A Polícia Federal indiciou 16 pessoas pela queda do avião da Voepass que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em agosto de 2024. Segundo a investigação, o acidente ocorreu após uma sequência de falhas e omissões dentro da companhia, e não por causa de um único erro.
Entre os indiciados estão pilotos, mecânicos, despachantes de voo, gerentes e diretores. Além disso, a PF incluiu na investigação o fundador, acionista controlador e presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho.
Problemas no sistema de degelo
Segundo a Polícia Federal, a aeronave apresentava falhas recorrentes no sistema de degelo. O equipamento tem função essencial durante voos em condições de formação de gelo.
No dia do acidente, o voo seguia entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), trecho que apresentava previsão de formação severa de gelo. A investigação aponta que profissionais da empresa já conheciam os problemas no equipamento.
Entretanto, segundo a PF, funcionários deixaram de registrar algumas dessas falhas nos documentos obrigatórios de manutenção. Em outras situações, pilotos comunicaram os problemas verbalmente aos mecânicos, mas não fizeram os registros técnicos.
Assim, o avião continuou em operação mesmo diante de falhas que já haviam chamado a atenção de diferentes profissionais.
Falhas na manutenção
A investigação também apontou responsabilidades entre funcionários da área de manutenção.
O mecânico Alex de Souza Leandro assinou a liberação da aeronave na madrugada do acidente. Conforme o inquérito, ele recebeu informações sobre uma falha no sistema de degelo, mas não realizou os procedimentos necessários para investigar o problema.
Além disso, ele não registrou restrições que impedissem novos voos.
A PF também indiciou Juliano Flores Pacheco, gerente do Centro de Controle de Manutenção (MCC), Tiago Passucci Morani, inspetor-chefe e gerente de engenharia, e Carlos Alberto Costa, diretor de manutenção.
De acordo com os investigadores, esses profissionais tinham conhecimento dos problemas relacionados ao sistema de degelo e não adotaram medidas efetivas para corrigi-los.
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Despachantes liberaram voos com previsão de gelo
A PF também incluiu os despachantes operacionais de voo na cadeia de responsabilidades. Esses profissionais participam do planejamento das rotas e das condições de operação.
Segundo a investigação, os despachantes autorizaram voos em altitudes que apresentavam previsão de formação severa de gelo. O modelo da aeronave não tinha certificação para enfrentar essa condição.
Nesse grupo, a PF indiciou Oderlino de Campos Figueiredo, John Major Viana e Marcos Hiroyuki Sato, responsável pelo despacho do voo 2283.
Para os investigadores, os despachantes deixaram de cumprir uma função importante na segurança da operação.
Centro de Controle Operacional também entra na investigação
Além dos despachantes, a PF investigou integrantes do Centro de Controle Operacional (CCO), setor que acompanha e coordena os voos da companhia.
Segundo o delegado-chefe da PF em Campinas, André Almeida de Azevedo Ribeiro, o CCO tinha condições de acompanhar os riscos e interromper operações diante de situações consideradas perigosas.
Por isso, a corporação indiciou William Schmidt Agatz, gerente do CCO, e Raphael Limongi de Figueiredo, chefe do centro operacional e responsável pela interlocução com os pilotos.
Investigação aponta pressão para manter aviões voando
Outro ponto levantado pela PF envolve uma suposta cultura interna para evitar o registro de falhas técnicas. Segundo os investigadores, a prática teria como objetivo impedir a retirada de aeronaves de operação.
Nesse contexto, a corporação indiciou Rafael Gimenez Rodrigues, piloto-chefe. A investigação aponta que ele pressionava tripulações e contribuía para a manutenção dessa prática.
Além disso, a PF indiciou Marcel Sarquis Moura, diretor de Operações. Segundo o inquérito, ele já tinha conhecimento de ocorrências relacionadas aos problemas do sistema de degelo, mas não tomou medidas para evitar a repetição das situações.

PF chega ao alto escalão da Voepass
A investigação também alcançou diretores responsáveis por áreas estratégicas da companhia.
Entre eles estão David da Costa Faria Neto, diretor de Segurança Operacional, e Eric Consoli, diretor técnico. Segundo a PF, os dois tinham funções relacionadas à identificação e ao tratamento de riscos operacionais e problemas de manutenção.
Além disso, os investigadores apontaram responsabilidades para José Luiz Felício Filho, fundador, acionista controlador e presidente da Voepass.
Segundo a PF, Felício recebia notificações da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) sobre problemas e não conformidades da companhia. A corporação também destacou que ele tinha experiência como piloto e conhecimento técnico sobre as aeronaves.
PF aponta sequência de falhas antes da queda
Na conclusão do inquérito, a Polícia Federal afirma que diferentes barreiras de segurança falharam antes da tragédia.
Segundo os investigadores, a aeronave continuou voando apesar de problemas conhecidos. Além disso, a tripulação recebeu autorização para operar em uma rota com previsão de gelo severo, enquanto falhas no sistema de degelo continuavam sem correção.
A queda aconteceu em 9 de agosto de 2024, em Vinhedo, e matou as 62 pessoas que estavam a bordo.
Ao todo, a PF indiciou 16 funcionários, ex-funcionários e dirigentes da Voepass por crimes relacionados à segurança do transporte aéreo, sinistro aéreo com resultado morte e falsidade ideológica.
O que diz a Voepass
A Voepass afirma que sempre colocou a segurança operacional como prioridade. A empresa também declarou que segue os protocolos de segurança, manutenção e treinamento exigidos pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Além disso, a companhia informou que colaborou com as autoridades durante a investigação e forneceu documentos, registros operacionais e relatórios técnicos.
Por fim, a Voepass afirmou que o relatório da Polícia Federal ainda integra a fase investigatória e que, se necessário, exercerá seu direito de defesa nos próximos desdobramentos do caso.