Depois que o caso de ameaças de agressão e estupro tomou conta das redes sociais no litoral de São Paulo, a estudante alvo das mensagens se manifestou pela primeira vez. Em publicação nesta terça-feira (3), ela afirmou que “é difícil abrir as redes e dar de cara com postagens, comentários e opiniões” sobre o caso, que ganhou grande repercussão.
Como noticiado pelo VTV News, o então estudante de Educação Física Yuri Guilherme Andrade Cassano, de 20 anos, enviou mensagens em que ameaçava agredir, cegar, estuprar e arrancar o cabelo da jovem após se sentir rejeitado. Os dois haviam se conhecido cerca de duas semanas antes, em um evento de Carnaval, em Santos.
A vítima, que não será identificada, declarou estar cansada da exposição. “Parece que eu sou puxada de volta pra um momento que eu ainda estou processando no meu silêncio”, escreveu em uma publicação. Segundo ela, acompanhar os desdobramentos não é fácil, embora considere “necessário falar sobre” o assunto (veja acima).
O que aconteceu?
O repórter Pietro Falbuon, da VTV SBT, apurou que vítima e suspeito se conheceram no último dia 16. Eles trocaram contatos e passaram a conversar, mas, com o tempo, a jovem perdeu o interesse. O rapaz, porém, não aceitou o afastamento e começou a fazer comentários ofensivos sobre ela a amigos.
Em uma das mensagens, enviadas na quinta-feira (27) em um grupo com outros oito estudantes, ele afirmou que a estupraria caso ela não quisesse manter relação sexual. Também ameaçou puxar o cabelo da jovem “até arrancar os fios”, chutá-la em uma festa e deixá-la cega. As capturas de tela acabaram vazando nas redes sociais.
Após a repercussão negativa, Yuri disse a um amigo que estava brincando, embora tenha reconhecido ter cometido um “erro”. Ele gravou um vídeo pedindo desculpas e publicou nas redes sociais, antes de desativar o próprio perfil, afirmando que teve uma “atitude horrível” e que “nunca trataria alguém dessa forma”. O jovem foi desligado do quadro de alunos da universidade, em comum acordo, na tarde desta segunda-feira (2).

Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), o caso foi registrado como ameaça, injúria e violência doméstica, com inquérito instaurado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Santos. A vítima também solicitou ao Tribunal de Justiça (TJ-SP) uma medida protetiva de urgência contra o autor das ameaças.
Rejeição, poder e culpa
A psicóloga clínica Paula Carvalhaes, que não tem relação com o andamento do caso, analisou ao VTV News o comportamento do suspeito e da vítima após a repercussão. Segundo ela, o padrão descrito nas mensagens dele indica traços de perseguição e dificuldade de lidar com frustração. “É alguém que não aceita ser contrariado e transforma a rejeição em ataque”, afirmou.
Para a especialista, há indícios de comportamento controlador e abusivo, marcado pela necessidade de impor poder diante da negativa. Ela explica que, em situações assim, o agressor tende a transferir a culpa para a vítima. “Existe uma dificuldade em assumir a própria frustração”, pontuou.
Paula também destacou o impacto psicológico sobre a jovem. De acordo com ela, muitas mulheres são culturalmente ensinadas a se sentirem responsáveis pelo que acontece. “Desde a infância, aprendem a se perguntar onde erraram, mesmo quando são alvo de violência”, disse.
Responsabilidade social
A psicóloga ressalta que rejeição faz parte das dinâmicas afetivas e que saber lidar com o “não” é fundamental em qualquer relação. “Não se deve questionar o motivo da negativa como forma de pressionar. É preciso aceitar a frustração”, explicou. Para ela, insistir ou retaliar revela imaturidade emocional.
Sobre a vítima, Paula alerta para possíveis mecanismos de defesa, como tentar minimizar o ocorrido ou até tratar bem o agressor para evitar novos ataques. Ela compara a dinâmica a um ciclo de poder, em que o mais forte tenta se impor sobre o mais vulnerável. “A forma como alguém trata quem considera mais fraco revela muito sobre sua personalidade”, afirmou.
Por fim, a especialista defende que a responsabilidade de enfrentar o agressor não deve recair sobre a vítima. Segundo ela, o caminho adequado é institucional, com acionamento da polícia e do Judiciário. “A vítima nem sempre tem estrutura emocional para se defender sozinha. O papel da sociedade não é dar voz ao agressor, mas ouvir a vítima”, concluiu.
O que diz o suspeito?
O advogado Fábio Bosquetti da Silva Costa, responsável pela defesa de Yuri, informou que o jovem deixou a Baixada Santista após receber ameaças e que está “muito consternado” com as consequências do caso. Procurado pela reportagem, ele não se manifestou diretamente. A defesa, no entanto, encaminhou um posicionamento escrito pelo próprio estudante. Leia abaixo na íntegra:
“Escrevo esta nota como um ser humano que reconhece ter cometido um erro grave e profundamente infeliz.
Recentemente, mensagens de minha autoria em um grupo fechado de WhatsApp foram tornadas públicas. Gostaria de dizer, de forma clara e direta, que sinto muito. Peço sinceras desculpas a toda a sociedade e, em especial, à comunidade da cidade de Santos.
É importante registrar que já procurei a mulher diretamente afetada por minhas palavras para pedir perdão. Reconheço que o que foi escrito ali nada mais foi do que uma “brincadeira” de péssimo gosto, horrível e totalmente sem critérios. No entanto, tenho plena consciência de que o ambiente privado de um grupo não justifica, em hipótese alguma, o conteúdo do que foi dito. Palavras têm peso, têm impacto e podem ferir, independentemente da intenção original.
Lamento o ocorrido, estou sofrendo as consequências dos meus atos e peço que a indignação da sociedade não se reflita na minha família, que não é responsável por eles e repudiou de forma cabal a minha atitude.
Este é um momento de profunda reflexão e aprendizado pessoal. Assumo total responsabilidade pelos meus atos e estou comprometido em evoluir para que episódios como este jamais se repitam”.
Como denunciar casos de violência contra a mulher
- Disque 190 – Polícia Militar
- Disque 180 – Polícia Militar – Central de Atendimento à Mulher
- Disque 181 – Disk Denúncia
- Delegacias de Defesa da Mulher – https://www.spportodas.sp.gov.br/sp-por-todas/seguranca_mulher/delegacias_da_mulher
- Delegacia Eletrônica da Polícia Civil – delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp
- Atendimento presencial em delegacias da polícia e salas DDM Online – https://prefeitura.sp.gov.br/web/direitos_humanos/w/mulheres/rede_de_atendimento/2096