Eis Felca, o influenciador. Ou melhor, o jornalista que a imprensa não soube ser. Sem microfone de repórter em mãos, sem manchetes online, sem coluna nos jornais impressos, mas com um tripé, um celular e o bom e velho senso de justiça.
Foi com isso — e só com isso — que o youtuber expôs um escândalo grotesco de possível exploração de menores nas redes sociais. Nomeado nos autos extraoficiais da internet: Hytalo Santos, criador de conteúdo com mais de 20 milhões de seguidores, agora também investigado pelo Ministério Público da Paraíba por, supostamente, transformar adolescentes em personagens adultizadas para monetização digital.
O vídeo de Felca não tem patrocínio, não tem jabá, não tem roteiro de agência — mas tem o que falta em muito veículo tradicional: coragem. E senso de função pública. Enquanto colunistas ajustam termos para não ferir suscetibilidades jurídicas, Felca simplesmente fez o que se espera de qualquer profissional da imprensa: nomeou o problema, apontou o agente e sustentou a denúncia com evidências. E fez questão de assumir a bronca — avisou, inclusive, que responderia pelo que disse, judicialmente se necessário. A quem interessar, o vídeo soma 25 milhões de visualizações. Nenhuma publicidade. Nenhum clickbait. Nenhum “tigrinho”.
A pergunta que se impõe não é se Felca é o novo jornalista do século XXI. É: por que os jornalistas profissionais não estão fazendo o que ele fez?
A resposta, talvez, parece óbvia, mas é incômoda: assédio judicial. A nova mordaça digital. A prática tornou-se a mais eficiente censura da era democrática. E boa parte da imprensa brasileira, já sem fôlego, se viu obrigada a reduzir suas pautas àquelas que não incomodam quem tem advogados caros.
Felca ignorou esse pacto silencioso de autocensura. Furou a bolha — e, com ela, a covardia. Lembrou-nos que a função de denunciar não é monopólio de diploma ou redação. Mas também escancarou o colapso de um modelo comunicacional que, acuado por processos, algoritmos e interesses políticos, perdeu sua capacidade de alcance e mobilização. A imprensa, hoje, fala para si mesma. Já o influenciador, com todos os riscos que isso implica, fala para milhões. Só que nem todos os milhões têm Felca; alguns têm Hytalo.
Se a imprensa não se reinventar, não apenas como linguagem, mas como estrutura de proteção institucional, será reduzida a uma caricatura técnica: precisa, correta, ética — e irrelevante. O Supremo Tribunal Federal definiu, em passado recente, que liberdade de expressão independe de vínculo formal com veículos de comunicação. Mas essa decisão, feita no Brasil pré-reels, não previu o que aconteceria quando os “comunicadores” deixassem de ser jornalistas para se tornarem, simplesmente, virais. E agora?
É hora de discutir uma diferenciação normativa real. Jornalistas profissionais, submetidos a códigos de ética, editorias, instâncias de apuração e retificação, precisam de proteção jurídica específica. Isso não é privilégio — é defesa da função social do jornalismo. Um rito de admissibilidade para processos judiciais contra jornalistas, por exemplo, permitiria blindar a liberdade de informar sem abrir margem para abuso. Já os comunicadores digitais — influenciadores, criadores, performers — seguirão com liberdade plena, mas sob outra lógica regulatória, que não lhes permita camuflar autopromoção ou monetização como jornalismo de interesse público.
Enquanto isso não acontece, seguiremos assim: com jornalistas que escrevem sobre escândalos após serem pautados por vídeos no YouTube, e com criadores de conteúdo que fazem o trabalho de redações inteiras por pura indignação moral — e sem nenhum banner no rodapé. Que bom que ainda temos Felcas para nos lembrarmos do porquê seguimos a carreira de jornalista.