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No detalhe: o que diz o relatório da PF que indiciou Bolsonaro?

O VTVNews separou os principais pontos do relatório contra Bolsonaro que foi apresentado pela PF ao Supremo Tribunal Federal.
Foto: Alan Santos/PR

A Polícia Federal informou nesta quarta-feira (20) ter indiciado ex-presidente Jair Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por tentativa de obstrução de Justiça no inquérito que investiga a tentativa de golpe de Estado. O relatório final foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) com a conclusão das diligências sobre a atuação dos dois no curso da Ação Penal nº 2668. O Ministro Alexandre de Moraes publicou um despacho ainda hoje pedindo esclarecimentos ao ex-presidente.

Além dos dois, o pastor Silas Malafaia foi alvo de mandado de busca e apreensão e teve o passaporte retido. Ele está proibido de deixar o país e de manter contato com outros investigados.

O VTVNews separou os principais pontos do relatório que foi apresentado pela PF ao Supremo Tribunal Federal. Esse é o quarto indiciamento contra o ex-presidente.

O que a Polícia Federal concluiu?

  • A Polícia Federal concluiu que Jair Bolsonaro e seu filho, Eduardo Bolsonaro, atuaram de forma orquestrada para pressionar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), promover uma campanha por anistia irrestrita e impedir o prosseguimento da ação penal que acusa o ex-presidente por tentativa de golpe de Estado.
  • Segundo o relatório, a ofensiva contou com o apoio de aliados internacionais ligados ao governo Donald Trump e resultou na imposição de uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros pelos Estados Unidos, anunciada oficialmente em 9 de julho de 2025.

Eduardo teve prévio conhecimento das sanções

  • Segundo o relatório final da PF, Eduardo Bolsonaro teve conhecimento prévio das sanções e celebrou a medida como uma vitória de sua articulação política no exterior.

  • No mesmo dia do anúncio da tarifa, Eduardo divulgou um vídeo no qual exigia anistia ampla para os investigados pelos atos golpistas e ameaçava novas consequências caso suas exigências não fossem atendidas. Jair Bolsonaro, por sua vez, endossou a manobra e admitiu em depoimento à PF ter transferido R$ 2 milhões ao filho enquanto este já atuava nos Estados Unidos para articular pressões contra autoridades brasileiras.

Sanções como instrumento de coação

  • As investigações revelam que Jair e Eduardo coordenaram publicações, vídeos e notas públicas com o objetivo de criar uma narrativa de perseguição política.

  • O relatório aponta que a dupla atuava em “unidade de desígnios” com figuras como Silas Malafaia, líder religioso que participou da difusão de conteúdos ameaçadores e orientava Jair em sua comunicação. Malafaia chegou a prever publicamente que ministros do STF e suas famílias seriam alvos de sanções, incitando o fim do processo judicial em troca de suposta “paz institucional”.

  • O envolvimento de atores estrangeiros foi considerado central pela PF. Entre eles, o advogado americano Martin de Luca, representante da Rumble e do grupo Trump Media, enviou a Jair peças judiciais em tempo real, fornecendo assessoramento direto sobre como se posicionar diante da imprensa e nas redes sociais.

Descumprimento de medidas judiciais

  • Mesmo após apreensão de seu primeiro celular em 18 de julho de 2025, Jair Bolsonaro seguiu operando canais clandestinos de comunicação.

  • Em 4 de agosto, a PF apreendeu um segundo aparelho, revelando que Jair continuava mobilizando aliados e incentivando a militância.

  • O relatório mostra que ele utilizou grupos e listas de transmissão no WhatsApp para burlar a ordem judicial que o proibia de uso direto ou indireto de redes sociais. A prática, segundo os peritos, evidencia “total desprezo ao caráter vinculante das decisões da Suprema Corte”.

  • Mensagens com Silas Malafaia mostram que Jair era pressionado a divulgar vídeos e manter a militância ativa, mesmo sob medidas restritivas. Em diversas conversas, o pastor o instigava a agir como “a voz” do movimento, orientando disparos de conteúdos e cobrando declarações públicas que reiterassem a pressão por anistia.

Movimentações financeiras ligadas às articulações

  • A análise de relatórios do COAF e de quebras de sigilo bancário demonstrou que Jair Bolsonaro transferiu, entre janeiro e julho de 2025, quantias fracionadas e em espécie para evitar rastreamento. A principal operação foi um PIX de R$ 2 milhões enviado a Eduardo em 13 de maio, valor que Eduardo imediatamente utilizou para remessas internacionais por meio do banco Wells Fargo.

  • Também foram identificadas transações para Michelle Bolsonaro e Heloísa Bolsonaro, sugerindo estratégia coordenada de blindagem patrimonial.

  • Segundo a PF, os repasses serviram para financiar as ações ilícitas de Eduardo nos Estados Unidos, incluindo a articulação com o governo Trump e a promoção de sanções econômicas como meio de coação.

Diálogos e planejamento estratégico

  • Mensagens interceptadas apontam que Jair teve acesso prévio a peças de defesa de outros réus da AP 2668, como o general Mário Fernandes, indicando o funcionamento contínuo da organização criminosa denunciada na Petição 12.100/DF. Também foi localizada minuta de um pedido de asilo político de Jair ao presidente argentino Javier Milei (leia aqui), redigida dias após a Operação Tempus Veritatis, revelando plano de evasão.

  • O relatório ainda cita a comunicação clandestina entre Jair e o general Braga Netto, proibida judicialmente, e diversas mensagens com conteúdo estratégico enviadas por Silas Malafaia. Entre elas, instruções para que Jair usasse o discurso de “liberdade” como barganha para suspender sanções dos EUA, além de ameaças veladas a ministros do Supremo.

Problemas familiares

Em mensagens trocadas em 16 de julho de 2025, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro alertou o pai, Jair Bolsonaro, sobre os riscos de conceder uma entrevista pública no momento em que avançava a articulação internacional para a aplicação da Lei Global Magnitsky contra o ministro do STF Alexandre de Moraes. Segundo Eduardo, a entrevista ao jornal Poder360 poderia “enterrar algumas ações”, caso contrariasse o alinhamento que ele vinha promovendo nos Estados Unidos.

  • As mensagens indicam que Eduardo tinha conhecimento prévio do possível avanço da sanção e demonstrava preocupação com as consequências políticas.

    • “Magnitsky no Moraes está muito muito próxima”, escreveu. No mesmo diálogo, Eduardo disse que uma fala fora do tom sobre os EUA poderia gerar novo inquérito contra Jair Bolsonaro. O ex-presidente respondeu que não aprofundaria “nada sobre sanções” e que se limitaria à “denúncia” — termo genérico utilizado na entrevista publicada naquele dia.

    • Ao final da conversa com o Poder360, Jair Bolsonaro tentou minimizar tensões internas no grupo político e declarou apoio a Tarcísio de Freitas, após um embate entre o governador paulista e Eduardo: “Tá tudo pacificado. O Tarcísio continua sendo o meu irmão mais novo […] Nada de críticas pra ele. Se tiver, é por telefone, pessoal.”

A fala do ex-presidente repercutiu mal entre aliados e gerou nova reação de Eduardo, que demonstrou irritação com a exposição pública e a crítica velada à sua maturidade política: “E vai decretar o resto da minha vida nesta porra aqui”, escreveu o deputado, em referência aos impactos negativos das declarações sobre sua situação nos EUA.

  • Na tentativa de reverter o desgaste, Jair Bolsonaro enviou áudios — cujo conteúdo não foi recuperado —, seguidos de uma reportagem do jornal O Globo que o retratava como mediador entre o filho e Tarcísio.

  • O material mostrava que Bolsonaro havia apoiado a iniciativa do governador de dialogar com Gabriel Escobar, encarregado de negócios da Embaixada dos EUA, para tratar de impasses comerciais.

  • A troca de mensagens incluiu ainda um comentário de Eduardo, insinuando que o pai teria agido com desdém: “Quero que você olhe para mim e enxergue o Temer. Você falaria isso do Temer?”, questionou. Jair respondeu dizendo que resolveria a situação “agora na CNN”. O filho retrucou: “Ou não fale nada. Me deixa de lado.”

A sequência de interações evidencia o receio de Eduardo sobre como sua atuação política seria interpretada pelas autoridades norte-americanas. Após o envio das reportagens, ele compartilhou uma imagem, também não recuperada, com a seguinte frase: “Torce para a inteligência americana não levar isso aqui ao conhecimento do Trump.”

Enquadramentos e conclusão do relatório

A Polícia Federal concluiu que Jair e Eduardo Bolsonaro praticaram os crimes de coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e atos tendentes à abolição violenta do Estado Democrático de Direito. As provas reunidas demonstram que os investigados agiram com intenção deliberada de pressionar o Judiciário, enfraquecer a soberania nacional e evitar a responsabilização penal.

O relatório foi encaminhado ao STF, onde aguarda tramitação à Procuradoria-Geral da República, com recomendação de responsabilização penal dos envolvidos e sugestão de medidas cautelares adicionais diante da gravidade dos fatos. A PGR foi acionada por envolver o deputado federal licenciado, Eduardo Bolsonaro.


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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