A primeira semana da COP30 termina com o que já se esperava, seja pelos poucos avanços e muitos impasses ou pelo acúmulo incômodo de frustrações nos bastidores diplomáticos, resultando em um vexame a nível internacional.
Com isso, as negociações seguem ancoradas no mesmo dilema que emperra a governança climática há mais de uma década. Para o governo federal, o evento parece somente um motivo de festa, de comemorar, de “transformar Belém no centro do mundo”, para no ano que vem fazer campanha. Debates sobre saneamento, segurança e desenvolvimento humano, são “pautas para depois”.
Dentre diversas vergonhas internacionais, se destacam a “passeata dos bichos”, com pessoas fantasiadas de animais cruzando os corredores da COP e a postura do governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), em interromper a fala do presidente da França, Emmanuel Macron, durante a abertura do Festival “Nosso Futuro Brasil-França”, no MAM-BA. Apesar dessa cena ter sido semanas atrás, a postura brasileira de inconveniência e incredibilidade, da risível postura do “somos brazuca mesmo, tamo em casa” somam-se às impressões internacionais da COP, pois, no fim, a política dos engravatados se esquece que as microdinâmicas sociais são diferente da realidade política governamental, e isso coloca o povo brasileiro às margens dos olhares obscenos dos povos do mundo, e não o governo.
Sobre a COP, os discursos públicos mantêm a liturgia do compromisso coletivo, mas nos bastidores os relatos são outros. Delegações da África, da América Latina e do sudeste asiático circulam com um só recado: as promessas históricas de financiamento climático feitas pelas economias desenvolvidas não se materializaram, e os novos compromissos exigidos — sobretudo em mitigação, dados de inventário e metas mais ambiciosas — e não é para menos. Os países desenvolvidos não devem financiar governos sem planos concretos, com falta de transparência e qualidade administrativa de Estado questionáveis.
Os países mais vulneráveis não estão dispostos a repetir a coreografia de sempre, de assinar compromissos que não podem cumprir porque os fundos prometidos não chegam, e eis o impasse. Governos pouco confiáveis não dialogam com governos ricos. Enquanto isso, o debate que deveria ser sobre o clima e mudanças climáticas torna-se mais uma feira de negócios, bem diferente de outras COP. Nesse cenário, o Brasil tenta ocupar o espaço de mediador. A presidência brasileira da COP se movimenta para manter as pontes minimamente operantes entre os blocos, organizando conversas bilaterais, costurando minutas intermediárias e, quando possível, isolando tensões mais inflamadas.
Ser o país-sede de uma COP mal sucedida, ainda mais no contexto simbólico da Amazônia, é um ônus político considerável para um governo que tenta se projetar como liderança ambiental em um mundo cada vez mais cético com promessas verdes de palanque. No entanto, internamente, o governo já precisa lidar com o desgaste provocado pelas críticas da própria ONU à organização da conferência.

Na quinta-feira, uma carta enviada pela entidade ao ministro Rui Costa, ao embaixador André Corrêa do Lago e ao governador Helder Barbalho expôs, com inusual franqueza, a insatisfação com a estrutura oferecida pelo Brasil. O estopim foi a invasão da Blue Zone por manifestantes, que burlaram o controle de acesso e interromperam sessões diplomáticas. Um erro operacional grave — e raro — que levou a ONU a exigir reforço imediato na segurança.
Mas o problema não é só esse. Desde o início do evento, delegações relatam problemas que vão de ausência de água nos banheiros à falta de climatização nos pavilhões, passando por falhas básicas de conectividade e organização. São falhas que destoam do padrão esperado para uma conferência deste porte — e que, no limite, também comprometem a credibilidade do país como anfitrião de uma agenda global sensível, marcada por pressões geopolíticas crescentes e um ceticismo estrutural quanto à efetividade das resoluções.
Essa desordem logística não é irrelevante. Num evento onde o simbolismo é parte da diplomacia, cada falha operacional vira argumento para incredibilidade. Para os países ricos, é pretexto para adiar compromissos financeiros. Para os países em desenvolvimento, é evidência de desigualdade estrutural. Para a opinião pública, é mais um sinal de que a COP talvez seja um evento que simboliza mais do que resolve. Do lado dos países desenvolvidos, cresce a pressão por mecanismos de compensação de carbono, regulação internacional do uso da terra e maior controle sobre os fluxos de financiamento climático. Do lado dos países do Sul, o discurso é pragmático no sentido de, antes de exigir novos compromissos, que se cumpram os antigos. Não há disposição para repetir 2009, quando o Fundo Verde do Clima foi anunciado com alarde em Copenhague e nunca passou de promessa parcial.
Ainda há tempo — e espaço — para que a presidência da COP consiga reverter o tom da primeira semana. Mas é preciso reconhecer o cenário real de que a conferência, até aqui, está travada e que Belém não é preparada nem adequada para atender um evento desse porte.