No silêncio dos primeiros estudos, comportamentos que hoje são compreendidos ainda eram vistos como enigmas. Crianças que não respondiam ao contato social, que repetiam palavras ou se isolavam, intrigavam médicos e pesquisadores. Foi nesse cenário que começou a ser construída a história do autismo, tema que ganha ainda mais relevância nesta quinta-feira, dia 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo.
O termo “autismo” surgiu ainda em 1911, mas foi apenas na década de 1940 que o transtorno começou a ser descrito de forma mais estruturada. O psiquiatra austríaco Leo Kanner foi um dos primeiros a identificar padrões em crianças com características semelhantes, descrevendo o que chamou, à época, de “autismo infantil”.
Quase simultaneamente, o também austríaco Hans Asperger conduzia estudos com perfis semelhantes na Europa. No entanto, décadas antes, em 1926, a pesquisadora russa, Grunya Sukhareva, já havia registrado casos compatíveis com o que hoje se entende como Transtorno do Espectro Autista (TEA) – um trabalho que só ganhou reconhecimento muitos anos depois.
Atualmente, o diagnóstico do TEA é baseado no DSM-5, que define o transtorno a partir de dois principais eixos: dificuldades na comunicação e interação social, além de padrões de comportamento restritos e repetitivos.
O “caso 1” e o início de tudo
Entre os primeiros registros clínicos, um nome se tornou simbólico: Donald Triplett. Nascido em 1933, nos Estados Unidos, ele ficou conhecido como o “caso 1” do autismo.

Desde cedo, os pais perceberam comportamentos diferentes. O menino não reagia a estímulos sociais, evitava contato e demonstrava pouco interesse em interações com outras crianças. Ao mesmo tempo, apresentava habilidades notáveis, como memória excepcional e facilidade para aprender músicas.
Em 1938, Donald foi avaliado por Leo Kanner e se tornou um dos 11 casos que fundamentaram o primeiro estudo sobre o transtorno. Na época, o diagnóstico ainda era desconhecido e cercado de incertezas.
Apesar das dificuldades iniciais, incluindo uma breve internação ainda na infância, Donald teve uma vida independente na fase adulta, desafiando estigmas e mostrando, na prática, a diversidade dentro do espectro.
Avanços da ciência e novos caminhos
Mais de oito décadas após as primeiras descrições, o conhecimento sobre o Transtorno do Espectro Autista avançou, mas ainda há desafios. Hoje, especialistas apontam que o transtorno tem origem multifatorial, envolvendo fatores genéticos, ambientais e condições durante a gestação, como infecções e uso de determinados medicamentos.
De acordo com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neuromodulação, pesquisas no Brasil têm investigado esses impactos e novos tratamento . Outro foco atual é a identificação de biomarcadores que permitam diagnósticos mais precoces, considerados essenciais para o desenvolvimento das pessoas com TEA.