Atenção: a matéria a seguir traz relatos sensíveis de agressão e abuso sexual e pode ocasionar gatilhos sobre estupro, violência contra a mulher e violência doméstica. Caso você seja vítima deste tipo de violência, ou conheça alguém que passe ou já passou por isso, procure ajuda e denuncie. Ligue para o 180.
Durante muito tempo, muitas brasileiras viveram anos dentro de relacionamentos abusivos sem sequer reconhecer que eram vítimas de violência. Humilhações, controle financeiro, ameaças, isolamento e perseguições eram tratados como problemas do casal ou conflitos da vida a dois.
Duas décadas após a criação da Lei Maria da Penha, especialistas afirmam que uma das maiores mudanças promovidas pela legislação aconteceu antes mesmo da denúncia: as mulheres passaram a identificar a violência, compreender seus direitos e buscar ajuda.
A Lei Maria da Penha completa 20 anos na próxima sexta-feira, 7 de agosto. Para marcar a data, o VTV News publica, ao longo desta semana, uma série especial de sete reportagens sobre os avanços e os desafios no enfrentamento à violência contra a mulher.
Depois de mostrar, na primeira reportagem, como a legislação transformou a proteção às vítimas, esta segunda edição revela uma mudança silenciosa, mas decisiva: cada vez mais mulheres conseguem reconhecer os sinais da violência, procuram ajuda e encontram na rede de atendimento a chance de recomeçar.
“Eu tentei tirar a minha própria vida porque já não suportava mais viver daquele jeito.”
— RebecaA frase é de Rebeca, nome fictício para preservar a identidade da entrevistada, e resume o ponto em que a violência ultrapassou todos os limites. Ela não foi dita em uma delegacia nem durante uma audiência judicial, mas anos depois, quando conseguiu olhar para a própria história sem estar dominada pelo medo.
Antes das agressões físicas vieram o controle sobre a forma de vestir, as amizades, as músicas que podia ouvir, as humilhações constantes e a sensação de que qualquer conflito era culpa dela. Quando finalmente conseguiu deixar a casa onde vivia com o agressor, descobriu que sair da violência era apenas o início de um processo de reconstrução.
Na tentativa de denunciar, enfrentou um obstáculo ainda comum para muitas mulheres: o julgamento. Precisou explicar repetidas vezes por que permaneceu tanto tempo naquele relacionamento e reviver, em diferentes momentos, toda a violência sofrida.
Hoje, ela aponta três fatores que considera decisivos para sobreviver e reconstruir a própria vida: atendimento psicológico, apoio das amigas e independência financeira.
A história de Rebeca ajuda a responder uma das perguntas que marcam os 20 anos da Lei Maria da Penha: a lei realmente saiu do papel?
Duas décadas de transformação
Quando entrou em vigor, em agosto de 2006, a Lei Maria da Penha mudou a legislação brasileira, mas ainda precisava vencer outro desafio: convencer mulheres de que a violência vivida dentro de casa era um crime e que elas tinham direito à proteção.
Os números mostram essa mudança ao longo do tempo.

No primeiro ano completo de funcionamento da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180 registrou pouco mais de 46 mil atendimentos. Após a criação da lei e sua ampla divulgação, a procura praticamente dobrou ainda em 2006. Em 2009, já eram mais de 400 mil atendimentos.
A expansão continuou nos anos seguintes. Em 2024, o serviço recebeu quase 700 mil ligações. Em 2025, ultrapassou 1 milhão de atendimentos, crescimento de 45% em relação ao ano anterior.
Em 2026, o canal segue registrando aumento na procura, com predominância de relatos relacionados à violência psicológica, mostrando que cada vez mais mulheres conseguem identificar situações que antes eram naturalizadas.
Mais do que números, especialistas avaliam que esse crescimento representa maior confiança na rede de proteção e mais informação sobre os direitos garantidos pela legislação.
Em duas décadas, o Ligue 180 passou de pouco mais de 46 mil atendimentos para mais de um milhão por ano. Para pesquisadores, essa evolução não representa apenas o crescimento das denúncias, mas o amadurecimento da Lei Maria da Penha e o fortalecimento da rede de proteção às mulheres.
A pesquisadora Laura Talho, do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV-USP) destaca que o aumento dos registros não significa, necessariamente, que a violência esteja crescendo na mesma proporção. Segundo ela, parte desse avanço reflete uma mudança importante: mais mulheres reconhecem a violência, denunciam e procuram os serviços de proteção, algo muito menos frequente há duas décadas.

Reconhecer também é uma forma de romper o ciclo

Para a psicóloga clínica e terapeuta de casais Ana Flávia Spòsito Onofri, um dos maiores avanços proporcionados pela Lei Maria da Penha foi ampliar o entendimento da sociedade sobre o que caracteriza violência doméstica.
Segundo ela, durante muitos anos a violência era associada apenas às agressões físicas. Hoje, as mulheres conseguem identificar sinais que aparecem muito antes, como manipulação, controle, isolamento, chantagens e perda gradual da autonomia.
A especialista destaca que reconhecer essa dinâmica não é apenas um exercício racional, mas um processo emocional que exige acolhimento, escuta qualificada e acesso à rede de proteção.
Quando a rede funciona, vidas podem ser reconstruídas
A estudante Laís, nome fictício para preservar a identidade da entrevistada, de 19 anos, cresceu assistindo à violência dentro de casa. Ainda criança, presenciou agressões contra a mãe e chegou a ligar para a polícia escondida, enquanto a vítima permanecia ferida dentro do quarto. O pedido de ajuda foi interrompido porque a própria mãe, tomada pelo medo, acreditava que denunciar poderia colocar toda a família em risco.
Foram necessários anos para que ela conseguisse romper aquele ciclo.
Com boletim de ocorrência, medida protetiva e apoio institucional, a família finalmente encontrou segurança para recomeçar. O medo, porém, ainda acompanha mãe e filha. Recentemente, descobriram que o agressor voltou para a cidade onde vivem.
Nenhuma estatística começa com um número. Ela começa com um pedido de socorro que alguém decidiu ouvir
E quando alguém escuta um pedido de socorro?
Em Magé, na Baixada Fluminense, a secretária municipal de Políticas para Mulheres e Cuidados, Fernanda Harb, presenciou uma situação que jamais esqueceu.
Ao ser acordada pelas filhas durante a madrugada, que relataram ouvir os gritos de uma vizinha, Fernanda correu até a residência e encontrou a mulher sendo arrastada pelos cabelos pelo ex-companheiro. Enquanto Fernanda acionava a Polícia Militar, a vítima conseguiu fugir.
Depois do resgate, vieram o atendimento médico, o registro da ocorrência, o exame de corpo de delito, a medida protetiva e o acompanhamento pela rede de proteção.
Para ela, aquele episódio mostrou que nenhuma política pública funciona sozinha. É preciso que alguém esteja disposto a acreditar na vítima e agir.
“Naquele momento eu nem pensei, apenas corri até a casa dela. O portão estava arrombado e, quando entrei, vi o agressor arrastando a vítima pelos cabelos escada acima. Eu comecei a gritar que estava chamando a polícia e, nesse momento, ele se desequilibrou. Ela conseguiu fugir e nós corremos com ela para a minha casa.”
— Fernanda HarbNão existe um perfil para a violência
Ao longo dos últimos 20 anos, outra percepção também mudou: a de que existe um “perfil” de mulher que sofre violência doméstica. Especialistas afirmam que a violência pode atingir mulheres de qualquer idade, escolaridade, profissão ou condição financeira. O que costuma se repetir não é o perfil da vítima, mas a dinâmica exercida pelo agressor: controle, isolamento, manipulação e medo.
As histórias reunidas pelo VTV News nesta série especial de reportagens ilustram essa realidade. Rebeca permaneceu anos em um relacionamento marcado por humilhações e agressões psicológicas até chegar ao limite de tentar tirar a própria vida.
Laís não era a vítima direta das agressões, mas cresceu assistindo à mãe ser violentada dentro de casa e carrega, até hoje, as marcas emocionais da infância vivida sob ameaças constantes.
Já a mulher socorrida por Fernanda Harb conseguiu sobreviver porque alguém ouviu seus gritos e acionou a rede de proteção a tempo.
A violência também alcançou mulheres em posições de liderança. Durante 17 anos de casamento, Kátia Regina acreditou que vivia apenas um relacionamento difícil. Diretora de uma multinacional, foi durante uma live promovida pela empresa no Dia Internacional da Mulher, ao ouvir relatos de outras vítimas, que percebeu estar vivendo exatamente o mesmo ciclo de violência. Decidiu pedir o divórcio. No dia marcado para assinar a separação, sofreu uma tentativa de feminicídio. Foi espancada e ficou paraplégica.

“Eu era uma mulher independente, com carreira sólida, diretora em uma grande empresa, com acesso à informação, rede de relacionamento e estabilidade financeira. Ainda assim, vivi violência.”
— KÁTIA REGINA
Outra história é a de Naira Suely Alencar Camargo, de 31 anos, ex-jornalista, apresentadora de TV, empresária e palestrante com mais de um milhão de seguidores nas redes sociais. Ela relata que, aos poucos, deixou de ser quem era. Perdeu a própria identidade, rompeu amizades por influência do companheiro, viveu ameaças, violência psicológica e agressões físicas. O relacionamento chegou ao limite quando o agressor quase tirou a vida dela.
“Ele inventava histórias de que as pessoas reparavam algo em mim. Isso foi me enclausurando. Eu fui parando de ser quem eu realmente era.”
— NAIRA ALENCARA jurista Laila Hage, estudiosa do Direito e pesquisadora da área jurídica, também viveu um relacionamento abusivo. Mesmo conhecendo a legislação, enfrentou dificuldades para romper o ciclo da violência e para garantir o cumprimento das medidas protetivas. Sua trajetória demonstra que conhecimento e estudos na área do direito não tornam uma mulher imune à violência, porque os efeitos da manipulação emocional ultrapassam qualquer formação acadêmica.

“A violência doméstica não tem cara, não tem ideologia, ela atinge todas nós.”
— LAILA HAGEL
Os dados nacionais ajudam a explicar por que essas histórias se repetem em contextos tão diferentes. Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, estima que 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar em 2025. O levantamento mostra ainda que 33% das entrevistadas vivenciaram ao menos uma forma de violência sem, necessariamente, se reconhecerem como vítimas. Outro dado chama atenção: 71% das agressões aconteceram na presença de outras pessoas e, na maior parte dos casos, havia crianças assistindo às cenas de violência. Em 40% das ocorrências, ninguém ofereceu ajuda.
A infância de Laís ajuda a dar rosto a essa estatística. Ela era uma das milhares de crianças que cresceram assistindo às agressões contra a própria mãe. Histórias como a dela mostram que a violência doméstica ultrapassa a vítima direta e deixa marcas que atravessam gerações.
Para especialistas, os dados do DataSenado confirmam uma transformação importante dos últimos 20 anos: mais mulheres conseguem reconhecer a violência e buscar ajuda. Ao mesmo tempo, revelam que o desafio permanece enorme, já que milhões ainda convivem com agressões sem conseguir romper o ciclo.
A lei saiu do papel, mas o desafio continua
Vinte anos depois, a Lei Maria da Penha transformou o caminho entre a violência e a proteção. Mais mulheres reconhecem relacionamentos abusivos, os canais de denúncia estão mais acessíveis, a rede de atendimento foi ampliada e a sociedade passou a compreender que a violência doméstica vai muito além das agressões físicas.
Ao mesmo tempo, histórias como as de Rebeca, Kátia Regina, Naira Alencar, Laila Hage e Laís mostram que romper esse ciclo ainda significa enfrentar medo, julgamentos e, muitas vezes, reviver a violência durante a busca por ajuda.
Os avanços são inegáveis. O desafio agora é garantir que nenhuma mulher precise chegar ao limite para ser ouvida. Porque a verdadeira força da Lei Maria da Penha não está apenas na punição do agressor, mas na capacidade de fazer com que uma vítima encontre proteção antes que sua história termine como mais um número nas estatísticas.
A violência não tem perfil, e vítimas também não
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Amanhã (dia 3), a série especial do VTV News mostra que a violência contra a mulher nem sempre deixa marcas visíveis. A terceira reportagem explica os cinco tipos de violência reconhecidos pela Lei Maria da Penha e como identificar sinais que, muitas vezes, passam despercebidos no dia a dia. Os conteúdos serão publicados sempre às 11h.
Serviço
Para denunciar casos de violência contra a mulher:
- Disque 190 (Polícia Militar)
- Disque 180 (Polícia Militar – Central de Atendimento à Mulher)
- Disque 181 (Disk Denúncia)
- Delegacias de Defesa da Mulher (veja os endereços)
- Delegacia Eletrônica da Polícia Civil (acesse aqui)
- Atendimento presencial em delegacias de polícia e salas DDM Online (veja lista de endereços aqui)