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Nossa Senhora do Monte Serrat: conheça a história da padroeira que salvou a Vila de Santos

Tradição que reúne fiéis nas escadarias do morro carrega séculos de milagres, resistência e herança cultural; confira a programação religiosa
Dia de Nossa Senhora do Monte Serrat reúne centenas de pessoas

O dia 8 de setembro é marcado pela comemoração e devoção à Nossa Senhora do Monte Serrat. A santa transformou-se em sinônimo de fé para os moradores de Santos, no litoral de São Paulo.

A história do Monte Serrat atravessou o Oceano Atlântico e chegou ao Brasil carregada de significado para o cristianismo. Desse modo, é preciso entender como surgiu esse movimento de fé que, centenas de anos depois, se mantém vivo e leva centenas de fiéis às escadarias do morro.

Dia de Nossa Senhora do Monte Serrat reúne centenas de pessoas
Fotos: PMS

Devoção espanhola

O historiador e escritor Flávio Viana Barbosa explicou ao VTV News que a devoção à Nossa Senhora do Monte Serrat começou na Catalunha, na Espanha, associada à imagem de uma Virgem negra popularmente conhecida como La Morenita.

“Por volta de 880 d.C., durante as invasões islâmicas na Península Ibérica, a imagem foi escondida em uma caverna para protegê-la da destruição de templos cristãos. Acredita-se que os anos no confinamento e a ação do tempo tenham escurecido a madeira da peça”, explicou.

Dia de Nossa Senhora do Monte Serrat reúne centenas de pessoas
Dia de Nossa Senhora do Monte Serrat reúne centenas de pessoas
Foto: PMS

Com o fim da ocupação moura, a imagem foi reencontrada. Contam as crônicas que, ao tentarem transferi-la para outro local, a escultura tornava-se progressivamente mais pesada conforme se afastava da origem, levando o bispo local a mantê-la no monte — batizado de “Monte Serrat” em referência ao seu relevo íngreme e serrilhado.

O culto à santa ganhou força entre operários de uma fábrica de sedas em Barcelona e se espalhou pela Península Ibérica, alcançando Portugal.

Travessia para Portugal

A veneração chegou ao território português durante a consolidação dos reinos cristãos, na transição do Condado Portucalense para a formação do Reino de Portugal. Inspirados pela fé catalã, devotos ergueram uma capela em homenagem à santa em Sintra, no ano de 1540.

A estrutura original, porém, foi destruída em 1755, após um terremoto atingir Lisboa e devastar parte do país. No entanto, séculos antes do tremor, a devoção travada em solo lusitano já havia cruzado o Oceano Atlântico em direção a outros países, incluindo o Brasil.

Santos recebe a Santa com fé

O início da devoção no Brasil ocorreu durante a colonização. Após acordos entre Brás Cubas e Ana Pimentel para a fixação do povoado na região do Enguaguaçu (onde mais tarde nasceriam a vila e o Porto de Santos), os colonizadores portugueses identificaram uma marcante semelhança entre a topografia do morro local e o relevo de Sintra.

Quem foi Ana Pimentel

Nascida na Espanha em 1500, Ana Pimentel foi esposa de Martim Afonso de Souza e governou a Capitania de São Vicente por dez anos como procuradora-geral, atuando diretamente de Portugal, sem nunca ter vindo ao Brasil. Nesse período, tomou decisões marcantes, como a reabertura do trânsito entre o litoral e o planalto e a doação da sesmaria de Jurubatuba a Braz Cubas, a quem também nomeou representante da capitania. Ana Pimentel faleceu em 1571.

Por causa dessa semelhança geográfica, a elevação foi batizada de Monte Serrat e recebeu, no topo, uma capela dedicada à padroeira, no mesmo ponto onde a igreja permanece erguida.

Morro de Nossa Senhora do Monte Serrat
Morro de Nossa Senhora de Monte Serrat Foto: PMS

Com a chegada das primeiras imagens a partir de 1570, a devoção fincou raízes na colônia, embora ainda integrasse o quadro geral de santos católicos trazidos pelos pioneiros.

O milagre que salvou a Vila de Santos

A virada na relevância da santa ocorreu entre 1614 e 1615, quando a então Vila de Santos foi invadida por piratas holandeses. Os invasores ocuparam o porto, saquearam a vila e profanaram a igreja local. Em fuga desesperada, a população buscou refúgio no topo do morro, junto à Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat.

“A narrativa histórica e a fé popular registram que, no instante em que os últimos moradores alcançavam o cume, um grande deslizamento de terra atingiu a encosta, soterrando os invasores. A partir do episódio, a imagem foi aclamada como a protetora da cidade.”

Capela de de Nossa Senhora do Monte Serrat reúne centenas de pessoas no dia da padroeira
Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat

Degraus de Fé

Nossa Senhora do Monte Serrat foi oficializada como padroeira de Santos em 8 de setembro de 1955. A data marca a festividade em que a imagem desce o morro em procissão até a Igreja Matriz, na Praça José Bonifácio, retornando ao topo após as celebrações.

“Como expressão de devoção e penitência, foi construída a escadaria do Monte Serrat, com 415 degraus íngremes ladeados por oratórios da Via Sacra. O local é ponto de peregrinação para o cumprimento de promessas, subidas de joelhos e entrega de ex-votos, como velas, flores e imagens.”

Devoção à padroeira

A devoção à padroeira integra o patrimônio cultural do povo santista e caiçara, alinhando-se à identidade local moldada pela colonização e pela forte presença das colônias portuguesa e espanhola — representadas historicamente pelo Centro Português e pelo Centro Espanhol.

“A história da padroeira cruza-se também com a da Santa Casa de Misericórdia de Santos, a primeira das Américas e instituição que deu nome ao município. A terceira sede do hospital funcionava aos pés do morro, onde hoje se localiza o túnel do Canal 1, até que um deslizamento de terra afetou a estrutura e motivou sua transferência para o endereço atual, inaugurado por Getúlio Vargas. Hoje, o feriado de 8 de setembro renova a memória histórica, a fé e a tradição cultural de Santos.

Confira a programação religiosa:

Catedral de Santos

  • 7h: Santa Missa, presidida pelo padre Paulo Vitor;
  • 8h: Santa Missa, presidida pelo padre Renan Mascarenhas;
  • 10h: Santa Missa Campal, presidida por Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães
  • Após a celebração, a imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat será conduzida em procissão até o Paço Municipal, na Praça Mauá, no Centro. No local, será realizada a renovação da consagração da cidade à padroeira.

Santuário do Monte Serrat

  • 9h: Santa Missa, presidida pelo padre Francisco Greco, vigário da Catedral;
  • 16h: Santa Missa Campal, presidida por Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães;
  • 19h: Santa Missa Campal, presidida pelo padre José Paulo, seguida do encerramento das festividades.


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Autor

  • Beatriz Santos

    Jornalista formada pela Universidade Santa Cecília em 2024. Atua com produção de conteúdo, redação e assessoria de imprensa.

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