O gerente de restaurante Murilo Luiz Santos, de 29 anos, afirma ter sido alvo de racismo em dois episódios em menos de 24 horas no litoral de São Paulo. Segundo ele, os casos ocorreram entre terça-feira (24) e quarta-feira (25), primeiro no trabalho e, horas depois, na orla da praia. As denúncias vêm repercutindo nas redes sociais.
Ao VTV News, Murilo contou que o primeiro caso aconteceu no shopping onde trabalha, em Santos. De acordo com ele, uma cliente teria se recusado a ser atendida por ele por ser negro, gerando constrangimento diante de funcionários e consumidores. O gerente afirma que a mulher, uma idosa, foi retirada do balcão após a situação.
“Eu tive um dia cheio no trabalho porque sofri racismo de uma senhora que se recusou a ser atendida por mim por eu ser negro. Fiquei chateado, mas decidi relevar”, relatou. Segundo ele, os funcionários ficaram em choque com a cena. Mesmo abalado, tentou manter a postura profissional e, após o expediente, “saiu para espairecer”.
Falas racistas
Na madrugada de terça para quarta-feira, Murilo estava na Praia do Itararé, em São Vicente, com dois colegas. Durante a conversa, ele relatava o episódio de discriminação sofrido no shopping. Foi nesse momento que um dos rapazes, após ouvir o desabafo, teria feito comentários racistas e novas ofensas ocorreram.
Murilo afirma que o suposto colega afirmou que “preto tem cheiro forte” e associou o suposto odor à melanina. No vídeo gravado, o jovem declara que sabe diferenciar “cheiro de branco e de preto”. Ele ainda diz que pessoas negras precisam usar mais creme e desodorante para disfarçar o que chamou de “cheiro de preto” (assista acima).
“Eu tinha acabado de falar de uma situação delicada e, logo depois, ele disse que preto fede”, afirmou Murilo. O jovem contou que começou a gravar ao ouvir as primeiras declarações, temendo não ser acreditado caso denunciasse sem provas. Segundo ele, o próprio autor continuou a filmagem. Murilo, então, decidiu ir embora.
Sem pedido de desculpas
Ainda naquela madrugada, o gerente publicou o vídeo nas redes sociais e foi dormir. No dia seguinte, encontrou centenas de curtidas, comentários e compartilhamentos de apoio diante da discriminação relatada. Murilo registrou boletim de ocorrência (BO) online e informou que pretende formalizar a denúncia presencialmente.
Segundo ele, o autor das declarações é conhecido na Baixada Santista e enviou mensagens após a repercussão, pedindo que o conteúdo fosse apagado (leia abaixo). De acordo com Murilo, o jovem alegou que não poderia ser racista porque se relaciona com um jovem negro. Apesar do contato, não teria recebido pedido de desculpas.

‘Coisa certa’
Murilo relata que, inicialmente, sentiu-se culpado pela dimensão que o caso tomou. “Vi que surgiu muita coisa, que ele podia ser preso, que houve ameaça pra ele e isso me incomodou, como se eu tivesse causando tudo aquilo. Mas hoje eu estou começando a entender que eu fiz a coisa certa”, afirmou à reportagem.
Até a última atualização desta reportagem, não havia posicionamento oficial do autor das falas, mas o espaço permanece aberto para manifestação e defesa. O caso, porém, será analisado pela Polícia Civil após a denúncia. Murilo ainda avalia os próximos passos, mas reforça: “Não quero que caia no esquecimento”, finalizou.