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ANÁLISE: Trump retoma a Doutrina Monroe ao ocupar a Venezuela para administrá-la

Resta saber se a queda — ou o afastamento — de Maduro produzirá estabilidade ou apenas abrirá mais um capítulo de instabilidade crônica na América Latina
Em meio a tensão com os EUA, Venezuela realiza exercício militar próximo ao caribe

2026 se inaugura com a geopolítica novamente no centro dos acontecimentos e com a confirmação de que os Estados Unidos, após meses de ameaças e flertes de invasão, decidiram agir de fato. Dentre muitas dúvidas que pairavam, uma delas não era se iria acontecer, mas quando e em que medida. O desfecho, convenhamos, ainda que abrupto, era questão de tempo.

A incursão militar na Venezuela, apresentada por Washington como parte de uma estratégia para coibir o narcotráfico no Caribe, encerra um ciclo de retórica prolongada de Trump —agora com parcimônia — mas inaugura outro, menos concreto nos seus interesses e instável institucionalmente para o regime ditatorial. Menos concreto, pois, apesar da fala de Trump sobre “estar perto agora do mercado petrolífero”, em termos de geopolítica, a análise dever ser muito mais do que é feito pelo governante do que é dito. Sejamos céticos quanto à isso.

Saiba para onde Maduro será levado após incursão dos EUA na Venezuela
Saiba para onde Maduro será levado após incursão dos EUA na Venezuela

Para entendermos o que aconteceu, vamos voltar à madrugada deste sábado, 3 de janeiro, quando o mundo foi surpreendido pela declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o líder venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa teriam sido capturados ainda na cama, e expulsos do país após uma série de ataques a instalações estratégicas em território venezuelano. Maduro foi levado pela famosa Delta Force, a tropa de elite dos EUA, ao navio militar que está a caminho de Nova York, onde sofrerá acusações graves de narcoterrorismo. Segundo o governo americano, a ação foi conduzida pela Agência Central de Inteligência e incluiu bombardeios aéreos e um ataque terrestre a uma grande instalação portuária supostamente utilizada para o escoamento de drogas.

Nada está claro. Não está claro se as incursões americanas se encerraram ou se representam apenas o primeiro movimento de uma operação mais ampla. Do outro lado, a oposição celebra. A líder opositora María Corina Machado afirmou que chegou a “hora da liberdade” e prometeu “colocar ordem” no país, sustentando que Maduro passaria a responder à justiça internacional por crimes cometidos contra venezuelanos e cidadãos estrangeiros. Apesar do tom triunfal, a postura contrasta com a incerteza real sobre a capacidade de transição política em um país marcado por instituições fragilizadas e forças armadas profundamente politizadas.


O pano de fundo militar que permitiu a operação ajuda a dimensionar a magnitude do movimento. O exercício militar e a força bruta chamaram a atenção. O Comando Sul dos Estados Unidos informou que cerca de 15 mil soldados estavam posicionados na região em dezembro, contingente descrito por Trump como uma “armada massiva”.

Em agosto de 2025, o presidente assinou de forma reservada uma diretiva autorizando o Pentágono a empregar força militar contra cartéis latino-americanos classificados como organizações terroristas. Desde então, segundo dados divulgados pelo próprio governo, ao menos 35 ataques letais foram realizados contra embarcações suspeitas de transportar narcóticos, resultando em mais de 100 mortos — números que levantaram questionamentos jurídicos e políticos sobre a legalidade das ações, uma vez que não houve autorização explícita do Congresso nem declaração formal de guerra à Venezuela.

O aumento do aparato militar incluiu intensa movimentação logística. Dados de rastreamento de voos analisados pelo The New York Times indicam que aeronaves de carga pesada C-17 realizaram pelo menos 16 voos para Porto Rico em uma única semana, partindo de bases no Novo México, Illinois, Vermont, Flórida, Arizona, Utah, Estado de Washington e até do Japão. O padrão sugere uma operação planejada com antecedência, desmontando qualquer narrativa de improviso ou resposta emergencial.

Nicolás Maduro está sendo levado para Nova York (Foto: Iago Y. Seo)

Sobre a repercussão global, em poucas horas a Colômbia, Cuba, União Europeia e o Brasil condenaram publicamente a ação, sinalizando que o episódio tende a irradiar efeitos diplomáticos imediatos pela região, embora incerto. Novamente, sejamos céticos.

O narcotráfico é, de fato, um problema estrutural que atravessa fronteiras, afeta os Estados Unidos, a América Latina e tem o Brasil como alvo recorrente. Na verdade, a operação não pegou analistas de surpresa. Há meses, especialistas em política internacional tratavam a intervenção como uma possibilidade concreta, quase previsível, dentro da escalada promovida por Washington. Nesta mesma coluna, em 20 de dezembro, refleti sobre a cronologia dos fatos como “um conflito eminente no Caribe.”

O interessante à ser colocado é que a cena que emerge de Caracas remete a um precedente histórico conhecido na geopolítica: a invasão americana do Panamá, no fim de 1989, que culminou na rendição de Manuel Noriega em 3 de janeiro de 1990, exatamente 36 anos atrás.


A pergunta que permanece, agora como então, não é apenas quem cai, mas quem permanece — sob quais condições o regime cessará ou se manterá, o que vai acontecer com esse vácuo de poder? A eventual prisão de Maduro não implica, automaticamente, a derrocada integral do regime. Outras figuras centrais do chavismo seguem em território venezuelano, entre elas o ministro do Interior, que já sinalizou disposição para resistir e manter a estrutura de poder em funcionamento. Ao mesmo tempo que isso acontece, a China realiza um exercício militar ao redor de Taiwan enquanto a Rússia contesta os EUA sobre os navios sancionados nos mares do Caribe.

Segundo Trump, os EUA irão administrar o país até uma “transição adequada” e que uma empresa de petróleo dos EUA irá “consertar a Venezuela”. A fala foi feita durante a coletiva de imprensa neste sábado. Novamente, muitas incertezas, especialmente sobre como o povo venezuelano lidará com esse flerte colonialista. Não sou um adepto aos pensamentos de José Martí, muito menos a Doutrina Monroe, que previa o aumento das colônias norte americanas na América no século XIX, mas devemos ter cautela acerca da desdém do nosso formidável vizinho, que pode ser o maior perigo para a América Latina caso não seja aderido suas correntes de interesses.

Essa ação de Trump abre brechas sem precedentes para a política internacional e territorial. O presidente americano sempre flertou com a dominância territorial e expansionista. Seja com ele “querendo comprar a Groelândia” ou em sinalizar a anexação do Canadá. Se o direito internacional for afugentado dessa forma pelos EUA, abrirá precedentes para a China realizar a mesma dominância em Taiwan ou a Rússia com a Ucrânia, e retomaremos anos obscuros de domínio de terras. Um colonialismo moderno.

Resta saber se a queda — ou o afastamento — de Maduro produzirá estabilidade ou apenas abrirá mais um capítulo de instabilidade crônica na América Latina. A história recente sugere cautela quanto à natureza dos fatos.


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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