Toda efeméride deve ser comemorada, ainda mais quando essa efeméride celebra uma década vivendo Em Terras Lusas. Dito isso, nada mais justo e compreensível do que fazer um breve balanço de como Portugal mudou nesses dez anos.
Começo pela questão mais dolorosa: o câmbio. Quando cheguei, em 2015, a conversão da moeda era de R$ 3,50 para cada euro. Se a conversão já era expressiva, hoje a conversão assusta e é de R$ 6,60.
Não é preciso muito esforço para perceber que viver Em Terras Lusas tornou-se muito mais difícil para aqueles que continuam a trabalhar com o Brasil e a transferir seus rendimentos para cá.
Há dez anos, os serviços do Uber e do Uber Eats, por incrível que pareça, ainda não existiam por aqui. Foi somente em 2017 que esses serviços foram implementados e hoje, felizmente, estão espalhados por todas as cidades portuguesas.

Se em 2015, o número de imigrantes era de certa forma reduzido, os 1,5 milhão de imigrantes atuais propicia discussões acaloradas sobre o conceito da Portugalidade, a concessão de benefícios sociais a estrangeiros e a redução da oferta de trabalho.
Mas se há discórdia por um lado, o clima multinacional e cultural advindo com a chegada dos imigrantes trouxe um “ar cosmopolita” para o país, e muitos portugueses dizem que se sentem menos isolados da Europa, como se fosse possível estar fora dela. Estranho, mas bizarro.
O silêncio que tanto me chamou a atenção logo que cheguei continua praticamente inalterado, mesmo considerando que moro numa cidade de aproximadamente 300 mil habitantes.
Nesses dez anos, o crescimento do turismo revelou o melhor e o pior de um país que tem uma grande parcela de seu PIB atrelada exclusivamente à prestação de serviços.
Visando ganhar um rendimento extra e aproveitando a boa fase do turismo, muitos portugueses colocaram suas casas e apartamentos para locação, expulsando locatários dos centros comerciais e causando o fenômeno dagentrificação, que nada mais é do que a substituição de estabelecimentos locais por negócios voltados para turistas e a mudança de moradores para áreas mais baratas. Bom para uns, pior para os outros.

O turismo causa mais dissabores do que alegria para os locais, mas faz com que a economia cresça de forma pungente, principalmente se considerarmos o salário médio anual bruto, que beira os 1.900 euros mensais, um dos mais baixos da Europa.
Se há algo que sempre me causou uma excelente impressão foi a forma de se portar do povo português: um mix de retidão e compostura, independentemente do nível social que se esteja.
Mesmo na política, considerada terra de ninguém e onde tudo é permitido, esse “combo” era o porta-estandarte do modus operandi português, o que trazia uma certa sobriedade ao tema.
Mas a criação do partido CHEGA, liderado por André Ventura, em 2019, fez com que essa visão idílica ruísse como um castelo de areia. Mais interessado em fazer ruído, os impropérios e a linguagem chula de seu líder rebaixam a imagem sóbria e impoluta da maioria dos portugueses, infelizmente.
O tempo urge, as mudanças são inevitáveis e refletem o sinal dos tempos. Há dez anos, todos éramos diferentes, o mundo era diferente, mas se mudar é preciso, que seja pelos melhores motivos. Não?