O Banco Master se tornou o centro do noticiário nesta terça-feira, 18, após a Polícia Federal deflagrar uma operação contra fraudes no sistema financeiro e, horas depois, o Banco Central determinar a liquidação extrajudicial da instituição.
A ação conjunta expõe uma sucessão de irregularidades, prisões de executivos e tentativas frustradas de venda do banco ao longo do ano, mas, mais do que isso, expõe as entranhas apodrecidas do “sistema”. Particularmente essa expressão já, o tal “sistema”, já não é o mais adequada para se referir a política brasileira clientelista e “centrônica“, pois a estrutura social age organicamente segundo as prerrogativas daqueles que moderam e julgam as leis. Brasília se tornou um organismo sociopolítico inescrupuloso, e o escândalo do Banco Master é apenas um pequeno vislumbre do tabuleiro tosco da política nacional.
Desde ligações esquisitas com ministros do STF, passando por políticos do Centrão, até empresários renomados, se tem algo que aprendi com a Operação Lava Jato e com o Banco do Estado, é que o mecanismo — ou de organismo, qual soar melhor — é composta, quase em sua maioria, por pelo menos: três empresário, dois políticos, um banqueiro e um doleiro. E nisso, quando um fala a República cai.
Os empresários nós temos. Os políticos? Também. O banqueiro…Bem, você sabe. O doleiro, podemos atribuir ao papel dos laranjas. A estrutura da corrupção nunca falha. Mas admito que esse entendimento talvez esteja ultrapassado, podendo ser acrescentado uma nova engrenagem: o judiciário.
A confiança do brasileiro nas instituições de Justiça tem passado por crises, seja às revelias envolvendo o STF e suas decisões monocráticas, ou, com a recente investigação envolvendo a venda de sentenças no STJ. A lisura do judiciário sendo posto a prova só demonstra que as instituições não são incorruptíveis, pois são formadas por seres humanos, estes sim, seres frágeis com interesses espúrios.
ANOTA AÍ, LEITOR: PODER = BUSCA POR OBJETIVOS
Se questionarem à você um dia “o poder corrompe o homem?”, responda: o poder é a busca por objetivos, e o que se deve compreender é, que o poder é uma ferramenta do, “sobre quem?” e “para fazer o que?”. Nesse sentido, dinheiro não é poder. A toga não é poder. A cadeira da presidência não é poder. Esses são poderes tangíveis, ferramentas para um objetivo.
O homem é corruptor de si mesmo, e em um país onde a moralidade é fútil, a lei controlada por imorais, estes por sua vez que pautam as regras das instituições, logo, transformam o Estado em algo intrinsicamente imoral — inclusive o judiciário.
Embora não seja o foco da coluna, aqui deixo uma breve avaliação sobre a importância da independência do Banco Central acerca do caso. A liquidação extrajudicial do banco foi feita de forma técnica, rápida e, talvez, sem interferência política, protegendo o sistema financeiro e priorizando a estabilidade do mercado em vez de interesses governamentais ou de grupos privados.
Entretanto, não pense que o BC agiu meramente por benevolência o necessidade de resposta. Lembra do que falamos sobre poder? A imagem pública do Banco Central também é uma forma de poder, e quem indica o presidente do BC? Pois bem, o presidente da república. As medidas do BC afetam a reputação de um ente político, principalmente pré-ano eleitoral, pois foi quem o escolheu.
O modus operandi político e institucional repete a mesma fórmula. Infelizmente o brasileiro não está preocupado com isso — e ano que vem, provavelmente, irá votar nos mesmos políticos que aparecem fazendo coisas estranhas para representá-los — mas aqui convido você leitor a entender um pouco desse escândalo, e como isso pode afetar a sua vida. A seguir, os principais pontos que explicam o caso.
1. Operação Compliance Zero
A PF iniciou a Operação Compliance Zero, que apura a emissão de títulos de crédito falsos por instituições do Sistema Financeiro Nacional. Resumidamente, o banco prometia altos lucros aos investidores, e não cumpria com a promessa.
Os investigadores apontam indícios de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa. Foram cumpridos cinco mandados de prisão preventiva, dois temporários e 25 de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal.
A Justiça também ordenou o bloqueio de R$ 12,2 bilhões em contas e a apreensão de carros de luxo, obras de arte e relógios. Entre os presos está Augusto Lima, ex-sócio e ex-CEO do Master, com quem a PF encontrou R$ 1,7 milhão em espécie. A operação ainda alcançou o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, afastado do cargo junto de três diretores.
2. Prisão de Daniel Vorcaro
O empresário Daniel Vorcaro, o principal personagem desse escândalo, era controlador do Master. Ele foi detido na noite de segunda-feira, 17, no Aeroporto de Guarulhos, quando embarcava para Dubai. Dados do BC indicam que, em março de 2025, o Master possuía R$ 86,4 bilhões em ativos, R$ 83,2 bilhões em passivos e patrimônio líquido de R$ 3,214 bilhões. Em 2024, o banco havia dobrado o lucro líquido, chegando a R$ 1 bilhão.
Conhecido no mercado financeiro pelo perfil arrojado e por investimentos de alto risco, Vorcaro comandava uma instituição que vinha atraindo recursos com CDBs oferecidos acima da média, prática vista com desconfiança pelo setor.
Sem entrar na tecnicidade dos termos, e de grossíssimo modo, CDB é um “empréstimo” que o investidor faz ao banco, para que possa ser emprestado à outras pessoas ou instituições. Isto é, o banco surge como um intermediador econômico, captando dinheiro de uns, emprestando para outros. Sabe aquele juros que você paga na hora de fechar o empréstimo? Pois bem, parte desses juros é repassado de volta ao investidor.
3. Defesa de Vorcaro
A defesa do executivo alegou que a viagem aos Emirados Árabes estava vinculada à negociação de venda da instituição. Segundo nota enviada à imprensa, “Vorcaro anunciou ontem a venda da instituição e tinha plano de voo a Dubai para se encontrar com os compradores”.
O texto afirma ainda que os advogados do empresário e do banco “se colocaram à disposição para cooperar com as autoridades”.
4. Tentativas de venda do Master
O Master buscou diferentes alternativas ao longo do ano para se desfazer dos ativos. O BRB chegou a aprovar a aquisição de 58% do capital total do banco, negócio autorizado pelo Cade, mas rejeitado pelo Banco Central em setembro.
A negativa teria ocorrido pelo risco de sucessão de passivos — possibilidade de o BRB herdar dívidas e ativos problemáticos não incluídos formalmente na operação. Na noite de segunda-feira, a Fictor Holding Financeira anunciou a compra do banco em parceria com um consórcio dos Emirados Árabes. Após a liquidação, o grupo suspendeu o negócio. Fontes em Brasília avaliam que o suposto interesse teria sido uma “cortina de fumaça” para ganhar tempo enquanto Vorcaro tentava deixar o país.
5. Liquidação pelo Banco Central
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master nesta terça. A medida, assinada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, torna indisponíveis os bens dos controladores e ex-administradores. A liquidação ocorre quando a instituição entra em insolvência irrecuperável ou comete infrações graves às normas do sistema financeiro. O processo retira o banco de forma organizada do mercado e autoriza o BC a exigir medidas de recuperação, aporte de capital ou transferência de controle.
6. Situação dos credores
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) confirmou que efetuará o pagamento das garantias após receber a base de dados do liquidante nomeado pelo BC. O procedimento segue o rito padrão de ressarcimento.
7. O que é o FGC
O processo de solicitação da garantia envolve as seguintes etapas:
- O liquidante envia ao FGC a lista de beneficiários e valores devidos;
- O prazo médio de consolidação é de cerca de 30 dias, variando por instituição;
- O aplicativo do FGC já está disponível para cadastro básico dos credores;
- Após o recebimento da base, o fundo libera o sistema para solicitação;
- Pessoas físicas utilizam o aplicativo; pessoas jurídicas realizam o processo pelo site;
- Após a conclusão do cadastro, o valor a receber é exibido e o termo é assinado digitalmente.
O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, com limite adicional de R$ 1 milhão por período de quatro anos, em caso de quebras múltiplas.
O caso segue em investigação pela Polícia Federal e sob supervisão do Banco Central, enquanto o mercado acompanha os desdobramentos sobre os ativos e passivos do banco.