O Brasil registrou queda em todos os tipos de roubo em 2024, mas viu os estelionatos atingirem o maior patamar da série histórica. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (24), o país teve, em média, quatro golpes por minuto no último ano. Em paralelo, os roubos caíram à metade em seis anos.
Os dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que, embora o roubo em geral tenha recuado 15% em relação ao ano anterior, os crimes de estelionato cresceram 8%, com destaque para os golpes praticados por meios eletrônicos, que subiram 17%.
Em um recorte de seis anos, a discrepância se torna ainda mais expressiva: os roubos passaram de 1,5 milhão para 745 mil casos, enquanto os estelionatos saltaram de 426 mil para mais de 2,1 milhões — um avanço de 408%.
Dinâmica criminal migra para o digital
Segundo o levantamento, a ascensão dos golpes virtuais ocorre especialmente após a pandemia de Covid-19. De 2021 a 2024, o número de estelionatos online mais que dobrou, saindo de 120 mil registros para 281 mil — um aumento de 133%. O dado indica uma reconfiguração da lógica criminal: a subtração de bens e valores passou a ocorrer, majoritariamente, sem a presença física do autor.
De acordo com Renato, trata-se de uma transformação na governança criminal — conceito que define a forma como o crime se organiza. Para o especialista, essa mudança influencia a lógica operacional dos grupos criminosos e coloca em xeque o atual modelo de policiamento baseado em abordagens físicas e patrulhamento ostensivo.

Roubos e furtos em queda, mas ainda concentrados
O anuário também destaca a queda de 13% nos roubos e furtos de celulares, embora o número de aparelhos subtraídos continue alto: 917 mil no ano. Entre os roubos, 80% ocorreram nas ruas, com picos às quintas e sextas-feiras, especialmente entre 6h e 8h e das 19h às 20h.
À noite, os registros aumentam: 41% dos crimes com violência ou ameaça acontecem entre 18h e 23h. Já os furtos, por sua vez, são mais frequentes nos fins de semana — 34% dos casos, sendo 18% aos sábados e 16% aos domingos —, com incidência a partir das 10h e após as 18h.
Apesar da melhora nos índices gerais, apenas 8% dos aparelhos roubados foram recuperados pelas polícias.
Outras constatações do Anuário
Entre os demais indicadores, o estudo revela que:
- O número de feminicídios e mortes de crianças cresceu, mesmo com a queda de homicídios.
- Uma em cada cinco medidas protetivas de urgência foi descumprida por agressores.
- As dez cidades mais violentas do país estão no Nordeste; metade delas na Bahia, marcadas por disputas de facções.
- O investimento em segurança pública cresceu 6% em 2024 e alcançou R$ 153 bilhões — as prefeituras ampliaram seus aportes em 60% em relação a 2021.
- Os registros de novas armas caíram 79% desde o fim do governo Bolsonaro; a produção nacional recuou 92,3% no período.
- O número de pessoas presas subiu 6%, totalizando 909 mil detentos, mas o déficit de vagas já ultrapassa 237 mil. Cerca de 13% da população carcerária cumpre pena domiciliar com tornozeleira.
- Rio Grande do Norte e Santa Catarina lideram os registros de interrupções de aulas devido à violência em torno de escolas e creches públicas. O Rio de Janeiro aparece em terceiro.
- Casos de bullying e cyberbullying aumentaram, especialmente entre crianças a partir de 10 anos e adolescentes entre 14 e 17.