O relatório final sobre o acidente da Voepass, divulgado pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), apresentou conceitos da psicologia cognitiva para explicar como pilotos podem deixar de perceber alertas em situações de alta carga de trabalho.
O documento foi divulgado em julho de 2026 e faz parte da investigação da queda do ATR 72-500 ocorrida em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, durante a apuração dos fatores que contribuíram para a tragédia.
O que significam cegueira e surdez por desatenção
O relatório cita dois fenômenos conhecidos como cegueira por desatenção (inattentional blindness) e surdez por desatenção (inattentional deafness).
Segundo o Cenipa, esses mecanismos ajudam a compreender como uma pessoa pode deixar de interpretar informações importantes quando várias tarefas exigem atenção ao mesmo tempo.
O órgão destaca que esses fenômenos não foram apontados como causa direta do acidente, mas como elementos que contribuíram para entender o comportamento observado na cabine.
Esses conceitos não representam negligência ou falta de preparo. O cérebro possui limites naturais para processar muitas informações simultaneamente.
Como a carga de trabalho afeta a atenção dos pilotos
Durante a fase final do voo, os investigadores identificaram que a tripulação precisava administrar diferentes atividades ao mesmo tempo.
Entre elas estavam o gerenciamento do acúmulo de gelo, procedimentos operacionais, comunicações com o controle de tráfego aéreo e outras decisões relacionadas ao voo.
Nesse cenário, o cérebro tende a priorizar determinadas informações. Como consequência, alguns estímulos visuais ou sonoros podem deixar de ser interpretados conscientemente, mesmo estando presentes.
O relatório informa que alguns alertas emitidos pela aeronave não foram discutidos pelos pilotos nas gravações da cabine durante aquele momento de elevada carga cognitiva.
O que é cegueira por desatenção
A cegueira por desatenção acontece quando uma pessoa olha para uma informação, mas não consegue processá-la conscientemente porque sua atenção está concentrada em outra tarefa.
Isso significa que um alerta visual pode aparecer diante do piloto sem que seu significado seja percebido naquele instante.
Pesquisas sobre atenção e percepção mostram que esse comportamento faz parte do funcionamento normal do cérebro humano em ambientes complexos.
A visão funciona, mas o cérebro prioriza
O fenômeno não está relacionado a problemas de visão.
Os olhos captam a informação normalmente. No entanto, o cérebro direciona seus recursos para aquilo que considera mais importante naquele momento.
Como funciona a surdez por desatenção
A surdez por desatenção segue o mesmo princípio, mas envolve estímulos sonoros.
Os sons chegam normalmente aos ouvidos, porém podem deixar de receber atenção suficiente para serem interpretados.
Em uma cabine de comando existem diversos estímulos simultâneos, como comunicações por rádio, alarmes eletrônicos, ruídos dos motores e conversas operacionais.
O treinamento reduz riscos, mas não elimina limites humanos
Especialistas afirmam que pilotos experientes também estão sujeitos às limitações naturais da atenção.
Treinamentos ajudam a reduzir riscos, mas não impedem totalmente que a elevada carga cognitiva afete a percepção durante situações críticas.
O que o Cenipa identificou após o acidente da Voepass
A investigação incluiu análise das caixas-pretas, exames nos motores, avaliação dos sistemas de degelo, reconstrução completa do voo, testes em simuladores e estudo de milhares de voos da mesma frota.
O relatório também apontou recomendações para aumentar a segurança operacional.
Entre elas está a atualização do sistema de monitoramento da fabricante ATR, incluindo mudanças para ampliar o tempo de exibição de alertas no painel e reduzir a possibilidade de que mensagens importantes passem despercebidas.
O relatório completo está disponível no portal oficial do Cenipa. As recomendações reforçam que a prevenção de acidentes depende da combinação entre treinamento, tecnologia, procedimentos operacionais e melhoria contínua dos sistemas de segurança.
A investigação também apresenta recomendações para operadores, fabricantes e órgãos reguladores, com o objetivo de reduzir riscos em futuras operações aéreas.