Anotações e mensagens obtidas pela Polícia Federal no celular do coronel da reserva Flávio Peregrino, assessor do general Walter Braga Netto, apontam bastidores inéditos sobre as articulações golpistas que sucederam a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022. Segundo os registros, o ex-presidente “sempre teve a intenção” de continuar no governo, mesmo após o resultado das urnas. As informações foram noticiadas pelo Jornal Estado de S. Paulo
As informações constam em documentos internos redigidos por Peregrino, apreendidos em dezembro de 2023 durante operação da PF que também levou à prisão de Braga Netto. O conteúdo das anotações, agora revelado pelo Estadão, reforça a tese de que as ações dos militares foram orientadas para atender aos desejos do ex-presidente — tese oposta à apresentada pela própria defesa de Bolsonaro, que alega que os militares teriam tramado um “golpe dentro do golpe” para afastá-lo do poder.
“Tudo isso para achar uma solução e ajudar o presidente B a se manter no governo (pois SEMPRE foi a INTENÇÃO dele)”, escreveu Peregrino em um dos documentos.


Contradição à linha de defesa de Bolsonaro
O coronel, que ainda não foi denunciado pela PGR, rebate nos documentos a estratégia jurídica bolsonarista de transferir a responsabilidade aos militares. Ele afirma que as medidas tomadas pelos assessores do governo buscavam soluções “jurídicas e constitucionais”, como o uso de GLO, do artigo 142 da Constituição e dos instrumentos de Estado de Defesa e Estado de Sítio.
As anotações foram redigidas em 28 de novembro de 2024, pouco após a deflagração de uma operação que expôs planos de integrantes das Forças Especiais para assassinar autoridades como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do STF Alexandre de Moraes. A partir desse cenário, o coronel classificou como oportunista a tentativa da defesa de Bolsonaro de livrar o ex-presidente de qualquer responsabilidade.
“Estão colocando o projeto político dele acima das amizades e da lealdade que um Gen H [Heleno] sempre demonstrou ao B [Bolsonaro]”, anotou.

Militares erraram e foram “abandonados”
Peregrino também faz críticas aos próprios militares que cercavam Bolsonaro no fim do governo. Em trechos do documento, ele aponta que faltou coragem ao alto comando e à reserva para desmontar os acampamentos golpistas e convencer o presidente a abandonar qualquer “solução constitucional”. Segundo ele, Bolsonaro ficou isolado política e internacionalmente, e agora estaria “soltando a mão” de seus aliados para salvar seu projeto de poder.
“Deixar colocarem a culpa nos militares […] é uma falta total de gratidão do B àqueles poucos […] que não traíram ou abandonaram o presidente”, escreveu o coronel, que também apontou “desorientação” e “falta de coerência” nas decisões recentes da defesa de Bolsonaro.
Em mensagens enviadas a si próprio via WhatsApp, Peregrino ainda sugeriu que o ex-presidente buscava uma ordem de prisão para fortalecer o discurso de perseguição judicial. “Negação, embaixada, prisão…”, resumiu, ao comentar os passos da defesa. A anotação é de dezembro de 2024, nove meses antes da decretação de prisão domiciliar de Bolsonaro por Moraes.
Defesa nega intenção golpista
A defesa do coronel Flávio Peregrino classificou o vazamento das informações como “seletivo” e “fora de contexto”, alegando que as ideias expressas nos documentos foram redigidas no exercício da assessoria e no marco da liberdade de expressão. Para o advogado Luís Henrique Prata, o conteúdo não passa de uma tentativa de redirecionar o foco da apuração internacional sobre o processo eleitoral de 2022.
“Listavam linhas de pensamento e o principal ponto se calcava na lealdade dos militares na busca de soluções constitucionais naquele período”, afirmou.
Braga Netto e Bolsonaro não se manifestaram até a publicação desta reportagem. As investigações seguem em curso no Supremo Tribunal Federal.