quando a cobertura vacinal cai, doenças altamente contagiosas encontram espaço para voltar a circular”, alerta Andréa Alves da Silva. “E quem paga o preço são os mais vulneráveis, como bebês que ainda não podem ser vacinados”.

Os limites legais: o desafio de acompanhar a velocidade da desinformação

No campo jurídico, o enfrentamento da desinformação ainda esbarra em limitações estruturais. A advogada Maria Laura Feix Pilz Arnt explica que, embora não exista um crime específico para fake news antivacina, há possibilidade de enquadramento em diferentes tipos legais.

“Dependendo do caso, pode ser caracterizado como crime contra a saúde pública, estelionato ou até infrações coletivas. Mas o grande problema é que o sistema jurídico não acompanha a velocidade da informação”, afirma.

Segundo ela, o modelo atual — que depende de ordem judicial para remoção de conteúdo — é insuficiente diante da dinâmica digital. “Quando a decisão chega, o conteúdo já foi amplamente disseminado. Existe um descompasso estrutural entre tecnologia e legislação”, destaca. Para a especialista, o enfrentamento exige avanços em educação midiática, responsabilização das plataformas e estratégias preventivas.

Comunicação, emoção e confiança: o centro do problema

Se a estrutura garante a circulação da desinformação, são as emoções que sustentam seu engajamento. A pesquisa da Unicamp mostra que sentimentos como medo, ressentimento e sensação de exclusão social desempenham papel central na adesão a grupos antivacina.

Segundo Ana Carolina Monari, “as pessoas permanecem nesses ambientes não apenas pelo conteúdo, mas pelo senso de pertencimento. Existe acolhimento, identificação e validação emocional”. Esse fator transforma a desinformação em algo mais profundo do que um erro informacional — ela passa a ser parte da identidade do grupo.

Para Rafael Evangelista, isso impõe um desafio direto à comunicação: “a informação correta disputa espaço com conteúdos mais emocionais e sensacionalistas, que naturalmente engajam mais”. Nesse cenário, o jornalismo enfrenta um paradoxo: ao mesmo tempo em que combate a desinformação, pode acabar amplificando narrativas ao abordá-las.

(Foto: reprodução/internet)

Entre ciência e desinformação: um desafio coletivo

O consenso científico sobre a eficácia das vacinas é sólido: estima-se que mais de 154 milhões de vidas tenham sido salvas nos últimos 50 anos, além de sua contribuição decisiva para a redução da mortalidade infantil e a erradicação de doenças como a varíola.

Ainda assim, a persistência da desinformação demonstra que o desafio atual vai além da produção de conhecimento. Trata-se de um fenômeno estrutural, que envolve emoções, identidade, economia digital e disputas narrativas.

Especialistas são unânimes ao afirmar que o combate à desinformação exige uma abordagem integrada, que envolva ciência, comunicação, educação e políticas públicas. “O desafio não é apenas produzir informação de qualidade, mas garantir que ela chegue às pessoas com a mesma força das narrativas falsas”, apontam os pesquisadores.

Porque, no centro dessa disputa, não está apenas a informação.

Está a confiança.

E, uma vez abalada, ela é muito mais difícil de reconstruir do que de perder.


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Autor

  • Luana Gasparetto

    Jornalista e radialista, com experiência em produção de conteúdo multiplataforma, elaboração de pautas, entrevistas e cobertura jornalística, com foco em informação de interesse público, comunicação digital e jornalismo investigativo. É autora do livro-reportagem “Borboletas de Concreto: desvelando as marcas deixadas nos corpos de ex-detentas e suas metamorfoses” e pós-graduanda em Gestão de Rádio e Mídias Audiovisuais.

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