Manhã de sábado, poucos dias após a virada do ano, e o mundo é surpreendido com a afirmação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o líder venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa foram capturados e expulsos do país após uma série de ataques a instalações estratégicas na Venezuela. Colômbia e Cuba já condenaram os ataques logo nas primeiras horas de hoje (3).
“Cuba denuncia e exige urgentemente a reação da comunidade internacional contra o ataque criminoso dos Estados Unidos na Venezuela. Nossa zona de paz sendo brutalmente agredida. Terrorismo de Estado contra o bravo povo venezuelano e contra Nossa América”, disse o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.
A ação militar era premeditada por analistas políticos e geopolíticos. A operação foi conduzida pela Agência Central de Inteligência (CIA) e incluiu bombardeios aéreos e um ataque terrestre a uma grande instalação portuária usada para o escoamento de drogas, segundo o governo americano.
O episódio representa uma nova fase da campanha dos EUA contra o tráfico internacional de entorpecentes, especialmente na América Latina, mas dessa vez inserindo a Venezuela no epicentro das ações de política externa de Washington. As consequências da ação ainda são uma incógnita, mas os fatores que o conseguiram são certos. Entenda abaixo a escalada.

Investida americana na América Latina
A investida americana no Caribe já havia mobilizado mais de 20% das tropas ativas, com porta-aviões, submarinos nucleares e drones em operação. Mais de 25 ataques foram realizados em águas internacionais nas últimas semanas, deixando ao menos 95 mortos, conforme apuração preliminar.
A justificativa oficial da Casa Branca é o combate aos cartéis de drogas que operam a partir da Venezuela. Contudo, diversos canais de imprensa com fontes diplomáticas e militares já sugeriam que o real objetivo da ofensiva fosse a deposição do regime de Maduro.
Os dois presidentes chegaram a manter diálogo telefônico nos meses anteriores, mas as negociações não avançaram. Trump teria rejeitado acordos que incluíam garantias de permanência no país ou exílio voluntário.
Escalada estratégica e bastidores da decisão
O foco na Venezuela se intensificou a partir de maio do ano passado, quando Trump se frustrou com impasses em negociações com a Chevron, uma das principais interessadas no petróleo venezuelano. O fator energético passou a ter peso central nas deliberações internas da Casa Branca, somando-se ao discurso de que Maduro seria um chefão do narcotráfico, tese defendida por aliados como o senador Marco Rubio e o conselheiro Stephen Miller.
A ordem secreta autorizando os ataques navais foi assinada em 25 de julho e, segundo interlocutores do governo, marca o início da chamada “Fase Um” da operação. A execução coube à SEAL Team Six, grupo de elite da Marinha. Uma “Fase Dois”, com ações em solo coordenadas pela Força Delta do Exército, chegou a ser discutida em reuniões de alto escalão, mas ainda não há confirmação sobre sua implementação.
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, limitou a participação de advogados militares na formulação da ordem de execução. Como resultado, documentos internos apresentaram lacunas, como a ausência de diretrizes sobre o tratamento de sobreviventes e prisioneiros de guerra, o que causou desconforto entre setores jurídicos das Forças Armadas.

Incógnitas sobre o futuro da Venezuela
Ainda não está clara qual será a condução americana no cenário pós-Maduro. O plano político para o país não foi divulgado. María Corina Machado, líder da oposição e vencedora do Prêmio Nobel da Paz, declarou apoio aos esforços de Washington e afirmou ter uma proposta de transição para a Venezuela, mas os detalhes permanecem sob sigilo.
Caso a campanha de intimidação não produza os efeitos desejados, há expectativa de que Trump recorra à Alien Enemies Act, legislação do século XVIII que permite deportações em massa durante conflitos.
Essa hipótese foi ventilada por Stephen Miller como estratégia para remover centenas de milhares de venezuelanos que perderam o status de proteção temporária nos EUA. Em tentativas anteriores, decisões judiciais bloquearam o uso do dispositivo legal para prisões e transferências sumárias.
E o Brasil diante disso?
Até a conclusão desta matéria, o Itamaraty não havia se posicionado oficialmente, mas o presidente Lula já sinalizava discordâncias, chegando afirmar que uma eventual intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela representaria uma catástrofe humanitária para o Hemisfério Sul e abriria precedentes perigosos no plano do direito internacional. A declaração foi feita durante discurso na Cúpula do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu (PR).
Segundo Lula, o cenário regional voltou a ser tensionado pela atuação de uma potência fora do continente. Em sua avaliação, décadas após a Guerra das Malvinas, a presença militar extrarregional reaparece como fator de instabilidade política e estratégica na América do Sul.
Em um dos trechos do pronunciamento, o presidente afirmou que “os limites do direito internacional estão sendo testados” e que uma ação armada na Venezuela produziria efeitos humanitários severos e duradouros.
