Aos 24 anos, Carlos Daniel Santiago Ferreira, o Tubarão MC, é hoje um dos nomes mais respeitados do freestyle nacional. Morador de São Vicente, na Baixada Santista, ele representa a região na 9ª edição da Batalha da Aldeia (BDA), a maior competição do gênero no Brasil. O evento acontece neste sábado (26), em São Paulo, e reúne os 48 melhores MCs do país, selecionados pela performance e relevância na cena.
Tubarão chega para a disputa integrando o time COBRAS, ao lado dos MCs Martzin e Noventa. A formação é destaque na edição especial da BDA por unir talento, técnica e representatividade. Para além das batalhas, o artista também prepara novidades: lançou na sexta-feira (25) a faixa Não Deram Nada Pra Mim, parte da mixtape No Veneno, prevista para o segundo semestre de 2025.
Palcos, rimas, estúdios. Em entrevista ao VTV News, Tubarão MC conta que vive hoje o que sonha desde adolescente, mas a caminhada até aqui envolve dez anos de dedicação, centenas de batalhas e um esforço contínuo para dar visibilidade à sua região, que apesar de talentosa, ainda luta por espaço na cena do rap nacional.
O começo
A trajetória começou de forma despretensiosa, em 2015, quando Tubarão tinha apenas 14 anos. As primeiras rimas surgiram em rodas de amigos durante o intervalo da escola. “A gente se reunia e ficava na palma da mão rimando. Era mais funk do que rap naquela época”, lembra. O apelido também surgiu nessa fase – após perder um dente na aula de Educação Física, os colegas disseram que ele parecia um tubarão. Esse vulgo, claro, pegou.
No ano seguinte, participou da sua primeira batalha oficial, a Hip Hop Por Prazer, no bairro Boqueirão, em Praia Grande. A timidez quase o impediu de subir ao palco, mas um amigo inscreveu seu nome escondido. “Na primeira semana só assisti. Na segunda, me colocaram pra rimar de surpresa. Foi ali que tudo começou”, conta.
Mesmo com o talento evidente, Tubarão levou um tempo para enxergar o rap como um caminho profissional. Durante os primeiros anos, via tudo como hobby de fim de semana. A mudança veio com a repetição das vitórias e a percepção de que aquilo poderia levá-lo mais longe do que imaginava.
De um hobby, a carreira profissional
O primeiro passo mais sério foi dado em 2017, quando venceu a 100ª edição da Batalha da Conselheiro, em Santos. O prêmio era a gravação de uma música e, pela primeira vez, decidiu aproveitá-lo. Nascia Sentidos Parte I, seu primeiro som lançado. “Pensei: ‘não custa nada tentar’. E fiz”, lembra.
A partir dali, as batalhas se tornaram mais frequentes. Surgiram novas oportunidades, parcerias e eventos fora da região. Um dos momentos marcantes foi quando rimou com Salvador da Rima no estadual de 2019. Também considera como divisor de águas o duelo com Leozin, ainda em 2016, um dos seus ídolos na época.
Com o tempo, o MC foi colecionando títulos. É bicampeão da Batalha da Aldeia e venceu também a Batalha do Museu, em Brasília. Foi vice-campeão do Circuito Paulista de Batalha de MCs e já se apresentou em 11 estados diferentes. Em vídeos que viralizaram na internet, é conhecido pelos trocadilhos, fluidez e inteligência lírica.

Técnica e estudo
Mas como criar respostas tão rápidas em meio à pressão de uma plateia lotada? Tubarão explica: improvisar é como debater rimando. “A batalha é um diálogo rimado. Você responde o que o outro disse, só que com métrica, coerência e punchline [frase de impacto]”, detalha. Para isso, ele treina a linguagem diariamente (e evita aquela decorada, né?).
Segundo ele, a prática constante e o acúmulo de vivências são fundamentais. “A gente não estuda pra rimar. A gente rima o que vive. As referências vêm do dia a dia, do que leio, do que vejo, das notícias e da rua”, diz. Isso porque o treino está na construção das frases, na velocidade de raciocínio e no encaixe das palavras.
Além disso, o domínio da Língua Portuguesa ajuda. Desde a escola, era fã de redação e tinha facilidade com metáforas e figuras de linguagem. Com o tempo, passou a estudar antítese, trocadilhos e até batalhas internacionais – nelas, observa que vídeos de freestyle são divididos por temas, algo que utiliza como referência. Entenda a diferença a seguir com a letra de ‘Nada Pacífico (2021)’, colaboração entre Tubarão MC e Kant:
- Metáfora — É quando você fala que algo é outra coisa, só para dar peso na rima. “Cortando mandíbulas / Me sinto um samurai”
- Comparação — Usa “como” ou “parece” pra mostrar semelhança na hora. “Rimando igual Snoop Dogg / As cadela fica no cio”
- Antítese — Junta ideias contrárias para dar um contraste no verso. “Tente ser feliz como tudo / Quando nada te sobrai”
- Hipérbole — Exagero feito de propósito para dar impacto na linha. “Se o Faustão me ver rimando, fala: Ô p*rra meu”
- Trocadilho — Jogo de palavras com duplo sentido, para fazer rir ou pensar. “Faço uma rep fit pro seu pet shop / Não tenho dread Lock / Fiz um trap chique / Inimigo pede morte”
Representatividade
Tubarão conta que caminho não foi fácil, já que precisou lidar com os custos das viagens e a falta de visibilidade da Baixada Santista. “Tudo era por minha conta no começo. E muita gente talentosa da região fica de fora por falta de apoio”, afirma. Ainda assim, ele persistiu e virou referência para os novos MCs da área.
Hoje, ao ouvir de outros jovens frases que ele mesmo dizia aos ídolos anos atrás, Tubarão sente que o ciclo se completa. “Eu admirava muito quem estava no topo. Hoje, escuto as mesmas palavras que falava pra eles. Isso é gratificante”, revela.
Para ele, estar entre os 48 selecionados para a BDA 9 Anos é fruto de um trabalho contínuo. “Demorei sete anos de batalha pra chegar pela primeira vez nessa edição. A consistência é o segredo”, reforça. E acrescenta: “O psicológico tem que estar forte. Às vezes, as rimas tocam em feridas pessoais. É preciso estar preparado”.

Conquistas
Paralelamente às batalhas, Tubarão passou a se dedicar à música. Um dos pontos altos foi a parceria com o rapper Kant, no som Nada Pacífico (ouça a seguir), lançado com apoio da Batalha do Líbano e da Batalha013 em janeiro de 2021. O clipe da música acumula mais de 335 mil visualizações no YouTube.
Além do feat com Kant, Tubarão integrou o coletivo caiçara Labuta Hip Hop, com quem lançou É o RAP, é o funk. O grupo unia MCs da Baixada Santista para valorizar o território e expandir a produção autoral. Ele também trabalha em projetos solos e gravações inéditas que devem ser lançadas ainda este ano.
Em paralelo, Tubarão tem se mostrado cada vez mais presente em festivais, eventos culturais e ações sociais ligadas ao hip hop. A conexão com a comunidade e a valorização das raízes sempre estiveram entre suas prioridades. “É como passar o bastão nas olimpíadas. Hoje é minha vez de correr com ele”.
Impacto
Mesmo com todas as conquistas, Tubarão continua focado em evoluir. Seu objetivo é seguir representando a Baixada com orgulho, abrindo caminhos para outros MCs da região. “Eu não acho que sou o melhor. Mas sou esforçado. Corro atrás e quero que a cena daqui tenha mais espaço”, afirma.
Mesmo com tantos títulos, Tubarão valoriza mais o processo do que o pódio. “A batalha ensina muito, especialmente sobre resistência e equilíbrio emocional. Às vezes, pra ganhar, o adversário te ataca onde dói. E você precisa manter a postura, entender que é só um jogo”, reflete.
“Quando eu era moleque, falava coisas pros MCs que eu admirava. Agora, ouço o mesmo de quem me vê batalhar. É uma nostalgia boa. Significa que minha caminhada inspira”, diz com orgulho. E ele chega ao octógono confiante. A 9ª edição de aniversário da Batalha da Aldeia acontece hoje (26), às 15h, na Rua Juventus, 671, transmitida ao vivo pelo Podpah (assista a seguir).