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Nigeriano agredido por PMs em Campinas relata abordagem: ‘Foi muito difícil’

Homem em situação de rua afirma que não entendeu ordem dos policiais por não falar português
Jerry, imigrante nigeriano de 31 anos, que relatou agressões durante abordagem da Polícia Militar no Largo Santa Cruz, em Campinas.

O homem em situação de rua agredido por policiais militares durante uma abordagem no Largo Santa Cruz, no Cambuí, em Campinas, afirmou que não compreendeu parte das ordens dadas pelos agentes por não falar português. O imigrante nigeriano, identificado como Jerry, de 31 anos, relatou que a ação foi “muito difícil” e contou que chegou a ser arrastado pelos policiais antes de ser levado para a delegacia.

O caso ganhou repercussão após vídeos gravados por moradores mostrarem policiais desferindo socos e um chute na cabeça do homem já imobilizado. A Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM), acompanhado pela Corregedoria Geral da corporação, para investigar a conduta dos agentes.

Confira o vídeo na reportagem publicada pelo VTV News anteriormente

Imigrante diz que não compreendeu ordem dos policiais

Em entrevista à Band Campinas e ao g1, Jerry afirmou que vive no Brasil desde 2023 e se comunica apenas em inglês e francês. Segundo ele, a abordagem aconteceu enquanto descansava em um banco na praça.

O nigeriano contou que conseguiu entender a ordem para colocar as mãos na cabeça, já que havia passado por outras abordagens anteriormente. No entanto, disse que não compreendeu quando os policiais mandaram que se ajoelhasse.

De acordo com o relato, ao pedir que os agentes explicassem o que queriam, as agressões começaram.

“Ele falou comigo várias vezes. Estava agressivo. Eu pedi para ele se acalmar, porque eu ia me levantar. Quando me levantei, eles disseram para colocar as mãos para trás. Foi o que eu fiz. Eles começaram a me arrastar. Outros policiais chegaram e começaram a me puxar. Demoraram para me colocar dentro do ônibus, mas no final eu consegui entrar. Foi muito difícil”, afirmou.

Jerry também relatou que os agentes utilizaram gás e algemas para contê-lo. Após a abordagem, ele foi conduzido ao 1º Distrito Policial de Campinas, onde permaneceu por poucos minutos antes de ser liberado. A ocorrência foi registrada por resistência e desobediência.

Moradores afirmam que homem não causava problemas

Moradores da região ouvidos pela imprensa relataram que Jerry costuma permanecer na praça e que nunca havia causado transtornos no local.

As imagens que registraram a ação mostram pessoas pedindo calma aos policiais enquanto a abordagem acontecia. Em um dos vídeos, uma moradora conversa com os agentes durante a ocorrência.

Prefeitura acompanha caso desde março

A Prefeitura de Campinas informou que acompanha a situação do imigrante desde março por meio das redes municipais de Assistência Social e Saúde.

Segundo a administração municipal, equipes realizaram diversas abordagens e ofereceram acolhimento, atendimento de saúde, apoio para regularização de documentos e auxílio para contato com familiares. No entanto, Jerry teria recusado as alternativas apresentadas.

Após identificar a nacionalidade do homem, a Prefeitura acionou o Centro de Referência do Imigrante, Refugiado e Apátrida e conseguiu estabelecer contato com a mãe dele, que mora na Nigéria.

Em conversa mediada por tradutor, a mãe relatou que não tem condições de viajar ao Brasil e pediu que os serviços públicos continuassem acompanhando o filho.

Ainda conforme a administração municipal, Jerry chegou a ser encaminhado para atendimento psiquiátrico na UPA Carlos Lourenço em uma ocorrência anterior.

A Prefeitura ressaltou que a legislação brasileira não permite o acolhimento compulsório de pessoas em situação de rua, exceto em situações específicas previstas em lei e mediante avaliação técnica ou decisão judicial.

PM abriu investigação sobre a ação

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Polícia Militar não tolera excessos e que o comando do 8º Batalhão de Polícia Militar do Interior determinou a abertura de um Inquérito Policial Militar para apurar os fatos.

Segundo a corporação, as investigações incluem a análise dos vídeos divulgados e das imagens registradas pelas câmeras corporais dos policiais envolvidos. O procedimento é acompanhado pela Corregedoria Geral da PM.

Relembre o caso

Na tarde de quarta-feira (10), moradores do Cambuí filmaram a abordagem realizada por policiais militares no Largo Santa Cruz. As imagens mostram o homem imobilizado no chão enquanto recebe socos e um chute na cabeça.

Os vídeos repercutiram nas redes sociais e motivaram a abertura de uma investigação interna pela Polícia Militar.


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Autor

  • Luana Gasparetto

    Jornalista e radialista, com experiência em produção de conteúdo multiplataforma, elaboração de pautas, entrevistas e cobertura jornalística, com foco em informação de interesse público, comunicação digital e jornalismo investigativo. É autora do livro-reportagem “Borboletas de Concreto: desvelando as marcas deixadas nos corpos de ex-detentas e suas metamorfoses” e pós-graduanda em Gestão de Rádio e Mídias Audiovisuais.

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