O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou o quarto mandato no Palácio do Planalto após uma virada histórica sobre Flávio Bolsonaro, com mais de 4 milhões de votos de vantagem. A festa da vitória, no entanto, dá lugar imediato a duras negociações políticas em Brasília. O presidente governará um país dividido. Ele terá de equilibrar as contas públicas após promessas de campanha e precisará dialogar com um Congresso Nacional dominado pela oposição conservadora.
Desafio fiscal e a meta de equilibrar as contas públicas
O quarto mandato de Lula começa sem folga no Orçamento. A dívida pública bruta do Brasil subiu para 82,9% do PIB em agosto, superando os 71,7% registrados no fim de 2022. O Planalto calcula que o endividamento alcance quase 90% até 2030. Já o mercado financeiro, por meio do boletim Focus, estima essa proporção em 95,1% no mesmo período.
O aperto orçamentário decorre em grande parte das medidas anunciadas em 2026 para assegurar a vitória nas urnas:
| Medida Anunciada | Custo Estimado / Impacto | Fonte / Período |
|---|---|---|
| Reajuste do Bolsa Família (15,04%) | R$ 23,4 bilhões por ano | Instituição Fiscal Independente (IFI) |
| Isenção do IR até R$ 5 mil | R$ 28 bilhões em renúncia fiscal | Previsão para 2026 |
| Perdão de dívidas dos MEIs | R$ 12,9 bilhões | Governo Federal |
| Gasolina com imposto zerado | Renúncia de tributos federais | Válido a partir de 2026 |
| Pé-de-Meia para universitários | Impacto em definição | Previsão para 2027 |
O custo total desse pacote varia entre as projeções. A Folha de S.Paulo estima R$ 290 bilhões, a IFI projeta R$ 298,4 bilhões e o Gastômetro do Estadão calcula R$ 405 bilhões. Conforme a IFI, essas ações podem elevar a dívida pública em 1,2 ponto percentual do PIB até o término de 2027.
Os ministérios da Fazenda e do Planejamento afirmam que nem todos os valores representam despesas inéditas. As pastas garantem o cumprimento das metas fiscais. Apesar disso, o orçamento de 2027 exigirá um corte de até R$ 39,9 bilhões.
A margem de manobra é reduzida, pois 90% dos gastos da União são obrigatórios. O Executivo administra diretamente apenas R$ 222,1 bilhões para investimentos e manutenção de serviços públicos. Aumentar impostos também é difícil, visto que a carga tributária alcançou o recorde de 32,4% do PIB em 2025.
Juros elevados e o termômetro do mercado
O setor público pagou R$ 1,182 trilhão em juros da dívida em 12 meses até agosto, somando 8,86% do PIB. Com a taxa Selic em 13,75% ao ano, o mercado aguarda a reunião do Copom no dia 4 de novembro para entender os rumos da economia.
O governo aposta no crescimento econômico para frear a relação dívida/PIB, embora analistas projetem expansão de apenas 1,32% em 2027. Ao mesmo tempo, o país conta com reservas internacionais sólidas e baixa dívida externa, fatores que afastam crises agudas de financiamento e garantem fôlego ao Planalto.
| Indicador Econômico | Dado Atual | Projeção Futura |
|---|---|---|
| Dívida Bruta (% do PIB) | 82,9% (agosto/2026) | 90% a 95,1% (até 2030) |
| Taxa Básica de Juros (Selic) | 13,75% ao ano | Decisão do Copom em novembro |
| Gasto anual com juros | R$ 1,182 trilhão (8,86% do PIB) | Sob pressão da política monetária |
| Crescimento do PIB para 2027 | Previsão de 1,32% | Aposta do governo para frear endividamento |
| Ajuste orçamentário necessário | Déficit de R$ 94,9 bi (jan-ago) | Corte de até R$ 39,9 bilhões em 2027 |
Oposição avança e impõe barreiras no Congresso Nacional
A sustentação política será o principal teste do governo. Partidos de direita como PL, PP e Republicanos elegeram quase 60% das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. A bancada do PL terá o maior contingente a partir de fevereiro, com 121 deputados federais.
O Parlamento teve a menor taxa de renovação desde a redemocratização e mantém postura independente. Entre 2023 e 2025, os parlamentares derrubaram quase metade dos vetos presidenciais em temas como marco temporal indígena e licenciamento ambiental. O Senado também barrou a ida de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Como o tribunal abrirá ao menos quatro vagas no próximo quadriênio, Lula precisará indicar nomes com trânsito amplo entre senadores conservadores.
Batalha pelas presidências da Câmara e do Senado
A escolha dos comandos do Legislativo em fevereiro revelará a força do novo governo:
- Câmara dos Deputados: Hugo Motta (Republicanos-PB) tenta a reeleição com o apoio de dez partidos, somando legendas de centro e a base de esquerda. A coalizão deve viabilizar a recondução, mas o deputado precisará dialogar com a bancada do PL.
- Senado Federal: Davi Alcolumbre (União-AP) enfrenta um ambiente mais difícil. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, descartou apoiar Alcolumbre e estuda lançar o senador Rogério Marinho (PL-RN) na disputa.
Nos bastidores, o governo atua para atrair partidos do Centrão que apoiaram Flávio Bolsonaro, recompondo alianças essenciais para a governabilidade.
| Casa Legislativa | Nome em Disputa | Situação e Alianças |
|---|---|---|
| Câmara dos Deputados | Hugo Motta (Republicanos-PB) | Busca recondução com apoio de 10 partidos e partidos de esquerda; negocia com a bancada do PL. |
| Senado Federal | Davi Alcolumbre (União-AP) | Tenta a reeleição sob forte oposição do PL, que articula lançar Rogério Marinho (PL-RN). |
Polarização, segurança pública e desgastes jurídicos
A divisão política permanece evidente no país. Flávio Bolsonaro rejeitou o resultado oficial da eleição, indicando que a oposição atuará de forma combativa.
Em resposta a essas pressões, o Planalto pretende dar prioridade à segurança pública, tema caro à oposição, além de debater mudanças no Poder Judiciário.
Na área jurídica, o governo monitora investigações da Polícia Federal sobre favorecimento de empresários em contratos públicos. A apuração cita Fábio Luís da Silva e envolve Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete da Presidência. O assunto ganhou força após a lobista Roberta Luchsinger sinalizar a intenção de fechar acordo de delação premiada.