Indicação visual de conteúdo ao vivo no site
Indicação visual de conteúdo ao vivo

Opinião: a PEC da Blindagem é sintoma de outro problema — democracia limitada

O projeto é um produto de algo mais doloroso da realidade política do Brasil: nós não somos representados por aqueles que votamos, e há uma razão por trás.
Câmara se prepara para votar MP do IOF; Entenda!

Foi aprovado nesta semana a tenebrosa Proposta de Emenda à Constituição número 3, de 2021; batizada engenhosamente de “PEC da Blindagem”. Resumidamente cidadão, os deputados federais, senadores e até presidência estarão protegidos de prisões e processos no STF ou em outras instâncias. Um soco no estômago do pagador de imposto e do eleitor. Quer ficar mais triste? Para um parlamentar ser preso, ele precisa ser submetido à votação no Congresso, com direito ao voto secreto de seus pares.

O mais cômico disso é ver a suposta direita brasileira estar à frente da tribuna defendendo a medida. Segundo Nikolas Ferreira — o tal herdeiro de Bolsonaro do PL-MG — a PEC é para “proteger os deputados contra os abusos do STF” — O mais novo botão “e o PT?” da ala bolsonarista na Câmara.

O projeto é obviamente impopular, com o conhecimento do Centrão sobre isso. Não se trata de um projeto de teor ideológico, então não se pode “atiçar” as amalgamas da militância em prol ou contra a pauta, o que reforça por sua vez a alcunha do PL como um partido de Centrão de fato, e não oposição.

Câmara dos Deputados enquanto Motta discursa (Foto: reprodução)
Câmara dos Deputados enquanto Motta discursa (Foto: reprodução)

Mas, mais do que disputa ideológica, que eu adoraria debater aqui por acaso — e cujo tema espero desenvolver em uma dissertação de mestrado — o projeto é um produto de algo mais doloroso da realidade política do Brasil: nós não somos representados por aqueles que votamos, e há uma razão por trás.

Eu trato essa abordagem em meu livro A Teoria de Tudo Social: Democracia LTDA., e por isso deixo um recorte da obra abaixo, onde aborto a problemática da não-representação dos representantes eleitos:




…Em essência, a democracia direta é virtuosa e carrega a polifonia da liberdade individual e coletiva, bem como os direitos à participação, mas, que mesmo as vicissitudes culturais do período, limitavam à democracia à tirania dos “democratas virtuosos”.

Num contexto posterior, sob um prisma contemporâneo, esse modelo evoluiu para o que conhecemos como câmaras federais, estaduais, municipais, dentre outros. No entanto, ao invés de adotar uma participação direta da população, a sociedade passou a eleger representantes para atuarem em seus nomes, sem garantias concretas de que esses representantes cumpririam efetivamente suas obrigações e responderiam às demandas de seus eleitores. Além disso, surgia a incerteza de se a sociedade civil seria capaz de fiscalizar ativamente esses representantes e garantir que eles realmente cumpririam a vontade popular. A participação deliberativa da sociedade civil nas políticas públicas, apesar de desejável na teoria, na prática é banalizado.

As representações nas câmaras legislativas são limitadas pelas barreiras da comunicação e pelo acesso aos próprios representantes. Portanto, é possível argumentar que, na realidade, não se pode afirmar a existência de uma democracia genuína, a menos que se considere o processo de escolha dos representantes como a única etapa democrática.

Diante disso, surge a indagação: quais são as responsabilidades da sociedade em relação ao progresso coletivo, e cabe aos governantes garantir que a sociedade esteja preparada para isso? O progresso não é alcançado por meio de promessas populistas ou da concessão de garantias básicas que deveriam ser inerentes, mas sim por meio de ações que capacitam a sociedade a se autodesenvolver. Entregar o poder de tomada de decisões legais nas mãos de um grupo minoritário de “representantes” legitimados pelo contrato social não os isenta de responsabilidades que sangram na sociedade civil. A terceirização do poder de julgamento e governança pode abrir caminho para a perpetuação de uma oligarquia final ou até mesmo para a ascensão de modelos regimentares autoritários. 



Continua após a publicidade

Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

VEJA TAMBÉM

Mesa de votação com urna eletrônica exibindo a palavra “Fim” no visor, além de equipamentos de apoio, em cenário de preparação para as Eleições de 2026 e votação em outra cidade.

Você sabia que poderá votar em outra cidade nas Eleições de 2026? Saiba como

Alexandre de Moraes no plenário do STF, em foto de arquivo, sentado em cadeira de couro e usando toga preta com faixa azul durante sessão, com microfones ao fundo.

STF proíbe visitas políticas a Bolsonaro e nega encontro com Javier Milei

Polícia Federal monta operação para proteger candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026

PF mobiliza mais de 450 servidores para proteger presidenciáveis em 2026; entenda

Ministro Alexandre de Moraes assume a presidência do STF interinamente durante o recesso do Judiciário, em meio a desdobramentos de investigações eleitorais

Moraes marca depoimento de Flávio Bolsonaro à PF em ação por calúnia contra Lula

Gostaria de receber as informações da região no seu e-mail?

Preencha seus dados para receber toda sexta-feira de manhã o resumo de notícias.