O sarampo em São Paulo voltou a preocupar pais e responsáveis diante do aumento de casos registrados no estado. Até 7 de agosto, São Paulo contabilizava 23 casos confirmados em 2026, segundo dados da Secretaria Estadual da Saúde divulgados à imprensa.
Dos pacientes identificados até aquela data, 16 não tinham histórico de vacinação ou estavam com o esquema vacinal incompleto. Os registros envolvem bebês, crianças e adultos.
Altamente contagioso, o sarampo pode causar complicações graves, principalmente em crianças pequenas, gestantes e pessoas com a imunidade comprometida.
Para esclarecer as principais dúvidas, a VTV News conversou com a infectologista Ariane Melare, gerente do Serviço de Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (SCIRAS) do Hospital e Maternidade Sepaco. A especialista explicou como reconhecer a doença, como ocorre a transmissão e quem deve receber a vacina.
Quais são os sintomas do sarampo?
Os principais sintomas do sarampo são febre, manchas vermelhas pelo corpo, tosse, coriza, irritação nos olhos e mal-estar.
Segundo Ariane, as manchas costumam aparecer primeiro no rosto e atrás das orelhas. Depois, avançam para o tronco e os membros.
Entre os principais sinais estão:
- Febre alta, geralmente acima de 38,5°C;
- Manchas vermelhas na pele;
- Tosse seca;
- Coriza;
- Conjuntivite ou irritação nos olhos;
- Mal-estar intenso.
O quadro pode se parecer com outras viroses comuns na infância. Por isso, a especialista recomenda atenção aos primeiros sinais.
“Uma vez que haja suspeita, a confirmação depende de avaliação médica e exames específicos”, explica.
O Ministério da Saúde também alerta que a persistência da febre depois do aparecimento das manchas pode indicar maior gravidade, principalmente em crianças menores de 5 anos.

Como o sarampo é transmitido?
O vírus do sarampo passa principalmente pelo ar, por meio de gotículas e pequenas partículas liberadas ao falar, tossir, espirrar ou respirar.
A doença está entre as infecções mais contagiosas. Segundo o Ministério da Saúde, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 90% das pessoas próximas que não tenham imunidade.
Outro ponto de atenção é que a transmissão pode começar antes do surgimento das manchas vermelhas.
“O vírus pode permanecer no ambiente por algumas horas, especialmente em locais fechados”, explica Ariane.
Por isso, escolas, creches e outros espaços com grande circulação de pessoas exigem atenção quando existe um caso suspeito ou confirmado.
Criança pode pegar sarampo brincando no parquinho?
Sim, caso tenha contato com uma pessoa infectada.
Segundo Ariane, um parquinho ao ar livre apresenta risco menor do que um espaço fechado. Mesmo assim, existe possibilidade de transmissão dependendo da proximidade e do contato com uma pessoa infectada.
O vírus não depende apenas do contato físico direto. Como pode circular por partículas respiratórias, a proximidade com alguém contaminado também representa risco para quem não está imunizado.
Quais vacinas protegem contra o sarampo?
Existem três tipos de vacina que podem oferecer proteção contra o sarampo: dupla viral, tríplice viral e tetraviral.
Cada uma protege contra diferentes doenças:
- Dupla viral: protege contra sarampo e rubéola;
- Tríplice viral: protege contra sarampo, caxumba e rubéola;
- Tetraviral: protege contra sarampo, caxumba, rubéola e varicela, conhecida como catapora.
Na rotina dos serviços públicos de saúde, as principais opções são a tríplice viral e a tetraviral.
A vacina contra o sarampo em São Paulo ganhou ainda mais importância diante dos casos registrados e da necessidade de ampliar a proteção da população.

Como funciona o esquema de vacinação contra o sarampo?
No calendário de rotina, a primeira dose deve ser aplicada aos 12 meses de idade. A segunda ocorre aos 15 meses, geralmente com a vacina tetraviral.
Para outras faixas etárias, a orientação apresentada pela especialista é:
- Pessoas de 5 a 29 anos sem vacinação ou com esquema incompleto: duas doses;
- Pessoas de 30 a 59 anos não vacinadas: uma dose;
- Profissionais de saúde: duas doses, independentemente da idade.
Quem não sabe se tomou a vacina deve procurar uma unidade de saúde para avaliar a situação vacinal.
Segundo Ariane, quando não existe comprovação das doses, geralmente a pessoa é considerada não vacinada e deve atualizar o esquema conforme a idade, desde que não exista contraindicação.
Meu filho tomou apenas uma dose da vacina. Ele está protegido?
A criança tem uma proteção importante, mas ainda pode pegar sarampo.
A primeira dose não gera imunidade suficiente em todas as crianças. É por isso que o calendário prevê uma segunda aplicação.
“A segunda dose aumenta a proteção e reduz o número de pessoas suscetíveis”, explica Ariane.
Por isso, pais e responsáveis devem verificar a carteira de vacinação e completar as doses que estiverem em atraso.
O que é a dose zero contra o sarampo?
A dose zero é uma aplicação antecipada da vacina para crianças entre 6 e 11 meses em determinadas situações epidemiológicas.
Segundo Ariane, a cidade de São Paulo adotou a estratégia para ampliar a proteção dos bebês diante dos casos da doença.
Essa vacinação, porém, não substitui as doses previstas no calendário de rotina.
Isso significa que, mesmo depois da dose zero, a criança ainda precisa receber a primeira dose aos 12 meses e a segunda aos 15 meses.
Diante da cadeia de transmissão identificada em agosto, a Secretaria Estadual da Saúde também ampliou a vacinação para pessoas entre 6 meses e 59 anos na capital paulista, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo, independentemente do histórico vacinal.
Quais são as complicações do sarampo?
O sarampo pode causar pneumonia, infecção no ouvido, desidratação, diarreia intensa e encefalite, entre outras complicações.
Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, cerca de 1 em cada 20 crianças com sarampo pode desenvolver pneumonia, uma das principais causas de morte pela doença em crianças pequenas.
A otite média aguda pode atingir aproximadamente 1 em cada 10 crianças e, em alguns casos, provocar perda auditiva permanente.
Já a encefalite, uma inflamação no cérebro, pode atingir entre 1 e 4 a cada mil crianças infectadas.
Os grupos com maior risco de complicações incluem:
- Crianças menores de 5 anos, especialmente menores de 1 ano;
- Gestantes;
- Pessoas imunocomprometidas;
- Pessoas com deficiência de vitamina A;
- Adultos sem imunização.
Ariane também alerta para a panencefalite esclerosante subaguda, uma doença neurológica rara e grave associada ao vírus que pode surgir posteriormente e causar sequelas.

Existe tratamento para o sarampo?
Não existe um medicamento específico para eliminar o vírus do sarampo.
O tratamento busca controlar os sintomas e evitar complicações. Nos casos sem complicações, o Ministério da Saúde orienta cuidados como hidratação, suporte nutricional e controle da febre com acompanhamento profissional.
Antibióticos não combatem o vírus. Eles só devem ser utilizados quando um médico identificar alguma infecção bacteriana secundária.
O Ministério da Saúde também recomenda vitamina A para crianças com suspeita da doença, conforme avaliação clínica ou nutricional e a faixa etária.
Diante dos sintomas, a orientação é procurar um serviço de saúde e evitar o uso de medicamentos por conta própria.
Gestante pode tomar vacina contra o sarampo?
Não. A tríplice viral contém vírus vivo atenuado e não deve ser aplicada durante a gestação.
A recomendação é que a mulher verifique a situação vacinal antes de engravidar.
Durante a gravidez, Ariane orienta evitar contato com pessoas que tenham suspeita de sarampo e procurar atendimento rapidamente em caso de exposição ou sintomas.
Em algumas situações, profissionais de saúde podem avaliar medidas de prevenção após o contato com uma pessoa infectada.
Depois do parto, mulheres que não estejam imunizadas podem receber a vacina.
Quem já teve sarampo pode pegar novamente?
Em geral, não.
Segundo Ariane, uma infecção pelo vírus costuma produzir imunidade duradoura. O problema é que algumas pessoas acreditam ter tido sarampo durante a infância quando, na verdade, tiveram outra doença que também provocava manchas na pele.
Quando existe dúvida sobre o histórico da doença, a orientação é verificar a situação vacinal.
Por que o sarampo voltou a preocupar?
O Brasil recebeu a certificação de eliminação do sarampo em 2016. A doença voltou a circular a partir de 2018 em um cenário relacionado à entrada de casos vindos de outros países e à redução da cobertura vacinal.
Em 2019, o país perdeu a certificação depois de manter a transmissão do vírus por mais de 12 meses.
Em São Paulo, a cobertura vacinal também preocupa. Dados preliminares da Secretaria Estadual da Saúde divulgados em agosto apontavam cobertura de 77,5% para a primeira dose e 65,5% para a segunda dose da tríplice viral em 2026.
Os dois índices estavam abaixo da meta de 95% estabelecida pelo Ministério da Saúde.
Para Ariane, a vacinação protege não apenas quem recebe a dose, mas também ajuda a diminuir a circulação do vírus e protege pessoas que não podem tomar o imunizante, como recém-nascidos, algumas pessoas imunodeprimidas e gestantes.
Com o aumento dos casos de sarampo em São Paulo, manter a carteira de vacinação atualizada e procurar atendimento diante de sintomas suspeitos são as principais medidas para reduzir o risco de novos casos.