A ministra Cármen Lúcia recebeu flores acompanhadas de uma carinhosa carta enviada por 12 coletivos de juízas de diferentes tribunais do Brasil.
O gesto ocorre após a magistrada declarar ter se sentido constrangida e pedir desculpas aos brasileiros durante a sessão que avalia a abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes.
O julgamento histórico, que analisa a possibilidade de abertura de investigação contra os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, ocorreu nesta segunda-feira (15).
A sessão, estendida da manhã até o início da noite, foi suspensa após o ministro Flávio Dino pedir vista. Ainda não há definição se a análise referente aos dois ministros ocorrerá de forma conjunta ou separada.
Apoio à única mulher no STF
Durante o julgamento, a única mulher a integrar a Corte ao lado de dez homens afirmou estar envergonhada e triste com a crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Em resposta, as juízas enviaram 12 buquês e um vaso de orquídeas. Na carta, a mensagem “A senhora não está sozinha” sintetiza o impacto do momento vivido pelo Supremo:
“Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras”, diz um trecho do documento.
Para além dos votos e dos debates da sessão, a carta expressa afeto não apenas à figura da ministra, mas à mulher por trás da toga.
Leia a carta completa
“Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha.
Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras.
Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si:
‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.’
Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher.
A mulher que existe antes da toga e para além dela. A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais.
A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza. A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado.
E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas.
A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil. E foi então que sentimos vontade de lhe responder. Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa.
Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais.
Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas.
Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente.
Ontem, a senhora nos levou a Clarice. E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver. Encontramos, em ‘A Paixão Segundo G.H’: ‘Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.’
Talvez estas flores sejam exatamente isso. Uma mão. Na verdade, muitas. Mãos de mulheres que também vestem toga. Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir.
Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa.
Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem.
Hoje, porém, não queremos lhe pedir força. A senhora já precisou ser forte muitas vezes. Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito.
Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais.
Pode simplesmente ser Cármen. A filha de Anésia e Florival. A menina de Minas.
A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover.
Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem. Não uma confissão de culpa. Humanidade. E foi a essa humanidade que quisemos responder.
Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava. A senhora, ministra, não precisa imaginar. Estamos aqui. Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão. E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão.
Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença. E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje.
Com carinho, respeito e gratidão.”
*Com informações do SBT News
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