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Morte de Tancredo Neves pode ter novos esclarecimentos após decisão judicial

Decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região permite que a família tenha acesso a prontuários e outros documentos da internação do ex-presidente; conteúdo ainda não foi divulgado

A Justiça Federal autorizou a família de Tancredo Neves a consultar documentos médicos sigilosos sobre a internação e a morte do ex-presidente, em 21 de abril de 1985. A decisão unânime do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) pode ajudar a esclarecer dúvidas sobre o tratamento recebido pelo político há mais de quatro décadas.

Entre os registros que a família busca estão prontuários médicos, a relação dos profissionais envolvidos no atendimento e outros documentos da internação. O Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) mantêm parte dessa documentação.

No entanto, as duas entidades informaram ao g1 que ainda não haviam recebido a notificação oficial da decisão. Por isso, o conteúdo dos registros continua desconhecido, e ainda não é possível afirmar quais questões a documentação poderá esclarecer.

Por que a família busca acesso aos documentos?

A família de Tancredo Neves quer consultar os registros para compreender melhor o tratamento médico e investigar suspeitas de possíveis falhas nos procedimentos adotados pela equipe de saúde.

A busca por respostas ganhou força em 2010, quando o escritor Luís Mir publicou o livro O paciente. Com autorização da família, o autor investigou o atendimento prestado ao então presidente eleito e levantou questionamentos sobre algumas condutas médicas.

Inicialmente, os familiares solicitaram os documentos aos conselhos de medicina. Entretanto, as entidades negaram o pedido com base no sigilo da relação entre médico e paciente. Diante da recusa, a família recorreu à Justiça, e o processo se estendeu por cerca de uma década.

Segundo a advogada Juliana Porcaro, representante da família, os registros também podem esclarecer uma advertência que os órgãos de fiscalização aplicaram a médicos envolvidos no tratamento.

Quais dúvidas cercam o tratamento de Tancredo Neves?

Os questionamentos levantados ao longo dos anos envolvem diferentes etapas do atendimento médico. Entre os principais pontos estão a decisão de realizar uma cirurgia de emergência, as condições do procedimento e os cuidados durante a recuperação.

No livro, Luís Mir também questionou a presença de mais de 30 acompanhantes na sala de cirurgia. De acordo com o relato, essa situação levanta dúvidas sobre o cumprimento dos protocolos de segurança.

Além disso, a família quer entender os motivos das advertências aplicadas aos médicos que participaram do atendimento. Os registros podem ajudar a identificar quais condutas os conselhos avaliaram e quais razões fundamentaram as medidas.

O autor também apontou possíveis falhas nos procedimentos de recuperação que, segundo sua análise, poderiam ter contribuído para as complicações clínicas.

Esses questionamentos, porém, não comprovam a ocorrência de erro médico. A consulta aos documentos poderá fornecer elementos para que a família compreenda melhor as decisões tomadas durante o tratamento.

O que aconteceu com Tancredo Neves em 1985?

Tancredo Neves venceu a eleição presidencial em janeiro de 1985, durante o processo de redemocratização que encerrou mais de duas décadas de regime militar. Ele se tornaria o primeiro presidente civil eleito após esse período, mas não chegou a tomar posse.

Em março daquele ano, na véspera da cerimônia de posse, Tancredo precisou de atendimento hospitalar em Brasília. Os médicos identificaram um quadro de diverticulite, inflamação que afeta estruturas do intestino grosso.

O político passou por cirurgias e enfrentou uma série de complicações de saúde. Posteriormente, a equipe médica o transferiu para o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, onde ele continuou o tratamento.

Após mais de um mês de internação, Tancredo morreu em 21 de abril de 1985. A morte provocou comoção nacional e alterou os rumos da transição política. Como vice-presidente eleito, José Sarney assumiu a Presidência da República.

Família quer esclarecer episódio histórico

Para os familiares, a consulta aos documentos representa mais do que uma busca por respostas pessoais. A iniciativa também envolve a memória política do país e as circunstâncias que marcaram o fim da vida do presidente eleito.

Juliana Porcaro afirma que os registros podem esclarecer por que os conselhos aplicaram advertências aos médicos e quais procedimentos motivaram as medidas.

A advogada também relatou uma conversa com José Sarney. Segundo ela, o ex-presidente manifestou preocupação com a situação vivida naquele período e compartilhou a percepção de que poderia ter ocorrido negligência no atendimento a Tancredo.

Ainda assim, a decisão judicial não confirma as suspeitas levantadas pela família e pelo autor do livro. Agora, o acesso aos registros poderá ajudar a esclarecer as circunstâncias do tratamento e os acontecimentos que marcaram as últimas semanas de vida de Tancredo Neves.


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Autor

  • Luana Gasparetto

    Jornalista e radialista, com experiência em produção de conteúdo multiplataforma, elaboração de pautas, entrevistas e cobertura jornalística, com foco em informação de interesse público, comunicação digital e jornalismo investigativo. É autora do livro-reportagem “Borboletas de Concreto: desvelando as marcas deixadas nos corpos de ex-detentas e suas metamorfoses” e pós-graduanda em Gestão de Rádio e Mídias Audiovisuais.

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