As apostas esportivas online, conhecidas como bets, passaram a ser o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, superando o impacto dos juros e do crédito no orçamento doméstico.
A conclusão é de um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo (Ibevar), em parceria com a FIA Business School, que analisou a evolução das dívidas no país ao longo dos últimos anos.
Bets superam juros e crédito no endividamento
Para entender o avanço das dívidas, os pesquisadores avaliaram quatro fatores principais: o peso do crédito sobre a renda, o nível dos juros, o tempo de duração das dívidas e o impacto das apostas online.
O resultado mostrou que as bets passaram a ter o maior peso individual no endividamento das famílias. O índice associado às apostas atingiu 0,2255, superando com ampla margem o crédito sobre a renda, os juros ao consumidor e o tempo das dívidas.
Mesmo quando somados, os efeitos do crédito e dos juros permanecem abaixo do impacto das apostas, indicando uma mudança relevante na dinâmica financeira da população.
Mudança no comportamento financeiro das famílias
O estudo aponta que o crescimento das apostas provocou uma alteração no uso da renda. Recursos que antes eram destinados ao consumo ou à poupança passaram a ser direcionados para jogos de retorno incerto.
Os pesquisadores destacam que havia uma tendência de desaceleração no crescimento do endividamento no Brasil. Esse movimento, no entanto, perdeu força a partir de 2019, com a popularização das apostas esportivas após a legalização do setor em 2018.
Com isso, as bets passaram a atuar como um novo fator estrutural de pressão sobre o orçamento das famílias.
Famílias de baixa renda são as mais afetadas
O impacto das apostas é mais intenso entre as famílias financeiramente vulneráveis. Nesse grupo, os gastos com jogos comprometem uma parcela maior da renda mensal.
Como consequência, muitas dessas famílias acabam recorrendo a linhas de crédito mais caras, como cartão de crédito e cheque especial, o que eleva o risco de inadimplência.
Levantamentos indicam que cerca de 39,5 milhões de brasileiros participaram de apostas no último ano, e uma parcela significativa admite ter comprometido parte da renda com esse tipo de atividade.
Juros altos agravam cenário de endividamento
O avanço das apostas ocorre em um contexto já pressionado por juros elevados no país.
Dados do Banco Central mostram que milhões de brasileiros pagam taxas que podem chegar a 100% ao ano em modalidades como cartão de crédito e empréstimos não consignados.
A inadimplência também aumentou nos últimos 12 meses, passando de 5,6% para 6,9%. Já o comprometimento da renda com dívidas atingiu cerca de 29%, o maior nível já registrado.
Esse cenário amplia o impacto das apostas sobre o orçamento doméstico e dificulta a recuperação financeira das famílias.
Especialistas defendem controle e educação financeira
Diante do avanço das bets, especialistas defendem medidas para reduzir os impactos negativos, como a limitação da publicidade e o fortalecimento da regulação do setor.
A educação financeira também é apontada como fundamental para evitar o descontrole, com orientação para que os consumidores estabeleçam limites de gastos de acordo com a renda disponível.
Setor de apostas contesta resultados
Representantes das empresas de apostas que operam legalmente no Brasil contestam as conclusões do estudo.
O setor afirma que o principal responsável pelo endividamento das famílias ainda é o uso do cartão de crédito, segundo levantamentos nacionais.
As empresas também destacam que o mercado regulamentado segue normas específicas e não permite determinadas formas de pagamento, como o uso direto de crédito.
Mesmo com divergências, o estudo aponta que as apostas online deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento e passaram a ter impacto direto na economia das famílias brasileiras.
*Com informações da Agência Brasil*