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Padre acusado de estuprar adolescente em Guarujá irá depor mais de 10 anos após denúncia

Hoje aos 28 anos, vítima comemora andamento do caso e relembra período de abusos
Padre acusado de estuprar adolescente em Guarujá irá depor mais de 10 anos após denúncia

Lucas Grudzien será ouvido pela Justiça mais de uma década após denunciar ter sido estuprado por um padre da paróquia que frequentava na adolescência, em Guarujá, na Baixada Santista. Segundo ele, os abusos ocorreram entre 2012 e 2013, quando tinha 15 anos. A decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), porém, foi tomada apenas neste mês.

Em entrevista ao VTV News, Lucas contou que, após cada episódio de abuso sexual, o padre o orientava a apagar todas as conversas que mantinham nas redes sociais. A situação só veio à tona quando o pai da vítima encontrou mensagens suspeitas no computador da família e procurou a polícia, o que levou ao registro de um boletim de ocorrência (BO).

O acórdão do TJ-SP determinou que tanto Lucas quanto o padre Edson Felipe Monteiro Gonzalez prestem depoimento, além de autorizar perícia psicológica para ambas as partes e ampliar o rol de testemunhas. Para a vítima, essas medidas são fundamentais para garantir uma investigação profunda da denúncia (posicionamento da defesa ao final do texto).

O texto a seguir contém relatos de abuso sexual e coerção psicológica, que podem ser perturbadores para algumas pessoas. A leitura é recomendada com cautela, especialmente para menores de idade ou pessoas sensíveis ao tema. Caso precise de apoio, procure o Disque 100 ou serviços especializados de acolhimento psicológico e jurídico.

Início da confiança e sinais de aproximação

Familiarizado com o ambiente sacerdotal e com o sonho de seguir uma carreira religiosa, Lucas se matriculou aos 12 anos em um curso de formação de coroinha no ano de 2009. Sua rotina entre casa, escola e igreja seguia tranquila até que um novo pároco, descrito como “mais jovem e moderno”, assumiu a liderança da Igreja Comunidade São João Batista.

A aproximação do padre começou quando ele foi convidado para trabalhar na casa paroquial organizando documentos, uma proposta que vinha de alguém próximo à família e que, portanto, gerou confiança nos pais de Lucas. O trabalho seria realizado de segunda a sexta-feira, das 13h às 18h, com uma remuneração mensal de R$ 450.

Com o passar do tempo, o padre teria passado a solicitar que Lucas permanecesse além do horário combinado, alegando “excesso de tarefas”, e chegou a justificar faltas às aulas diretamente à mãe do adolescente. Aos 14 anos, o jovem foi convidado a assistir a um filme sozinho com o sacerdote, momento em que ocorreram os primeiros contatos inapropriados.

O primeiro abuso

Semanas após o início do expediente, o padre teria convidado Lucas para assistir a um filme na sala da casa paroquial, depois que todos haviam ido embora. Para isso, o jovem precisaria faltar à escola, então o próprio padre ligou para a mãe do garoto, justificando a ausência pelo “excesso de trabalho” na paróquia.

O filme escolhido foi Resident Evil, ligado ao universo de zumbis. Depois de alguns minutos, o padre teria pedido que eles se sentassem próximos ao sofá onde estavam. Foi nesse momento que o sacerdote iniciaria o primeiro contato físico: colocou a mão sobre a barriga do adolescente, subiu a camiseta e tocou o peito do jovem, então com 14 anos.

Com o passar do tempo, os convites para permanecer após o expediente tornaram-se frequentes. Filmes e desenhos serviam de pretexto para os encontros, enquanto os toques evoluíam para atos sexuais dentro da casa paroquial. Segundo Lucas, o padre utilizava frases de coerção, como “isso fica entre nós” ou “Deus sabe” para criar um espaço de medo e silêncio.

Família descobre estupro após mudança de comportamento

Segundo a denúncia, o primeiro ato sexual ocorreu na sala paroquial. No dia seguinte, tomado pelo medo de que a família descobrisse, Lucas teria procurado o padre para conversar. O temor do garoto tinha fundamento: a cueca dele havia ficado manchada de sangue. Com o passar do tempo, os abusos passaram a refletir mudanças em seu comportamento.

Antes dócil e alegre, o menino tornou-se ríspido, suas notas caíram e começou a faltar às aulas. Os pais, preocupados, procuraram orientação justamente com o padre Felipe. Lucas relembra que, a partir desse período, o padre passou a pressionar Lucas, determinando que ele não pudesse se confessar com outro sacerdote.

Quase dois anos depois, os pais de Lucas tiveram acesso a uma conversa entre o filho e o padre pelo Messenger no computador de casa. As mensagens – nas quais o religioso se referia a Lucas como “viado” e exigia a exclusão de todo o conteúdo – levantaram suspeitas imediatas. Os prints foram divulgados com exclusividade pelo g1 na época (leia abaixo).

Imagens Fortes Atenção- VTV News
Padre acusado de estuprar adolescente em Guarujá irá depor mais de 10 anos após denúncia
Padre acusado de estuprar adolescente em Guarujá irá depor mais de 10 anos após denúncia
Padre acusado de estuprar adolescente em Guarujá irá depor mais de 10 anos após denúncia

Igreja inicia investigação após denúncia de abusos

Lucas fugiu de casa após ser descoberto e recebeu do padre R$ 100 para tomar a balsa até a casa de uma tia em uma cidade vizinha. Semanas depois, ele contou aos pais tudo o que havia vivido e, só então, iniciou o enfrentamento da situação. A família registrou boletim de ocorrência e apresentou denúncia ao Ministério Público para que o caso fosse investigado.

Diante do relato, a mãe de Lucas procurou o vigário-geral de Santos para relatar os abusos. Sentindo-se sem apoio, ela também enviou uma carta diretamente ao Vaticano. Pouco tempo depois, o bispo de Santos, Dom Tarcísio Sacaramussa, deu início a uma investigação prévia seguindo normas canônicas e determinou o afastamento cautelar do padre Felipe.

Toda a documentação da apuração foi enviada à Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, como parte do processo formal da Igreja. Paralelamente, o processo civil teve início em 2020. Após a 2ª Vara Cível da Comarca de Guarujá indeferir diversos pedidos da defesa, o caso chegou à 12ª Câmara do TJ-SP, que recentemente autorizou provas e depoimentos das partes.

TJ reforça produção de provas e ouvida das partes após anos de espera

A decisão do desembargador relator Antônio Mário de Castro Figliolia destacou a necessidade de uma instrução “particularmente minudente” diante da repercussão do caso. Além da oitiva das partes, o TJ exigiu a apresentação, em cinco dias, do processo canônico no qual o padre teria sido condenado internamente, sob pena de medidas judiciais.

Autorizar a perícia psicológica e ampliar o número de testemunhas foram medidas saudadas pela defesa de Lucas como mecanismos para que a Justiça examine não só a versão dos fatos, mas também os impactos psicológicos e a cadeia de responsabilidades, inclusive institucionais. Lucas afirmou à reportagem ter recebido a decisão “com alívio”.

“Foram muitos anos esperando que a Justiça reconhecesse a importância de esclarecer os fatos com profundidade. Essa nova decisão me dá esperança, porque determina que provas e depoimentos finalmente sejam apresentados. O processo foi um caminho difícil, e sigo acreditando que a transparência é fundamental para evitar que outras pessoas passem pelo mesmo que eu passei”, disse Lucas, que hoje tem 28 anos.

Acusação e defesa se manifestam sobre o caso

As advogadas de Lucas, Andressa Fraga e Dilene de Jesus Miranda, destacaram que o Tribunal vem corrigindo uma tramitação que corria “capenga”, ao forçar a produção de provas essenciais e elevar o escrutínio sobre a conduta institucional. Elas reforçam que os efeitos psicológicos sobre Lucas e sua família perduram há mais de uma década.

Já o advogado do padre, Milton Rabelo, afirmou que o processo tramita em segredo de justiça e que o agravo de instrumento, por um lapso, circulou sem sigilo. Ele ressaltou que “as provas deferidas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo não mudam e não atrapalham em nada a defesa”, pois já eram esperadas e haviam sido indeferidas pela primeira instância.

O VTV News apurou que, atualmente, o padre atua como Coordenador de Arquivo e Gestão no Centro de Memória e Pesquisa Histórica da Diocese de Santos. Sendo assim, a reportagem entrou em contato com a Mitra Diocesana, representante legal da Diocese, mas não obteve retorno. O espaço para manifestações continua aberto.

Informações apuradas junto ao TJ-SP e ao denunciante.


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  • Redação VTV

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