Um novo desdobramento da Operação Carbono Oculto, que investiga o crime organizado no setor de combustíveis e jogos de azar foi deflagrada na manhã desta quinta-feira (25) pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) por meio da Operação Spare.
A Operação Spare tem como alvo um esquema de lavagem de dinheiro que, segundo a Receita Federal, movimentou cifras bilionárias entre 2020 e 2024, com o uso de postos de combustíveis, motéis, fintechs e empresas de fachada.
- Quem participou? — Coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO), a ação é realizada em conjunto com a Receita Federal, Secretaria da Fazenda, Procuradoria-Geral do Estado e Polícia Militar.
Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão: 19 na capital paulista e os demais em cidades da Região Metropolitana e do interior, como Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco.
Participaram da operação 64 servidores da Receita, 28 membros do Ministério Público e cerca de 100 policiais militares.

Esquema foi identificado após apreensão de maquininhas
As apurações começaram após a apreensão de máquinas de cartão em casas de jogos ilegais em Santos, ligadas a postos de combustíveis. A análise dos fluxos financeiros revelou a movimentação de recursos ilícitos por meio de uma fintech — já identificada em agosto durante a Operação Carbono Oculto — usada para mascarar a origem do dinheiro (relembre a operação).
- Escolha do nome:“Spare” remete à metáfora do boliche: após a primeira jogada — a Carbono Oculto —, a nova operação representa o segundo lance, visando concluir a queda de todos os “pinos” do esquema.
Esse mesmo sistema de ocultação, agora detalhado na Operação Spare, envolve Sociedades em Conta de Participação (SCPs), maquininhas e contas digitais. A movimentação financeira dos investigados envolveu ainda transações com imóveis e veículos de luxo, como um iate de 23 metros, dois helicópteros, um Lamborghini Urus e terrenos avaliados em mais de R$ 20 milhões. Segundo os investigadores, os bens bloqueados representam apenas 10% do patrimônio estimado dos envolvidos.
Postos e motéis como fachada
De acordo com a Receita Federal, o principal alvo da operação é responsável por uma rede de postos de combustíveis que, mesmo ativa, declarou apenas 0,1% de R$ 4,5 bilhões em tributos federais nos últimos quatro anos. O mesmo investigado está vinculado a 21 CNPJs ligados a 98 estabelecimentos de uma franquia, com R$ 1 bilhão movimentado no período — sendo que apenas R$ 550 milhões foram oficialmente faturados.
No ramo hoteleiro, mais de 60 motéis operavam em nome de terceiros, os chamados “laranjas”. Entre 2020 e 2024, essas unidades somaram R$ 450 milhões em movimentações, com R$ 45 milhões distribuídos em lucros e dividendos. Um dos estabelecimentos chegou a distribuir 64% da receita bruta declarada. Restaurantes que funcionavam nos motéis também integravam o circuito de lavagem.
Conexões com outras operações
As autoridades identificaram vínculos entre os investigados da Spare e alvos das operações Carbono Oculto e Rei do Crime, incluindo transações conjuntas, uso compartilhado de aeronaves e até viagens internacionais. Também foram detectadas fraudes em declarações do Imposto de Renda, com alterações que elevaram artificialmente o patrimônio declarado por membros da família do principal investigado em R$ 120 milhões.