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Análise: se começarmos 2026 descalços seremos mais céticos?

Erro de marketing ou estratégia intencional? Independente do que tenha sido, as consequências do caso Havaianas nos ensinam algumas lições
campanha havaianas fernanda torres

“Desculpa, mas eu não quero que você comece 2026 com o pé direito. Não é nada contra a sorte, mas vamos combinar, sorte não depende de você. Depende sorte. O que eu desejo é que você comece o ano novo com os dois pés. Os dois pés na porta, os dois pés na estrada, os dois pés na jaca, os dois pés onde você quiser! De corpo e alma, da cabeça aos pés. Havaianas, todo mundo usa.”

O que você interpreta ao ler, na íntegra, a sentença acima? Nada demais, certo? À primeira vista, soa como a transcrição de um roteiro simples, talvez fraco, sem densidade, elaborado por um estudante do primeiro ano de Publicidade e Propaganda. Sem nuances, sem demagogia — apenas uma frase simples.

Tudo muda, porém, quando se observa quem está falando. A asserção foi narrada por Fernanda Torres, atriz consagrada e vencedora do Oscar, mas também militante política ativa. A polêmica da semana gira em torno disso. Grupos bolsonaristas passaram a questionar a famosa empresa de calçados após a veiculação de uma peça publicitária estampada com o rosto de Fernanda Torres e a frase “para não começar 2026 com o pé direito”.

Primeiramente, eis o contexto que o Brasil está atualmente: ano eleitoral chegando, Bolsonaro recém preso, e a atriz participando de um ato contra a anistia nas ruas.



A pergunta inevitável é: o que exatamente o marketeiro pretendia alcançar ao conceber uma estrutura publicitária tão carregada de subtexto com uma figura pública que é ativamente política? Uma queda deliberada nas ações da empresa? Parlamentares de esquerda se apropriando da marca como símbolo político? A transformação da empresa em um ator ideológico explícito? Críticas do setor de direita do Brasil, fazendo propaganda contra a marca inclusive?

Se essa era a intenção, parabéns — missão cumprida, sucesso e boa sorte. Se não era, talvez estejamos diante de uma das piores estratégias de marketing da década. Aos especialistas que tentam justificar a campanha dizendo que “a mensagem é apenas um jogo de palavras com o ditado popular de começar algo com o pé direito”, fica a sugestão: retomem as aulas de fundamentos do marketing.

Sou jornalista, não marketeiro, mas os fundamentos nos são ensinados da mesma forma durante as aulas de comunicação social. Regra número um: se a mensagem não chega com clareza ao interlocutor, ela falhou. Comunicação não pode depender de leituras extensivas e interpretações subjacentes, salvo quando isso é explicitamente construído com bordões, ironia evidente ou anedotas inequívocas — Como dizia Montaigne: clareza, clareza, clareza.

Regra número dois: contexto importa. Utilizar uma figura pública abertamente politizada como a Fernanda Torres — independentemente de sua excelência profissional em um ambiente polarizado como brasileiro, obviamente, gera ruído.

Fernanda Torres é uma atriz consagrada, não tenhamos dúvidas, mas, novamente, é uma ativista abertamente política, logo, as respostas seriam inevitáveis — fato que me faz questionar, genuinamente, se em momento nenhum da construção da campanha, o publicitário não avaliou o óbvio.

E um adendo: Jura? Ninguém aprendeu nada com o caso Sydney Sweeney nos Estados Unidos?

Mas isso nos ensina uma valiosa lição: Se a empresa espera se posicionar politicamente, assumindo as consequências para tal, “comprando uma briga”, ótimo. A beleza da democracia é essa. Se não, tenham em mente as regrinhas básicas que citei acima.



O episódio envolvendo a Havaianas tem tudo para se tornar um estudo de caso em cursos de Publicidade e Propaganda. E não por acaso. Existe uma linha tênue — sustentada justamente pelas regras citadas — que não pode ser cruzada. Publicidade não pode soar como propaganda. Aos marketeiros de plantão, convém lembrar: no Brasil, às vezes usamos Havaianas no pé direito, Ipanema no esquerdo e carregamos um Crocs na mochila, e tendo em vista que o brasileiro, no fim das contas, ainda prefere andar descalço.

Na era da informação, as pessoas — ao menos uma parte delas — não são ingênuas. Ignorar isso pode custar caro. A reparação de danos, quando a mensagem escapa do controle, dói mais do que muitos imaginam, e principalmente no bolso.

Não poderia encerrar a semana do Natal sem tocar nesse assunto. No fundo, o episódio talvez seja apenas um prenúncio do que nos espera em 2026, ano de eleição presidencial — Entendeu, equipes de marketing? 2026, ano eleitoral, não preciso desenhar, certo? Good boys.

Um feliz Natal a todos e um boa sorte para alguns.


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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